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Café feito por pessoas negras repensa história: 'só apareciam escravizadas'

Raphael, do Café di Preto: café é produzido apenas por pessoas negras - Reprodução/Instagram
Raphael, do Café di Preto: café é produzido apenas por pessoas negras Imagem: Reprodução/Instagram

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo (SP)

08/04/2022 06h00

Raphael da Silva Brandão, 29, percebeu um padrão nas imagens sobre café na internet. "As pessoas negras relacionadas ao café só apareciam como escravizadas", reparou. Em 2020, ele criou o Café di Preto. A marca é formada apenas por pessoas negras, da produção à venda. Segundo ele, é uma revisão da participação negra na história cafeeira e uma integração de mais pessoas negras no setor.

Não à toa, o café é um dos pilares da agricultura brasileira desde o século 18. A exportação do grão sustentou as finanças do Brasil colonial, imperial e da República Velha no século 20 e formou elites tradicionais no país, especialmente no sudeste.

Em 2021, havia 1,82 milhão de hectares de plantação de café no país, de acordo com a Embrapa. Em comparação, a Mata Atlântica atual possui 2,33 milhões de hectares. No ano passado, o Brasil gerou 164,8 milhões de sacas. Apesar disso, Raphael teve dificuldade para encontrar produtores negros de café. O IBGE calcula que só 8% das propriedades agrícolas são lideradas por negros no país.

"Muitas produções de café estão na quinta ou quarta geração de produtores. Eu encontrei produtores negros que são ainda da primeira geração, depois de muito esforço", diz. "Se a gente puxar o histórico de 200 anos das famílias brancas produtoras de café, muitas que são ricas até hoje usaram trabalho escravizado em algum momento".

E, em alguns casos, o trabalho escravo não ficou só no passado. O café lidera entre os setores econômicos com mais registros de trabalhadores encontrados em situação análoga à de escravidão, com 122 resgatados segundo o registro atualizado do Ministério do Trabalho.

Café di Preto: Raphael seguiu sonho de torrefação só com pessoas negras - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Café di Preto: Raphael seguiu sonho de torrefação só com pessoas negras
Imagem: Reprodução/Instagram

Café especial

O café é dividido entre tradicional e especial. O grão especial é mais caro, exige certificações para confirmar a origem do produto, é produzido em quantidades menores e tem sabores mais peculiares de acordo com a marca. É mais encontrado em cafeterias especiais. O tradicional é o mais barato e habitual nos mercados.

Segundo Raphael, o Café di Preto se enquadra na categoria especial, com notas achocolatadas e uma produção feita por meio de agricultura familiar. Há ainda preocupação em manter preços mais acessíveis: uma embalagem de 250 gramas sai por R$ 20, valor considerado baixo para a categoria.

O produtor Luiz Carlos Romão, de Perdões, Minas Gerais, se uniu com Raphael há cerca de um ano, após muita procura por um produtor negro. Seu Luiz trabalha com a família em um terreno de 10,8 hectares de terra, comprado com um prêmio lotérico, em 2012. "A gente tem dificuldades no mercado por ser negro. Por isso, acabei me interessando e me entusiasmando com o projeto do Raphael", diz.

O trabalho com café também é duro na cidade. Raphael diz que os cursos de especialização na área são caros e ainda mais altos para baristas. "Um barista trabalha muito, precisa conhecer grãos, máquinas, e não recebe como deveria", diz. (No estado de São Paulo, o piso salarial para baristas varia entre R$ 1.200 e R$ 1.500, com trabalho de segunda a sábado; o valor se aproxima do custo para um curso para baristas da capital paulista).

E agora, José?

Os baristas das cafeterias e padarias costumam usar café especial de empresas de torrefação, a etapa responsável pela torragem dos grãos de acordo com o sabor, aroma e textura desejados. É o processo anterior a serem moídos. Raphael é um torrefador.

Ele vendia brigadeiros quando começou na torrefação, em 2019. Na ida a eventos da área, porém, não via pessoas negras. "Era só uma elite", diz. Assim, arregaçou as mangas e se aprofundou nos estudos a partir do próprio trabalho — até hoje, não pôde pagar um curso de especialização.

Em 2020, ele criou a Café di Preto com o empréstimo de uma máquina de torrefação e recursos vindos das vendas feitas por uma plataforma online. No período, exportou para 15 estados e para Alemanha. Nesse começo, acabava tendo que comprar café de produtores brancos — mas nunca desistiu de buscar produtores negros, até encontrar Luiz Brandão, cerca de um ano depois.

No meio do caminho, lançou uma campanha de doações para arrecadar R$ 100 mil para a compra da própria máquina. As doações não atingiram a meta, o que obrigou a Raphael a se virar para equilibrar as contas do negócio.

Raphael formado com bolsa de estudos de instituição norte-americana cafeeira para desenvolver Café di Preto - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Raphael formado com bolsa de estudos de instituição norte-americana cafeeira para desenvolver Café di Preto
Imagem: Reprodução/Instagram

Há algumas semanas, porém, ele foi surpreendido: uma ONG americana de igualdade racial lhe deu uma bolsa de estudos de especialização em café. Eram apenas duas vagas no Brasil. Os cursos foram dados em São Paulo, no fim de março. Está, agora, formado.

"Eu estou muito feliz", ele diz. No futuro, além de um site próprio para a venda de café, Raphael pretende promover oficinas sobre o tema para crianças. "Quero que meu café desperte as crianças pretas desde cedo", conclui.

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