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Sem nunca ter plantado antes, artista transformou terreno baldio em fazenda

Joanna Bassi e hortaliças que plantou na fazenda Rose Hill - Fernanda Ezabella/UOL
Joanna Bassi e hortaliças que plantou na fazenda Rose Hill Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Fernanda Ezabella

Colaboração para Ecoa, de Los Angeles (EUA)

07/05/2021 06h00

A californiana Joanna Bassi passou meses tirando mato e ervas daninhas do terreno baldio nos fundos de sua casa, algumas tão grandes que passavam de sua altura. Na limpeza, encontrou também surpresas soterradas: garrafas de cerveja dos anos 1920, partes de uma motocicleta, pratos antigos e um tapete felpudo onde morava uma família de aranhas viúvas-negras.

"Era praticamente um sítio arqueológico", brinca Bassi, que começou em 2017 a transformar sua propriedade em Montecito Heights, um bairro residencial a 6 km do centro de Los Angeles. A casa de dois quartos fica no topo de uma colina, com vista para as montanhas e, nos dias de céu limpo, para o oceano Pacífico.

Hoje, no lugar do lixão, está a fazendinha urbana Rose Hill Farm. Há alface, acelga, beterraba, cenoura, flores comestíveis e árvores frutíferas, tudo orgânico. Foram três anos de trabalho intenso no terreno de 522 m², que traz um detalhe nada pequeno: fica numa encosta íngreme, agora convertida em sete terraços.

Formada em artes plásticas, Bassi nunca havia plantado nada na vida. Ainda assim, largou a carreira em Hollywood, onde atuava como assistente de produção de arte de filmes e seriados, como "How to Get Away with Murder".

Vista geral da fazenda urbana Rose Hill - Fernanda Ezabella/UOL - Fernanda Ezabella/UOL
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

"Não estava feliz, não era para mim. Comecei a sonhar com agricultura urbana, em estar mais próxima da terra", ela explicou ao Ecoa, interrompendo a frase para apontar um falcão que se refrescava na sua recém-instalada fonte de água. "Fico emocionada com esses encantos da natureza. Ainda não me acostumei."

Mãos à obra

Depois de meses levando lixo e mato colina acima, Bassi conseguiu escalar a família para o projeto. Nas horas vagas, seu pai e seu irmão ajudavam a construir os muros de contenção, usando cavadeiras manuais para enterrar os postes.

Chegaram a comprar uma perfuradora a gasolina, mas a máquina quebrou em pouco tempo ao encontrar o tal tapete felpudo de seis metros. "Quase quebrou meu braço, foi um baita tranco", lembra Bassi.

"Foi perigoso. Trazer cimento aqui também foi muito difícil porque o terreno estava erodindo, os pés afundavam. Eu me equilibrava para não cair colina abaixo."

Assim que um terraço ficava pronto, ela já saía plantando. A primeira investida foi nos tomates. Na primeira colheita, em 2018, conseguiu 360 kg em nove variedades. O ano seguinte trouxe menos tomates devido a uma geada na primavera, mas rendeu 90 kg de alface e acelga, 27 kg de espinafre e 9 kg de cenoura e beterraba.

"A grande lição foi reabilitar o solo porque não tinha nenhum valor nutricional. Era bem argiloso. Passei muito tempo misturando com composto", disse. "Este é finalmente o primeiro ano que estou satisfeita."

Bassi consegue composto orgânico gratuito da própria cidade de Los Angeles. É o chamado "zoo doo", que mistura fezes de herbívoros como elefantes e zebras do zoológico local com restos de folhas, gramas e outros verdes recolhidos pelo Griffith Park. "Levo uns 17 sacos por vez e faço umas sete visitas por temporada", disse.

Joanna Bassi na estufa da fazenda Rose Hill - Fernanda Ezabella/UOL - Fernanda Ezabella/UOL
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Burnout rural

No primeiro terraço da fazendinha, hoje brilham grandes folhas verdes e roxas de alface, acelga e beterraba em diferentes estágios de crescimento. No segundo andar, Bassi fez um "jardim sensorial": plantou capim alto para toque e som, tomilho para aroma e papoulas para visão. Perto da fonte, ficam a sálvia e a menta, das quais ela tira folhinhas para experimentar durante um tour com a reportagem.

Para o zucchini, ervilha e espinafre-indiano, ela pretende fazê-los crescer na treliça. "Para espaços pequenos, a melhor coisa é plantar na vertical", diz. As árvores frutíferas ainda são jovens, mas promissoras. Tem avocado, pé de maracujá, macieiras e cerejeiras.

Há também uma estufa onde planta dezenas de bandejas de microgreens de manjericão, salsa, couve, brócolis, rúcula e mostarda. Antes da pandemia, ela vendia para três restaurantes e uma feira local. Agora só sobrou um restaurante, mas que compra toda sua produção.

Em 2020, ela chegou a oferecer caixas de alimentos, mas percebeu que não era um negócio viável. Trabalhava 16 horas por dia, colhendo, limpando, empacotando e entregando. Acabou que negligenciou novos plantios e ficou meses sem colheita. Teve um "burnout" rural.

"Era trabalhoso demais. Percebi que não é uma fazenda de alta rotação. Precisava ser mais prática e realista. Por isso mudamos a estratégia de negócios", explicou Bassi, servindo água gelada com rodelas de limão colhido do pé.

Ela quer fazer do Rose Hill Farm um espaço de entretenimento e centro educacional. Em abril, organizou o primeiro jantar com oito convidados, todos vacinados. A cliente trouxe uma chef que preparou pratos com ajuda dos ingredientes locais: alfaces, flores comestíveis e ervas.

Vista geral da fazenda urbana Rose Hill - Fernanda Ezabella/UOL - Fernanda Ezabella/UOL
Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Esculpindo a terra

Quando não passa o dia cuidando das hortas ou pesquisando novas técnicas no YouTube, Bassi se volta para suas obras de arte, como esculturas feitas com raízes trançadas. É algo que ela produzia antes da Rose Hill Farm, embora veja uma conexão entre os dois trabalhos.

"Quando olho para meu quintal, penso que estou basicamente esculpindo terra. Você precisa relacionar o trabalho com algo familiar para ficar menos assustador", disse.

"Meu estilo de plantio é trazer alegria das descobertas. Não tenho um canteiro só de flores ou só de rabanetes, sempre tem algo diferente no meio. Quero que as pessoas façam suas descobertas e se sintam inspiradas."

Além de reabilitar o solo, outra grande lição foi aprender a lidar com as pestes, especialmente os "gophers", pequenos roedores que fazem túneis na terra e destroem as raízes. Quando o falcão e as corujas não dão conta do recado, Bassi instala armadilhas para pegar os animais.

"Uma vez, fui viajar no final de semana e quando voltei tinham acabado com meus tomates. Felizmente era meu ano de testes, não vendia nada ainda. Mas foi devastador", contou.

Apesar dos perrengues, as recompensas fazem valer a pena. Seu namorado, Jeremy, adora colher ervas frescas para seu próprio consumo, e o casal não vai ao supermercado comprar vegetais faz meses.

"A alface é deliciosa comparada à do supermercado. Fora que é cara demais", disse o diretor de mídias sociais, que mora com Bassi e a ajuda a cuidar do seu Instagram (@rose.hill.farm). Já o favorito de Bassi são os tomates. "Não há nada comparado a um tomate cultivado em casa", acredita

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Imagem: Arte/UOL