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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Nordeste tem as melhores cidades para pedestres e ciclistas

Trecho do Via Parque Caruaru - Prefeitura de Caruaru/Flickr
Trecho do Via Parque Caruaru Imagem: Prefeitura de Caruaru/Flickr

Juliana Domingos de Lima

De Ecoa, em São Paulo

07/08/2021 06h00

Como são as calçadas do seu bairro e da sua cidade? O espaço reservado à circulação de pedestres é acessível para quem tem mobilidade reduzida? As vias são iluminadas, tem um limite de velocidade adequado para proteger os pedestres? É um lugar agradável e seguro de se caminhar?

No Brasil, 39% da população urbana se desloca diariamente a pé, segundo um relatório do Sistema de Informações da Mobilidade Urbana. Essa porcentagem é ainda maior em municípios menores. Ainda assim, esse modo de deslocamento ainda não é priorizado pela maioria das cidades.

Mas existem avanços: três cidades nordestinas foram reconhecidas por melhorias voltadas à mobilidade a pé com o Prêmio Cidade Caminhável 2021, que divulgou as vencedoras na última terça-feira (3).

Conde (PB), Caruaru (PE) e Fortaleza (CE) tiveram as melhores iniciativas públicas focadas na caminhabilidade, segundo as juradas do prêmio, que avaliaram, além das condições para os pedestres, o impacto, participação social, colaboração e inovação dos projetos.

As premiadas foram escolhidas entre 28 iniciativas inscritas de 16 cidades em todas as regiões do país, exceto a região Norte. Esta é a primeira edição da premiação, que foi realizada pela ONG SampaPé! com apoio do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) e da instituição internacional Walk21.

Para participar, os projetos deveriam ter sido realizados entre janeiro de 2012, ano em que foi sancionada a Política Nacional de Mobilidade Urbana, e dezembro de 2020. A política instituída pela Lei Federal 12587 determina que as cidades brasileiras priorizem implementar projetos que incentivem os deslocamentos ativos, como os que são feitos a pé ou de bicicleta.

O que mudou com os projetos

O projeto de Conde, na Paraíba, foi na verdade o único inscrito na categoria de cidades pequenas do prêmio, voltada para municípios de até 100 mil habitantes.

"A gente gostaria muito que nas próximas edições houvesse mais cidades pequenas participando. Esperamos que com essa divulgação isso seja possível", disse a Ecoa a jurada do prêmio e professora da Universidade Federal de Alagoas Jessica Lima.

Realizada 2019, a reurbanização do centro da cidade de cerca de 25 mil habitantes contou com a participação da população, que ajudou a construir uma carta de diretrizes a partir de seus desejos e necessidades e também integrou um júri responsável por avaliar os candidatos do concurso nacional realizado para eleger o projeto que melhor atendesse os pontos da carta.

Centro de Conde - territorioconde/Instagram - territorioconde/Instagram
Vista aérea da cidade de Conde (PB)
Imagem: territorioconde/Instagram


O projeto vencedor valorizou o acesso a pé aos principais equipamentos e espaços públicos de Conde que estão concentrados no centro. Além disso, fez surgir um novo uso do lugar para o lazer à noite. "As cidades brasileiras têm uma grande deficiência de parques e espaços de lazer, então é muito importante que isso seja incentivado", diz Lima.

Na categoria de cidades médias, o projeto premiado foi o Via Parque Caruaru, um parque linear de 8 km implantado em 2019 no eixo de uma via férrea desativada há mais de 20 anos na cidade do agreste pernambucano.

O parque corta a cidade de leste a oeste, conectando 16 bairros de grande densidade populacional. Além do espaço para caminhar e pedalar, ele também conta com equipamentos esportivos e de lazer e ecopontos, e foi responsável pelo plantio de mais de 600 árvores.

"As pessoas caminham de domingo a domingo, todo final de tarde e início da manhã, que é quando a Via Parque é mais utilizada. Desde a inauguração em novembro de 2019, as pessoas abraçaram o projeto", disse o urbanista e secretário de planejamento de Caruaru Swami Lima a Ecoa.

Segundo as juradas do prêmio, um ponto forte do projeto é ter o potencial de ser replicado em outras cidades brasileiras que tenham ferrovias desativadas, principalmente nas cidades vizinhas.

O secretário de planejamento de Caruaru afirma que o município tem dialogado com cidades próximas que estudam desenvolver iniciativas semelhantes. Ele também conta que Caruaru está elaborando um plano de mobilidade para continuar avançando na promoção dos deslocamentos ativos, e pretende implementar um serviço de bicicletas compartilhadas e ciclofaixas no interior dos bairros, entre outras ações.

A vencedora na categoria de cidades grandes, Fortaleza, se tornou um modelo nacional na promoção da mobilidade ativa na última década. Ela foi premiada por seu Plano Municipal de Caminhabilidade, desenvolvido entre 2017 e 2020 e pioneiro no país. Em paralelo à produção do material, a cidade colocou em prática uma série de intervenções locais pela caminhabilidade, como acalmamento de tráfego, rotas escolares e ações de urbanismo tático.

plano de caminhabilidade - Reprodução - Reprodução
Cartilha que integra o Plano Municipal de Caminhabilidade de Fortaleza
Imagem: Reprodução


A jurada Jessica Lima vê a premiação de três cidades da região Nordeste como coincidência, mas também afirma que o investimento da capital cearense na mobilidade sustentável teve um papel irradiador na região, inspirando políticas do tipo em várias cidades. Na categoria de cidades grandes, inclusive, Lima aponta uma predominância de projetos de metrópoles nordestinas, como Salvador e Teresina.

Por que investir no caminhar?

Segundo a presidente da SampaPé!, Leticia Sabino, a premiação foi criada para fomentar o desenvolvimento de políticas públicas que melhorem a caminhabilidade das cidades brasileiras.

"A caminhabilidade não é apenas um sistema de transporte. São pessoas com seus corpos na cidade, usufruindo dos espaços, convivendo. Tem tudo a ver com espaços públicos de qualidade. Os projetos [inscritos] mostram essa compreensão: todos têm uma preocupação com a ampliação do uso dos espaços públicos, em serem convidativos para mais pessoas, pessoas mais diversas, em horários mais diversos"
Leticia Sabino, Presidente da ONG SampaPé!

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