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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Lacres de latinhas viram cadeiras de rodas para moradores da periferia

Djalma Nunes (à esq.) mantém o projeto desde 2019 ao lado de três amigos da zona leste de São Paulo.  - Heróis dos Lacres
Djalma Nunes (à esq.) mantém o projeto desde 2019 ao lado de três amigos da zona leste de São Paulo. Imagem: Heróis dos Lacres

Eduardo Silva

Colaboração para Ecoa, em São Paulo (SP)

30/07/2021 06h00

Desde janeiro de 2019, o empresário Djalma Nunes, 41, mantém o projeto Heróis dos Lacres no bairro onde mora, em Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo. Com a ajuda de três amigos e uma rede com 34 pontos de coleta, a iniciativa arrecada lacres de latinhas de alumínio que são "transformados" em cadeiras de rodas para pessoas que não têm condições financeiras de comprá-las.

Para isso, é necessário recolher cerca de 140 garrafas plásticas de dois litros cheias de lacres. "Em média, são 105 kg que dão o valor de uma cadeira de rodas simples (R$ 500)", diz Nunes. Os lacres de alumínio são vendidos em casas de reciclagem por um valor acima do que geralmente é pago, enquanto as cadeiras são compradas por valores abaixo do mercado.

"Temos uma parceria com uma drogaria, que também é um dos nossos pontos de coleta, que compra um produto novo a preço de custo.", explica o empresário.

Até hoje, foram doadas 57 cadeiras de rodas ou de banho - uma média de duas entregas por mês. Os moradores que as recebem são desde crianças até idosos, a maioria mora nas periferias de São Paulo e perderam os movimentos do corpo após acidentes ou doenças, como AVC (acidente vascular cerebral), trombose e diabetes.

"A cadeira é confortável e a adaptação foi rápida"

1 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Cadeirante, Ronaldo Amaral é comerciante em Ermelino Matarazzo e contribui com a junção de lacres desde 2019.
Imagem: Arquivo pessoal

O comerciante Ronaldo Amaral, 42, é dono de um bar em Ermelino Matarazzo e também um dos parceiros dos Heróis dos Lacres como ponto de coleta. Em 2019, em decorrência de diabetes, precisou amputar o pé direito e fazer uso de uma cadeira de rodas. No mesmo ano, recebeu uma doação do projeto.

"Comecei a contribuir com a junção de lacres no meu comércio antes da minha amputação. Como o projeto ajuda pessoas que precisam, entrei em contato e eles me fizeram a doação. A cadeira é confortável e a adaptação foi rápida", conta.

Segundo Amaral, o tempo para encher uma garrafa plástica demorava cerca de um mês. Com a pandemia de covid-19 e a restrição de funcionamento do bar, o tempo necessário para isso é um pouco maior. "Para encher uma garrafa, tenho a ajuda de vizinhos. As crianças [da rua] também ajudam", comenta.

28 famílias na espera

2 - Heróis dos Lacres - Heróis dos Lacres
Projeto conta com 34 pontos de coleta em comércios da cidade e já doou 57 cadeiras de rodas.
Imagem: Heróis dos Lacres

Djalma Nunes explica que os Heróis dos Lacres têm uma lista de espera com 28 famílias atualmente. A maioria conhece o trabalho pelas redes sociais e todas precisam preencher um formulário com nome, idade, doença e endereço. Também é necessário informar se o requerente está desempregado e em quais dias da semana é possível encontrá-lo em casa.

Segundo o empresário, o critério de prioridade muitas vezes é um processo difícil. "O natural seria seguir os pedidos por ordem de chegada, mas nós temos pessoas em situações mais graves do que outras. Tenho que priorizar quem não tem nada", diz.

"Hoje o orçamento das pessoas está bastante comprometido, isso se elas não estiverem desempregadas. Se uma pessoa precisar com urgência de uma cadeira de rodas após ter uma doença ou sofrer um acidente, ela não tem o dinheiro para isso. É neste momento que elas nos encontram", complementa.

Aparecida Salles, 49, moradora de Osasco, município da Grande São Paulo, é um exemplo de quem conheceu o projeto através do Facebook. Como ela e a irmã estão desempregadas, foi através da iniciativa que ela conseguiu uma cadeira de rodas para o sobrinho Anderson, 11, que nasceu com paralisia cerebral.

"A cadeira chegou no momento certo, pois ele utilizava outra que era muito pequena e estava prejudicando muito a coluna dele", conta. Segundo ela, a família havia pesquisado por valores do produto e encontrou opções na faixa de R$ 1.200 - muito alto para a família.

A doação veio em março deste ano, pouco tempo após a solicitação pelo formulário. "Agora ele está bem melhor e mais confortável. A cadeira antiga chegava a espremer o corpinho dele."

Além dos pontos de coleta espalhados em comércios da cidade de São Paulo (e em Guarulhos, na Grande São Paulo), outros oito locais estão sendo negociados. Os comércios também ajudam arrecadando doações de muletas, fraldas geriátricas e cestas básicas para as famílias.

Para Nunes, a rede de parceiros é um time e todo mundo que contribui com o projeto também é um herói dos lacres: "Elas doam e nós levamos um pouco mais de conforto para quem não têm condições. Nós estamos sendo verdadeiros heróis na vida dessas pessoas".

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