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Fred Di Giacomo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Primeira medalhista brasileira (individual) é uma mulher negra e periférica

Ketleyn Quadros celebra sua medalha de bronze em Pequim - Paul Gilham/Getty Images
Ketleyn Quadros celebra sua medalha de bronze em Pequim Imagem: Paul Gilham/Getty Images
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

27/07/2021 06h00

Todo mundo vibrou com a prata da Rayssa Leal, a.k.a. Fadinha, na madrugada desta segunda-feira (26). A atleta de 13 anos, a mais jovem do Brasil e faturar medalha na história dos jogos, é uma mulher negra criada em Imperatriz (MA). Todo mundo vibrou com a prata da Rayssa, então, esta coluna parece chover no molhado: "Claro que a primeira medalhista brasileira de Tóquio é uma mulher negra. Quem não conhece a Rayssa uma hora dessas?" Engana-se, nobre leitor, gentil leitora, que este escriba está se referindo à jovem Rayssa.

Me refiro ao fato de a primeira medalhista olímpica individual da história do Brasil ser uma mulher negra e periférica nascida no coração do país.

A verdade é que, apesar de os jogos Olímpicos contarem com a participação de mulheres há 121 anos (desde os jogos de Paris, em 1900) e de o Brasil ter estreado nos jogos em 1920 (quando ganhamos três medalhas na .Atuérpia), só fomos ter uma medalhista olímpica em prova individual no recente anos de 2008. Sim, isso mesmo, tivemos que esperar 29 Olimpíadas para assistir a primeira brasileira a subir ao pódio individual. Essa medalhista foi uma jovem negra, de 20 anos, criada na Ceilândia (DF). Estamos falando da judoca Ketleyn Quadros, bronze na categoria "leve" (até 57 kg).

Brasileiras nas Olimpíadas

1 - Rio 2016/Fernando Soutello - Rio 2016/Fernando Soutello
São Paulo - Ketleyn Quadros, a primeira mulher brasileira a ganhar uma medalha olímpica em provas individuais, carrega a tocha olímpica em São Paulo
Imagem: Rio 2016/Fernando Soutello

A primeira vez que uma atleta brasileira subiu no pódio dos Jogos Olímpicos foi em 1996, em Atlanta (EUA). Mas na ocasião só conquistamos medalhas em esportes coletivos: vôlei de praia, vôlei de quadra e basquete. Antes disso, algumas brasileiras haviam chegado "quase lá" em esportes individuais.

3 - Reprodução - Reprodução
Aída dos Santos em 1964
Imagem: Reprodução

Aída dos Santos ficou na quarta colocação no salto em altura, nas Olimpíadas de Tóquio, em 1964. Depois em Atenas, Natália Falavigna, também ficou em quarto lugar, em 2004, no taekwondo. Mas foi só em Pequim que a judoca Ketleyn Quadros colocou uma atleta brasileira no pódio. Isso foi 88 anos depois da primeira medalha individual conquistada por um brasileiro,

Depois do pioneirismo de Ketleyn, a presença de mulheres brasileiras nas finais se tornou mais comum. No próprio judô, tivemos ouro com Sarah Menezes e Rafaela Silva e dois bronzes com Mayra Aguiar.

"Quando a mulher negra se movimenta, toda sociedade se movimenta com ela"

2 - Wander Roberto/COB - Wander Roberto/COB
Fadinha do skate, Rayssa Leal faturou prata em Tóquio
Imagem: Wander Roberto/COB

Ketleyn e Rayssa, as duas mulheres negras que protagonizam esse texto, estão juntas nos Jogos de Tóquio 2021.

Ketleyn, que também ganhou a medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos de 2010, em Medellín, foi porta-bandeira do país na cerimônia de abertura destas Olimpíadas e disputou sua segunda medalha na categoria meio-médio. Foi eliminada na madrugada desta terça, após perder da canadense Catherine Beauchemin-Pinard. Fadinha já escreveu seu nome na história do país.

Um país que mudou tanto, de 2008 para cá, que nem parece verdade descobrir que a primeira medalha individual feminina só veio há 13 anos.