PUBLICIDADE
Topo

Meio ambiente

Lixo migra da rua para casa na quarentena; veja dicas para reduzir resíduos

Produção de lixo dentro dos lares aumenta com a pandemia - iStock
Produção de lixo dentro dos lares aumenta com a pandemia Imagem: iStock

Kamille Viola

Colaboração para ECOA, no Rio

10/04/2020 04h00

Com o isolamento domiciliar em diversas cidades do país por causa do novo coronavírus, o lixo foi para o centro das discussões sobre sustentabilidade. Se, por um lado notou-se uma diminuição dos resíduos nas ruas da cidade, com a menor circulação de pessoas, por outro já é possível notar um aumento do lixo domiciliar. Segundo a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), com 41 empresas associadas, com as medidas de distanciamento social adotadas, a geração de resíduo domiciliar cresceu em mais de dez por cento, e deve chegar a 15 a 20% a mais.

O diretor-presidente da associação, Carlos Silva Filho, observa que, nas três semanas de isolamento em várias cidades, foram identificadas algumas tendências. Uma delas, o aumento da produção de lixo em áreas residenciais, sobretudo em cidades das regiões metropolitanas das capitais. "Como muitas vezes elas são cidades-dormitórios, normalmente a geração acaba acontecendo de maneira intensa nas capitais. Agora, com essas medidas de isolamento, isso foi transferido para essas cidades", explica.

Outra mudança é o crescimento do volume de resíduos recicláveis, devido ao maior número de compras em domicílio, muitas vezes pela internet. "As pessoas estão comprando mais online, então recebem mais produtos embalados. E, como várias cidades acabaram determinando uma suspensão da coletiva seletiva, esses resíduos passaram a ser direcionados para a coleta comum, trazendo esse crescimento", acredita.

O biólogo Diego Basílio, do projeto Ecomaré, que realiza ações de sustentabilidade na Maré, no Rio de Janeiro, notou essa mudança no consumo de seus parentes. "Eles acabam pedindo delivery e vem aquele material que não é usado normalmente nas nossas casas, como caixa de pizza de papelão, invólucros de lanches. Isso gera mais resíduo", analisa.

Equipe do projeto EcoMaré, do Rio de Janeiro - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Equipe do projeto EcoMaré, do Rio de Janeiro: "quarentena se reflete em mais esgoto in natura"
Imagem: Arquivo Pessoal

A ativista Cristal Muniz, autora do blog Uma Vida Sem Lixo e de um livro com o mesmo nome, fez uma enquete entre seus leitores, que trouxe algumas reflexões. Por exemplo: há quem esteja consumindo menos por conta do isolamento, comprando só comida, produtos de higiene pessoal e limpeza. Em outros casos, há uma sensação de maior produção de lixo, mas que muitas vezes é só um deslocamento desses resíduos.

Teve uma pessoa que comentou: 'Aqui aumentou bastante, porque meus dois filhos, que passam o dia inteiro fora, agora estão dentro de casa. Só que isso significa que eles reduziram um montão de produção de lixo fora que era invisível. As pessoas estarem trancadas dentro de casa fez com que elas percebessem o quanto de lixo produzem. Muito do resíduo que a gente gera quando trabalha ou estuda fora é invisível, porque acaba ficando nas lixeiras pelo caminho

Cristal Muniz, ativista e blogueira

Outra mudança que pode ser vista é a diminuição de resíduos na rua e nas calçadas, constatada na varrição das vias. "Quase todas as cidades têm esse serviço, e o efeito (da quarentena) no fato de ter menos lixo é muito claro", afirma o diretor da Abrelpe.

A associação também faz um trabalho de combate ao lixo no mar. Uma equipe esteve em uma das cidades, Santos (SP), há cerca de uma semana para realizar uma avaliação. "Foi uma surpresa positiva também ver o quanto a areia estava limpa. Por outro lado, encontramos muitos resíduos domiciliares na parte da areia que fica perto da quebra da onda, mostrando que, apesar de não ter a sujeira da areia de frequência do banhista, ainda tem muita coisa vindo do oceano", lamenta Carlos Silva Filho.

Homem caminha sozinho na Rua São Bento, no centro de São Paulo - Alexandre Schneider/Getty Images - Alexandre Schneider/Getty Images
Rua do centro de São Paulo vazia e com menos lixo durante quarentena
Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images

Diego Basílio também chama atenção para outro efeito negativo em termos ambientais da quarentena nas favelas. "Na nossa comunidade, por exemplo, pelo fato de as pessoas estarem mais em casa, isso também se reflete em mais esgoto in natura despejado nos valões, que desembocam na Baía de Guanabara", reflete.

Manter coleta seletiva não é consenso

Algumas cidades já suspenderam a coleta seletiva. Carlos Silva Filho defende que ela seja mantida, já que, de acordo com a política nacional de resíduos sólidos, o serviço básico essencial de coleta deve ser em duas frações. Ele contou que foram feitas novas escalas para este período, buscando reduzir a aglomeração nas garagens das empresas de coleta, desinfecção dos caminhões e orientação e treinamento dos funcionários para higienização das mãos, com distribuição de álcool em gel.

A Abrelpe também orienta que luvas e máscaras devem ser descartadas no lixo comum e que pessoas com Covid-19 ou suspeitas de estarem com o vírus não devem separar o lixo. Cristal Muniz também sugere que o lixo seja guardado em casa por alguns dias, para que não se corra o risco de contaminar os catadores.

Doutora em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) e pós-doutora pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP), a pesquisadora Gina Rizpah Besen defende que a coleta seletiva seja suspensa na pandemia. "O risco é alto para esses trabalhadores. Eles não deveriam estar coletando, mesmo sob o perigo de você ter um aumento da quantidade de lixo gerada e de o material que iria para a coleta seletiva ter de ser destinado aos aterros sanitários. Entre colocar em risco a vida dos catadores e esse material ir para os aterros, é melhor ir para os aterros."

Doutora em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP) ... - Veja mais em https://publicador.uolinc.com/media.jsp?contentUri=/br/com/uol/ecoa/news/redacao/2020/04/09/lixo-domiciliar-cresce-mas-especialista-alerta-para-risco-de-seguir-coleta.xml&cmpid=copiaecola

No caso de catadores autônomos, como dependem da coleta para sobreviver, muitos deles continuam trabalhando, convivendo com a possibilidade de se contaminarem. É o caso dos que atuam na Maré.

Nós não temos coleta seletiva lá [Complexo da Maré]. Então, nosso grupo visitou algumas casas e pediu que os moradores 'adotassem' os catadores de material reciclável. Essas pessoas consentiram em, pelo menos uma vez na semana, deixar esse resíduo separado para que esses catadores passassem e levassem. Eles continuam trabalhando, sem EPIs (equipamentos de proteção individual)

Diego Basílio, biólogo

Gina Rizpah Besen, doutora em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Gina Rizpah Besen, doutora em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP
Imagem: Arquivo Pessoal
Gina Rizpah Besen menciona a ação do movimento Pimp My Carroça, que lançou a campanha de financiamento coletivo Renda Mínima Pros Catadores, para que eles continem sendo remunerados e, assim, consigam ficar em casa. O valor será doado aos profissionais inscritos no aplicativo Cataki, criado pelo Pimp My Carroça. "O Mundano (ativista à frente do movimento) tem feito uma força-tarefa para tentar cadastrar essas pessoas na cidade de São Paulo. Elas dependem do trabalho para comer, e o dinheiro do governo não chega para elas, são pessoas que não têm computador, muitas vezes nem celular", explica a pesquisadora.

Ela também não recomenda que o material reciclado seja guardado por alguns dias antes de ser destinado à reciclagem. "Não sou favorável à estocagem, acho que ela é um risco para quem estoca: dentro de casa, porque você pode acabar manuseando, e no edifício onde você tem funcionários que ainda manuseiam esses materiais eles podem se contaminar. E a gente não sabe ao certo por quanto tempo o vírus persiste. É muito perigo para se correr", diz.

Dói meu coração. Eu trabalho há 30 anos para implantar coleta seletiva. Já é um desafio enorme a gente educar as pessoas, sensibilizar. Já não funciona como a gente gostaria. Mas estamos vivendo uma situação global que nunca vivemos. É muito grave. É a mesma coisa quando se fala da economia do país. E no Brasil é mais preocupante ainda, porque a gente não sabe como vai ser nas áreas de tão baixa renda, que são onde os catadores vivem.

Gina Rizpah Besen, doutora em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP

Por mais que Cristal ainda esteja separando seu lixo, ela concorda que a segurança deve vir antes de qualquer coisa. E, embora ache importante engajamento das pessoas, é contra uma culpabilização dos indivíduos.

"Esse discurso de 'o ser humano é o vírus' é muito cômodo de se fazer. É igual a falar: o problema são as pessoas que jogam lixo no chão. Não, o problema dos resíduos nas cidades brasileiras é uma falta de gestão pública. É porque a cidade talvez não tenha lixeiras suficientes, coleta com frequência adequada, não tenha campanha ensinando a separar", diz ela. "A gente não produz lixo e desperdício porque quer: 'Hoje tive uma ideia, vou destruir um ecossistema, vou poluir um rio.' No geral, as pessoas gostam de meio ambiente limpo. Mas acabam poluindo porque a gente está inserido em um jeito de viver que é assim", acredita.

Pedimos a Cristal sugestões para diminuir a geração de lixo dentro de casa, atitude benéfica que é consenso não só para o momento atual.

4 dicas para reduzir a produção de lixo em casa

A blogueira Cristal Muniz - Felipe Machado / Divulgação - Felipe Machado / Divulgação
A blogueira Cristal Muniz faz compostagem em casa
Imagem: Felipe Machado / Divulgação
EVITE (OU REDUZA) O DELIVERY
"Tem muita gente que fala de cozinha e ensina a fazer coisas do zero. Dá para começar a fazer algumas coisas e evitar pedir delivery, porque de fato tem muito resíduo e a maior parte não é reciclável. Para quem está em casa, dá para se organizar para fazer comida em maior quantidade, para manter todas as refeições da semana sem precisar pedir. E, se precisar, tentar optar por algum lugar que você conheça que tenha menos embalagens, porque existem alguns que a gente sabe que vêm com um montão de coisa. Tentar escolher um que você já conheça e tenha embalagem que dê para lavar ou reciclar."

NÃO DESPERDICE, CONGELE
"As pessoas precisam aprender a não desperdiçar comida, a guardar direito. Na dúvida, congele. Pesquisar sobre armazenamento, como congelar são coisas bem simples, mas que ajudam muito a reduzir a produção desse resíduo orgânico."

COMPOSTEIRA: MAIS SIMPLES DO QUE PARECE
"Uma coisa que quase qualquer pessoa pode fazer agora é improvisar uma minicomposteira. Você vai precisar de um pote que seja fechável, tipo de sorvete, ou caixa plástica. O ideal é começar com um pouco de terra preta. Mas, se você não tiver, também não tem problema exatamente, que depois as coisas vão acontecendo. Se você tem terra preta, põe uma camada, depois uma de matéria seca (papel picado, serragem, folha seca), resíduo orgânico, e vai cobrindo com material seco. Você vai revirando essa mistura e cobrindo com matéria seca conforme for adicionando, sempre mantendo fechado. Como não tem minhoca, é legal você deixar isso no sol. Aí não precisa nem sair de casa para colocar esse lixo para fora: você evita uma saída e deixa de mandar para um aterro sanitário."

MENOS COMPRAS, MAIS REFORMAS
"Preste atenção nas compras que você está fazendo e evite compras online. Não é o momento de ficar entrando em contato com embalagem. Aproveite esse período para consertar suas roupas: aquela que está com um furinho, sem botão. Pegar aquele vaso de plantas que está meio feio, dar uma repaginada, tirar a folha seca da plantinha, dar uma arrumada nela. Fazer as coisas da sua casa mesmo, com o que você tem. E, eventualmente, se achar que precisa de uma coisa nova, faça uma lista, para quando a gente puder entrar em contato com o mundo exterior de uma forma mais segura. Inclusive esse tempo talvez faça você repensar se precisa dessa coisa ou não."

Meio ambiente