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Jovens da Amazônia são potência para novas práticas e futuro sustentável

Jovens sentados na área externa do espaço de convivência, durante o módulo de Sociobiodiversidade e Manejo Florestal Comunitário do Programa Jovens Protagonistas realizado pelo Comitê Chico Mendes - Ashoka/Ecoa
Jovens sentados na área externa do espaço de convivência, durante o módulo de Sociobiodiversidade e Manejo Florestal Comunitário do Programa Jovens Protagonistas realizado pelo Comitê Chico Mendes Imagem: Ashoka/Ecoa

Caroline Garrett e Denise Oliveira

Da Ashoka Brasil, colaboração para Ecoa

10/04/2020 04h00

A Amazônia está fortemente ameaçada. A afirmação parece óbvia para boa parte da população mundial hoje, mas o que nem todos sabem é que discursos a favor do desenvolvimento como prioridade acabam legitimando a degradação desse bioma. O perigo está justamente em universalizar o significado de desenvolvimento e por que se deve alcançá-lo, sem olhar para questionamentos relevantes como: quais são os fins e os meios para que isso aconteça.

Na linha de frente da resistência a essas ameaças, há grupos criando estratégias para colocar no centro das discussões os povos da floresta e seus ensinamentos, valorizando a identidade e as diversidades existentes dentro da Amazônia.

Angela Mendes, do programa Jovens Protagonistas no Acre, e Katia Brasil, com suas oficinas de jornalismo socioambiental no Amazonas, são algumas das lideranças que entendem a importância de valorizar a fala e os saberes dos povos tradicionais. Elas apostam na potência das juventudes para pavimentar um novo caminho para o futuro, que passar por florescer uma nova mentalidade e novas práticas de produção e consumo — de alimentos a informação — que se sustentem a longo prazo.

Juventude transformadora

As duas iniciativas se aproximam dos princípios da educomunicação sociambiental, um campo de intervenção social que relaciona em suas práticas o diálogo e a interatividade, a transversalidade das pautas e as múltiplas linguagens que podem ser utilizadas para comunicar, seja o midiativismo, a literatura ou outras expressões artísticas.

A educomunicação também propõe que, ao longo do processo de educação, o diálogo, a interação e o protagonismo de participantes seja valorizado. Além disso, busca reaproximar os aspectos culturais de cada região, trazendo elementos e conhecimentos da cultura tradicional e popular no desenvolvimento das atividades.

Integrantes do Programa Jovens Protagonistas, Angela Mendes, integrantes da equipe da Ashoka Brasil e Seu Raimundão, liderança local que recebeu a todos em sua casa - Ashoka/Ecoa - Ashoka/Ecoa
Angela Mendes, integrantes do Programa Jovens Protagonistas, integrantes da equipe da Ashoka Brasil e Seu Raimundão, liderança local que recebeu a todos em sua casa
Imagem: Ashoka/Ecoa

Em tempos de ameaças e emergências, acreditar no potencial transformador das juventudes é um sinal de que podemos construir um futuro de diálogo e de mudanças positivas.

Katia e Angela são exemplos de lideranças que, em parceria com outras organizações, realizam ações importantíssimas pela defesa da Amazônia e que inspiram essas novas gerações a contarem suas próprias histórias, valorizar seus saberes e construírem suas próprias narrativas. Narrativas que apontam para alternativas e que precisam ser escutadas, que contam a história de uma floresta que necessita de seu povo para se manter de pé, pensando no bem coletivo e considerando cada indivíduo como um agente de transformação social.

Nesse sentido, ambas iniciativas colocam em prática a valorização e o protagonismo das juventudes como uma grande aposta para o futuro da Amazônia, usando a Educação Transformadora como caminho possível para isso.

Pensar o futuro da Amazônia, portanto, passa por fomentar uma juventude transformadora que seja consciente do seu papel e da sua potência para construir os caminhos que nos levarão até lá.

Educação e outras narrativas na floresta

Carta de Chico Mendes à juventude do futuro - Ashoka/Ecoa - Ashoka/Ecoa
Carta de Chico Mendes à juventude do futuro
Imagem: Ashoka/Ecoa

A trajetória de Angela é longa. Seu trabalho voltado às novas gerações foi inspirado por uma carta deixada pelo pai, Chico Mendes. O líder, ativista e símbolo da luta ambientalista pelos povos da floresta, escreveu ao futuro uma mensagem dedicada à juventude engajada para a transformação positiva da sociedade.

"Atenção jovem do futuro - 6 de setembro do ano de 2120, aniversário ou primeiro centenário da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim a todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte. Desculpem. Eu estava sonhando quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado", diz a carta de Chico Mendes para a juventude do futuro.

À frente do Comitê Chico Mendes, Angela criou dentro da organização o Núcleo Jovem, construído com jovens amazônidas. Com eles, desenvolveu o programa Jovens Protagonistas, uma iniciativa que fomenta a troca de saberes, a valorização de suas trajetórias e de suas famílias e a participação em espaços de decisão coletiva, para que se tornem lideranças em diversos campos de atuação, seja na cidade ou na floresta.

A reportagem acompanhou o quinto módulo do programa Jovens Protagonistas, com o tema "Sociobiodiversidade e Manejo Florestal Comunitário" e atividades realizadas entre um espaço de convivência próximo à escola municipal Esperança do Povo e a casa da família de Dona Maria de Barros e Seu Raimundão, liderança local, primo de Chico Mendes e pai dos jovens Rian, Romaira e Rogério. A visita havia começado antes, no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais no município de Xapuri e de onde seguiu para o Seringal Rio Branco, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Mediadas por voluntárias e especialistas locais de cada módulo e permitem, as atividades deixam claro o quanto esta juventude é detentora dos saberes da floresta, o quanto cada pessoa pode contribuir para o conhecimento coletivo e como isso pode florescer em autoconfiança e autoestima.

Os tópicos abordaram diversos saberes locais, como o conhecimento sobre a coleta da seringa, o tempo de espera para retirada do óleo de copaíba e a relevância da comunicação responsável sobre os produtos amazônicos e seus usos em diversas produções industriais. As trocas não só fortalecem o grupo, como atuam como um elemento para aumentar a dimensão do que a floresta oferece e tem a oferecer, respeitando o território e a trajetória de quem habita nela. Um caminho possível para a juventude revolucionária que Chico um dia sonhou e que agora Angela fomenta.

Lá, a sala de aula é construída coletivamente: desde a limpeza, passando pela organização, divisão e distribuição dos materiais pedagógicos, até a decoração e instalação do projetor. As regras de convivência foram discutidas e acordadas pelo grupo previamente. A sala de aula é móvel e viva, adaptando-se ao sol forte em busca da sombra das árvores e à chuva pesada sobre o teto, que provoca ruído e faz com que todos aproximem para ouvir melhor um ao outro.

Os casos contadas por Seu Raimundão fizeram outra sala de aula nascer espontaneamente, com todos reunidos ao redor da mesa onde há pouco havia sido o jantar para aprender com a História viva.

Os módulos do programa abordam dimensões jurídicas, políticas e técnicas do viver na floresta por meio de diferentes linguagens: aulas, oficinas, música, ciranda, teatro, desenho, entre tantas outras. A partir dele, Angela mostra as riquezas que existem na Amazônia, tanto de recursos quanto de saberes, que precisam ser valorizados, incentivados e fomentados, se quisermos proteger esses territórios de práticas predatórias que beneficiam um pequeno grupo em detrimento de milhares de pessoas. Enquanto a sociedade precisa valorizar as populações extrativistas, é necessário que o governo construa políticas públicas que viabilizem esses modos de vida.

Maioria de mulheres e algumas crianças e homens na feira de Manaus, na rua Eduardo Ribeiro durante o Ato 8M, organizado pelo Fórum Popular de Mulheres de Manaus - Ashoka/Ecoa - Ashoka/Ecoa
Maioria de mulheres e algumas crianças e homens na feira de Manaus, na rua Eduardo Ribeiro durante o Ato 8M, organizado pelo Fórum Popular de Mulheres de Manaus
Imagem: Ashoka/Ecoa

Amazônia Real

Na capital amazonense, o Fórum Permanente das Mulheres de Manaus organizou o ato "Basta de Feminicídio e Retirada de Direitos!", em 8 de março, ao lado de diversos coletivos feministas da cidade e com cobertura da Agência Amazônia Real. Na linha de frente do grupo de jornalistas estavam as cofundadoras Katia Brasil e Elaíze Farias.

Fundada em 2013, a Agência Amazônia Real dedica-se ao jornalismo independente e investigativo socioambiental. Katia Brasil vê na democratização do acesso à informação e no jornalismo representativo a oportunidade para a alternância de narrativas e também de poder (já que as estruturas sociais reforçam as falas hegemônicas). Kátia aposta também na formação de jovens comunicadoras e comunicadores para a mudança deste cenário.

Um de seus projetos é o Jovens Cidadãos, que realiza encontros com mulheres, indígenas, quilombolas e extrativistas, formando uma rede de jovens de comunidades tradicionais em Manaus. Essa comunidade se vale das novas tecnologias e meios de comunicação para que possam reportar situações como conflitos de terra, denúncias de desmatamento e outros problemas que afetam suas comunidades, em tempo real.

A Amazônia Real também realiza oficinas para jovens jornalistas voltadas a uma abordagem socioambiental crítica. Entre os temas trabalhados, estão as mudanças climáticas, os impactos ambientais e as populações tradicionais. A ideia é prepará-los para escrever e falar com responsabilidade e respeito sobre as questões da Amazônia e do seu povo, valorizando as perspectivas e contextos locais.

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