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Movidas pela indignação: quem são as pessoas que recolhem óleo nas praias

O estudante Matheus Nelli, de 19 anos, é um dos voluntários que arriscam a própria saúde para limpar praias atingidas pelo óleo no Nordeste - Enderson Araújo/UOL
O estudante Matheus Nelli, de 19 anos, é um dos voluntários que arriscam a própria saúde para limpar praias atingidas pelo óleo no Nordeste Imagem: Enderson Araújo/UOL

Enderson Araújo, de Salvador, Giuliana Bergamo e Rômulo Cabrera

de Ecoa

25/10/2019 11h33

A última semana foi marcada por uma novidade na história do desastre ambiental na costa brasileira. Não, o litoral ainda não foi completamente limpo — e essa parece uma notícia que levaremos tempo para dar, infelizmente. A causa das manchas de óleo e a origem do vazamento também ainda não estão claras.

Mas entrou em cena um novo e poderoso fator: a ação de voluntários que, inconformados com os danos causados pela substância viscosa, grudenta e preta que tomou as areias de um quarto do litoral brasileiro, resolveram literalmente arregaçar as mangas e agir. Eles correm riscos graves e têm tido perdas significativas.

Nem todos estão equipados com os acessórios mínimos de proteção, como luvas e botas de borracha e máscaras. "Sou um pouco alérgico, minha pele é sensível e acho que o contato com o óleo não me fez muito bem", disse a Ecoa José Batista Santos Junior, 30, morador de Japaratinga, no litoral alagoano, que, depois de se sentir mal, acabou caindo da moto que pilotava.

Guias de turismo perderam clientes, universitários deixaram as provas de lado para trabalhar na areia e pescadores substituíram a pesca pela limpeza. "O que eu tenho devo ao meu trabalho. Mas hoje está tudo parado", afirma Lailson Evangelista, 55, que vive em Cabo de Santo Agostinho (PE) e, nos últimos dias, tem trocado a rede pelas pás de coleta de óleo.

Na areia da praia, por telefone e trocando áudios, fotos e vídeos por whatsapp, a reportagem de Ecoa passou a semana acompanhando o trabalho de alguns desses voluntários. Ao lado de ONGs, prefeituras municipais, oficiais da Marinha e outros braços, eles já recolheram mais de uma tonelada de óleo do litoral nordestino.

Matheus Nelli - Enderson Araújo/UOL
Matheus Nelli
Imagem: Enderson Araújo/UOL
Matheus Nelli, 19, estudante
Praia de Pituba, Salvador (BA)

"Sempre me ensinaram a cuidar do que é nosso, a ter cuidado com as praias. Em um momento como esse, eu não poderia fazer nada diferente.

Eu estava vindo para a praia, vi muita gente se divertindo e, dez passos dali, a praia estava encharcada de óleo.

Tenho vindo, então, com um grupo de amigos, sempre usando equipamentos de proteção, como luvas, máscaras, sapatos fechados, que nós mesmos compramos. Também usamos nossas pás. Coletamos e juntamos o óleo e depois ligamos para a Limpurb [empresa responsável pela coleta de lixo em Salvador], para que faça o descarte apropriado. Isso a gente não tem como fazer.

Mas a quantidade de óleo é realmente imensa! Nosso grupo está mobilizado, mas não tem condições de fazer tudo. Sempre fica uma mancha sobrando.

Outro grande problema é não ter apoio nenhum do governo federal. A gente não vê pronunciamento do presidente? Quem está fazendo alguma coisa são as pessoas. Mas a gente espera que as autoridades venham dar suporte! Somos só um grupo de jovens, entende?

Somos universitários, não temos material adequado, a gente não tem o conhecimento profissional sobre o que é isso que está atingindo nossas praias. A gente precisa de gente que saiba de verdade, que esteja equipado de verdade, que possa ajudar de verdade.

Além da limpeza, estamos tentando conscientizar as pessoas que estão trabalhando por aqui. Porque tem muita gente entrando em contato com esse material sem a menor noção de que ele pode ser tóxico. A gente tem que se proteger o máximo possível!"

José Batista Santos Junior - Arquivo pessoal
José Batista Santos Junior
Imagem: Arquivo pessoal

José Batista Santos Junior, 30, artesão e pizzaiolo
Japaratinga (AL)

"Trabalhei bastante na quinta (17), quando o óleo chegou por aqui, e também no dia seguinte. Mas, infelizmente, precisei parar porque sofri um acidente. Sou um pouco alérgico, minha pele é sensível e acho que o contato com o óleo não me fez muito bem.

Na sexta, eu cheguei bem cedo para coletar o óleo da praia. Estava calor, comecei a sentir um mal-estar e resolvi parar um pouco. Peguei a moto e fui até a minha casa para descansar, comer, tomar um leite.

Não me recuperei totalmente, mas, ainda assim, voltei. Eu queria muito continuar essa limpeza. Desde o primeiro momento em que soube do óleo, não tive dúvida de que participaria da limpeza. Peguei minha pá, meu rastelo, arrumei umas luvas e botas e fui para a areia.

Mas, na tarde de sexta (18), por causa do mal-estar, tive uma vertigem enquanto guiava minha moto em direção à praia. Eu estava a poucos metros de casa quando caí. A moto veio sobre mim. Ralei o lado direito do corpo, dois dedos da mão deslocaram, eu mesmo os coloquei no lugar, subi na moto e voltei.

Agora estou fazendo fisioterapia e não posso mais ajudar na limpeza. Mas todos os dias eu vou à praia. Eu sinto muito por tudo o que está acontecendo, pelos bichos que morrem, pela água contaminada. É claro que as autoridades têm que fazer alguma coisa e, por aqui, estão fazendo. Mas eu também acho que devemos fazer algo por amor, amor à natureza. Eu amo."

Lailson Evangelista - Arquivo pessoal
Lailson Evangelista
Imagem: Arquivo pessoal

Lailson Evangelista, 55, pescador
Praias de Suape, Itapuama e Paiva, Cabo de Santo Agostinho (PE)

"Sou pescador há 40 anos. O que eu tenho devo ao meu trabalho. Mas hoje está tudo parado. Eu e os demais pescadores da colônia decidimos ajudar com o recolhimento do óleo vazado. A gente não pode deixar as praias nesta situação, entende? Nos sentimos no dever de resolver o mais rápido possível, com o que tivermos em mãos.

As manchas de óleo chegaram às praias do Cabo na sexta-feira, dia 18. Desde então, estamos na luta. Quem pode vai com a roupa do corpo, bonés, luvas, o que tiver.

Tenho atuado como voluntário nas praias de Suape, Itapuama e Paiva. Entrou óleo no mangue aqui da região. E esse é o perigo: o óleo fica 'engalhado' nos mangues, o que dificulta o nosso trabalho, sabe?

Há um mutirão muito grande de voluntários, em sua maioria moradores, pescadores, garis, e gente do sertão que vem nos ajudar. No começo não tinha ninguém do poder público, da prefeitura, do governo... O Exército e a Marinha chegaram na terça, dia 22, às 14 horas. Mas nós já estávamos na luta desde às cinco da manhã.

Na segunda, a gente precisava comprar alimentos, água, e não chegou nada. Não tem material para os voluntários trabalharem. Há muita mão de obra, mas pouca estrutura de trabalho. Está assim.

A sensação que fica é de, sei lá... Não tem nem com o que comparar. É a primeira vez que isso nos acontece. É uma tristeza ver os peixes mortos em cima das pedras. A praia de Itapuama é mais rochosa, com corais e tudo mais. Só vendo mesmo para você ter a dimensão exata do que estou falando.

Olhe, não sou cientista nem nada, mas acho que o impacto vai ser muito, muito ruim. Todos estão muito comovidos com esse desastre. Isso é um crime sem tamanho!

Os únicos prejudicados somos nós. Os governantes, numa situação como esta, viajam para fora do país para tomar banho de praia. E a gente?"

Michelle Kristinna Belo (em comitê sobre a crise ambiental) - Arquivo pessoal
Michelle Kristinna Belo (em comitê sobre a crise ambiental)
Imagem: Arquivo pessoal

Michelle Kristinna Belo, 36, presidente da Associação do Trade Turístico Coroense
São José da Coroa Grande (PE)

"A sensação de ver a praia suja é uma mistura de tristeza e impotência. Mas, a partir do momento que começou a limpeza, já veio a esperança e a euforia de ver tanta gente guerreira trabalhando e limpando o óleo 'nos braços'.

Estou atuando como voluntária desde o dia 16, quando soubemos que possíveis manchas poderiam chegar às praias de Coroa Grande. Minha atuação, vale dizer, se faz tanto no recolhimento, quanto dentro do gabinete de crise, dando suporte aos voluntários.

A limpeza da praia está sendo feito por grupos de voluntários juntamente com os fuzileiros navais. Formamos algumas equipes e cada um ficou responsável por uma área atingida. Na praia de São José, também em Coroa Grande, os corais e piscinas naturais não foram atingidos.

Nosso grande problema, no entanto, foram os estuários dos rios Persinunga e Una, cursos d'água que delimitam a fronteira entre os estados de Pernambuco e Alagoas. A densidade da água doce é diferente da água do mar. Enquanto no mar o óleo boia, no rio, ele tende a afundar, o que dificulta os trabalhos de retirada. Foram enviadas equipes para colocar as barreiras de contenção e tentar preservar ao máximo os manguezais daquela região.

Sem ajuda dos fuzileiros navais, os coroenses não teriam conseguido diminuir o impacto da chegada do óleo. Tivemos todo o suporte: foi montada uma equipe de guerra antes mesmo de o vazamento chegar.

Temos a consciência de que os danos ambientais são enormes. A natureza vai demorar anos para se recuperar.

Trabalho com turismo. Meu setor foi afetado, é claro, mas estamos fazendo todo o trabalho para mostrar que limpamos, que a vida tem que seguir e que o nordestino é um povo guerreiro, e o coroense é uma gente valente.

Agora estamos usando a frase 'se sujar, a gente limpa', e assim vamos seguindo."

Meio ambiente