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População de Alagoas se une para limpar o óleo que suja suas praias

Rita Stabile e Erasmo Henrique Rocha  - Rita Stabile/arquivo pessoal
Rita Stabile e Erasmo Henrique Rocha Imagem: Rita Stabile/arquivo pessoal

Giuliana Bergamo

de Ecoa

20/10/2019 17h36

Os últimos dias têm sido atípicos para o educador ambiental e socorrista Erasmo Henrique Rocha, 39, que vive e trabalha na praia de São Bento, em Maragogi (AL). Tudo começou na madrugada de quinta (17), quando o whatsapp do rapaz despertou antes mesmo de Marcela, sua filhinha de apenas dezoito meses, que costuma pular da cama às 5h. Estava escuro ainda e ele conferiu o telefone. Encontrou diversas mensagens de amigos e vizinhos. "O óleo que atingiu as praias do Nordeste tinha chegado aqui e só se falava nisso. Fiquei angustiado", conta.

Erasmo, então, mudou os planos. Não foi atrás de turistas para acompanhar em roteiros de bicicleta pelo litoral alagoano, ou em passeios de caiaque até os recifes. Naquela quinta, ele pedalou bastante, sim, mas por outro motivo.

"Fui juntando meus amigos e saímos pelas praias, para ver o que estava acontecendo. Quando chegamos na areia, foi revoltante. Aquelas placas de óleo sujando esse lugar lindo? Teve amigo meu que chorou de tanta tristeza. Mas resolvemos não ficar no lamento, não. Saímos limpando como pudemos", diz ele, que tem tatuada na mão esquerda a palavra "ação".

Nas andanças, o grupo, então formado por sete pessoas, viu cenas lamentáveis: os recifes "de franja", que ficam perto da praia, "melecados", algas, que servem de alimentos para peixes e outros animais marinhos, nas mesmas condições. De acordo com o Instituto Biota de Conservação, só em Maragogi, foram encontrados seis animais sujos de óleo: uma tartaruga viva e cinco aves, três delas já estavam mortas.

Segundo o levantamento mais recente, publicado ontem (19) pelo Ibama, já são 200 as áreas do litoral brasileiro afetadas pelo vazamento em nove estados. Além de Alagoas, onde fica Maragogi, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe e Bahia foram afetados.

O turismo, motor da economia local, também já começou a sentir os prejuízos do vazamento. Erasmo, por exemplo, está com a agenda "livre" para os próximos dias. Já perdeu também uma das reservas, marcada para dezembro, da casa que aluga para turistas.

"A gente fica triste, indignado. E, como reação, sai coletando o óleo de forma espontânea. Gravamos vídeos, postamos em nossas redes e foi surpreendente ver como as pessoas se envolveram e compartilharam a mensagem", diz a médica cardiologista Priscila Ferreira da Silva, 37, mulher de Erasmo.

Nos últimos quatro dias, o grupo cresceu. "Montei, de forma voluntária, kits de equipamentos de proteção, como botas, luvas e sacos plásticos e distribuí para outras pessoas e também para os órgãos públicos", diz a consultora Rita Stabile, 50.

Cada um ajuda como pode. "Levamos os sacos da praia para a beira da pista com carrinhos de mão e o dono de uma pousada tem usado a própria caminhonete para transportar até uma área desocupada no terreno dele", afirma Erasmo.

A recomendação é de que os voluntários protejam a pele do contato com o óleo. "O ideal é usar luvas e botas de borracha", diz a médica veterinária Luciana Medeiros, do Instituto Biota de Conservação. Segundo ela, as luvas feitas de borracha nitrílica são ainda mais seguras. A informação deve estar no rótulo do produto.

Tomando todos os cuidados, Erasmo continua firme e otimista: "É revoltante pensar que isso está acontecendo com um paraíso como este onde a gente vive. Não sabemos ainda quais serão as consequências. Mas eu quero acreditar que a natureza é forte e está fazendo a sua parte. O mar está jogando essa sujeira para fora. O nosso papel é ajudar."

Ecoa