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Patricia Lobaccaro

Filantropia horizontal: um novo modelo de apoio a projetos

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

07/11/2020 04h00

As discussões do Fórum Econômico Mundial deste ano, em Davos, trouxeram de volta o conceito de um novo capitalismo: o capitalismo de stakeholders. Por vezes traduzido como capitalismo das "partes interessadas", o capitalismo de stakeholders adota um posicionamento empresarial focado em gerar valor para todas as partes interessadas, contemplando não só os acionistas, como também colaboradores, clientes, fornecedores, comunidades e meio ambiente. Em paralelo a esse novo posicionamento, o setor filantrópico também vem discutindo novos modelos de atuação, de maneira mais horizontal, mais participativa, com processos de decisão compartilhados e que envolva todas as partes interessadas.

O Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) lançou recentemente uma publicação sobre Filantropia Colaborativa, analisando relações entre atores da filantropia que envolvam colaboração - seja na mobilização de recursos, seja na coordenação e gestão das doações - com mais de 30 exemplos. A publicação, feita com muita lucidez e sensibilidade, apresenta um panorama dos processos, formatos e modos de ação, e aponta caminhos para um aprofundamento qualificado da colaboração no campo do investimento social.

Há cerca de 5 anos, quando eu presidia uma fundação internacional que financia projetos no Brasil, comecei a experimentar formas mais horizontais e colaborativas de financiamento de projetos, criando duas linhas de apoio - o que foi bastante inovador na época. Uma das linhas, chamada Arranjos Colaborativos, financiava colaboração e transferência de metodologias entre duas ou mais organizações, com projetos selecionados via edital. Financiamos mais de 30 parcerias, entre mais de 50 organizações de todo o Brasil, fortalecendo redes e promovendo um ambiente de troca e aprendizagem entre pares. Algumas das parcerias financiadas dão frutos até hoje como colaboração entre Casa do Rio e Adel, uma troca de saberes entre sertão e floresta.

Outra iniciativa, ainda mais ousada, também lançada em 2015, foi o Prêmio de Inovação Comunitária - a primeira e maior iniciativa de filantropia participativa feita no Brasil. No projeto piloto, convidamos 38 ONGs parceiras a atuarem como financiadoras de pequenos projetos informais em seus territórios, contribuindo com sua expertise setorial e territorial, além de oferecer mentoria para as iniciativas selecionadas por elas próprias. As razões que motivaram a criação deste modelo de filantropia participativa foram: democratizar a decisão de alocação do recurso, pois o capital filantrópico está concentrado nas mãos de poucas entidades; testar a ideia de que organizações financiadas podem ser financiadoras; estimular protagonismo local e criar um ecossistema que favoreça a criação de novas tecnologias sociais. Os resultados dessa iniciativa pioneira foram muito interessantes e em quatro anos aproximadamente 200 iniciativas foram financiadas por agentes locais.

Com a chegada da pandemia, essa forma de atuação mais horizontalizada do setor filantrópico vem recebendo várias denominações, uma delas que vem se tornando referência é a filantropia regenerativa. Nesse novo modelo proposto, a relação entre financiadores e comunidades financiadas adota um formato horizontal, saindo de um modelo paternalista de comando e controle para relações de confiança, respeito aos saberes e expertises locais. Neste modelo o financiamento de curta duração e com recursos carimbados dá lugar a apoios de maior duração e uso flexível, as estratégias de financiamento migram do interesse dos doadores para prioridades identificadas pelas próprias comunidades apoiadas e a decisão de alocação de recursos sai das mãos da equipe e conselho da entidade financiadora, passando a ser compartilhada ou transferida para líderes sociais.

Iniciativas colaborativas na filantropia ganharam muita tração no Brasil com a pandemia. A rapidez e magnitude da resposta ao covid pelo terceiro setor foi possível por causa da formação de redes, colaboração entre atores diversos, maior horizontalidade e confiança nas relações e recursos alinhados entre diferentes investidores. A pandemia exacerbou as desigualdades sociais sistêmicas no Brasil e no mundo. Para enfrentar situações de tamanha complexidade, precisamos criar respostas de maneira compartilhada, somar esforços e perspectivas para a abertura de novos caminhos para o exercício da solidariedade e da construção de uma sociedade plural e diversa. Esperamos que esse "novo normal" da filantropia continue se consolidando.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.