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Patricia Lobaccaro

O que a pandemia nos mostrou sobre a educação no Brasil

Jovens voltam a frequentar escola pública em São Paulo durante a pandemia - Rubens Cavallari/Folhapress
Jovens voltam a frequentar escola pública em São Paulo durante a pandemia Imagem: Rubens Cavallari/Folhapress
Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

24/11/2020 11h18

Oito meses após o início do lockdown, como está a educação? Qualquer pessoa que tenha filhos sabe que um dos públicos mais impactados pela pandemia são as crianças e adolescentes. Sem poder ir à escola, estão sendo privados de mais do que apenas sua educação. Sem horário escolar estruturado, perdem a rotina e a convivência com amigos. Há também aqueles que dependiam da merenda escolar como única refeição nutritiva do dia. Segundo o estudo "Educação em Pausa" produzido pela UNICEF sobre os impactos da Covid-19 na educação, mais de 137 milhões de crianças e adolescentes na América Latina viram seus processos educacionais serem pausados. O relatório também apresenta um panorama da realidade brasileira: 4 milhões de estudantes do ensino fundamental (14,4%) estavam sem acesso a nenhuma atividade escolar.

Nas favelas, as estatísticas são ainda piores. De acordo com uma pesquisa realizada pelo DataFavela, 55% dos estudantes de favelas do Brasil estão sem estudar durante a pandemia, por motivos que incluem falta de local adequado de estudo, má conexão com a internet, ausência de dispositivos adequados e a distância dos professores. Há um sentimento de desesperança entre moradores de comunidades: a pesquisa do DataFavela aponta que 75% dos pais e mães de alunos tem medo da possibilidade de seus filhos perderem o ano; 47% dos estudantes temem querer desistir da escola se não conseguirem acompanhar as aulas remotas; 71% dos pais se sentem muito inseguros em mandar as crianças de volta para a escola presencialmente; e 90% acreditam que as escolas não vão estar preparadas para um retorno seguro.

Mais uma vez, organizações da sociedade civil têm sido de grande importância em ajudar a mitigar essa situação.

A CUFA (Central Única das Favelas) lançou a campanha "Alô Social", que distribuiu 500 mil chips de celular em quase 5 mil favelas em todo o Brasil, o maior projeto de conectividade feito nesses territórios. O objetivo dessa ação é democratizar o acesso à comunicação e internet, impactando 4 milhões de pessoas até junho de 2021. De acordo com Celso Athayde, fundador da CUFA, a pandemia causou grandes impactos negativos em toda a sociedade, mas em especial na parcela da população que tinha menos possibilidade de se proteger. As mais vulneráveis nesses territórios são as mulheres, e entre elas as mães, e por isso a CUFA concentrou seus esforços de combate ao covid nas mães da favela. "Sabemos que há uma grande desigualdade social no Brasil, e, além disso, uma grande desigualdade digital. Nesse momento em que as escolas estão fechadas, essa desigualdade grita, pois parte dessa população não tem condição de acompanhar os conteúdos que estão sendo disponibilizados", conta Celso. O Alô Social surgiu para contribuir com que 500 mil mães possam estar conectadas para empreender ou aprender e seus filhos estarem conectados para não perder o ano letivo.

O Instituto Alicerce lançou a campanha "Educação na Pandemia", que já distribuiu mais de 2.000 bolsas de estudo para reforço escolar remoto ao vivo e com aulas planejadas de forma personalizada. Criado para ser um programa de complementação escolar e nivelamento acadêmico presencial, o Alicerce precisou se adaptar com a pandemia criando o Alicerce em Casa, oferecendo apoio e suporte para alunos e pais. De acordo com Andrea Matsui, diretora executiva do Instituto, muitos alunos das escolas públicas têm acesso somente ao Whatsapp e só enviar a tarefa pelo aplicativo não é suficiente. Os educadores do Alicerce, conhecidos como líderes, são estudantes universitários treinados e capacitados para o desenvolvimento das atividades. Uma dessas líderes, Nubia Santos, de 21 anos e atualmente cursando bacharelado na Universidade Federal do ABC, conta que um dos desafios dos alunos durante a pandemia é a ausência de um horário dedicado para os estudos. Além disso, pais e mães têm dificuldade de oferecer o suporte aos filhos para a realização das tarefas escolares. Muitos não concluíram o ensino médio e outros não se recordam dos conteúdos.

Outro grande desafio é a perda de vínculo com a escola, que agrava o abandono das atividades escolares. O Ensina Brasil, programa que recruta, seleciona e capacita jovens talentos para atuar na rede pública, apoiou a realização de iniciativas extracurriculares para lidar com os desafios educacionais causados pela pandemia. Ao todo já foram impactados mais de 260 mil alunos com mais de 50 iniciativas como a Ligação do Bem, criada para estimular que professores telefonem para seus alunos durante o período de isolamento social, fortalecendo vínculos entre aluno e professor e contribuindo assim para a diminuição da evasão escolar.

Quando o retorno às salas de aula for possível, será necessário reorganizar os currículos para recuperar a aprendizagem dessas crianças que ficaram tanto tempo afastadas da escola e até aquelas que acompanharam as aulas remotas, mas não aprenderam o suficiente do conteúdo abordado. Apesar dos grandes desafios, estamos diante de uma grande oportunidade: a de repensar e reconstruir sistemas educacionais que forneçam um aprendizado melhor, igualdade de acesso à tecnologias, ambientes mais seguros e mais inclusivos do que os existentes antes da pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.