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Qual o reflexo da filantropia na equidade racial?

Patricia Lobaccaro

Patricia Lobaccaro construiu carreira no campo do investimento social, articulando redes e iniciativas para fortalecer projetos transformadores no Brasil. Foi presidente e CEO da BrazilFoundation de 2010 a 2019, mobilizando mais de 35 milhões de dólares em apoio a mais de 500 organizações da sociedade civil no Brasil. Atualmente Patricia atua como consultora no setor social e faz parte do conselho de instituições sem fins lucrativos. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo e fez curso de gestão em non-profits em Harvard.

14/06/2020 00h04

O assassinato de George Floyd em Minnesota impulsionou um movimento global contra o racismo em todas as suas formas. Sua morte inspirou protestos em muitos países (inclusive no Brasil), mobilizou atos realizados em todos os cantos dos Estados Unidos (indo além dos grandes centros), e faz com que essa seja uma das manifestações mais abrangentes e capilarizadas de toda a história americana em prol da justiça social.

Esse grande momento de reflexão sobre o racismo estrutural vem provocando mudanças em várias frentes, até mesmo em posicionamento corporativo. Empresas estão acordando para o fato de que precisam também ter um protagonismo maior no combate ao racismo. De acordo com uma pesquisa da Edelman, 60% dos consumidores deseja - e espera - que empresas tenham um papel de maior protagonismo no combate ao racismo, e que a forma como as marcas respondem aos protestos contra a injustiça racial influenciará a decisão de compras no futuro.

Inúmeras empresas como Amazon e Google vêm anunciando doações para o combate ao racismo, com destaque a uma doação de 1 bilhão de dólares do Bank of America em 4 anos. O SoftBank anunciou a criação de um fundo de 100 milhões de dólares para investir em startups de negros e latinos nos EUA. Uma outra iniciativa, focada em transparência, é o movimento "Pull Up for Change", que convida marcas a publicarem a porcentagem de funcionários negros em cargos de liderança. Não adianta apenas que empresas façam posts de solidariedade com a causa se internamente não praticam o que estão falando. Iniciativas como essa vêm provocando empresas e marcas a fazerem uma reflexão mais profunda sobre suas práticas, apontando o caminho para ambientes de trabalho mais inclusivos em um futuro próximo.

E o setor filantrópico, como fica? O racismo estrutural está presente na filantropia também. Nos EUA há tempos discutem o protagonismo negro na filantropia, como já contei em um dos meus primeiros artigos aqui em Ecoa. Mas no Brasil essa questão ainda precisa evoluir muito. Quantas das fundações financiadoras no Brasil tem uma pessoa negra ocupando a presidência ou principal cargo executivo? Não consigo pensar nem em 5 nomes. Conselhos de grandes instituições culturais, de saúde e de educação são compostos principalmente, em muitos casos, exclusivamente, por pessoas brancas. A diversidade e inclusão no setor filantrópico não podem ser apenas programáticas, precisam ser operacionais. Fundações, em especial, precisam fazer um trabalho melhor de praticar aquilo que pregam. Não digo isso com o objetivo de apontar o dedo pra ninguém, mas como um convite para que todos nós do setor façamos um exercício de reflexão junto a um comprometimento de melhorar essas estatísticas.

Já que estamos falando de fundações, uma das que se destaca e vem fazendo um trabalho exemplar é o Fundo Baobá: o primeiro e único fundo dedicado exclusivamente para a promoção da equidade racial para a população negra no Brasil, com objetivo de mobilizar pessoas e recursos para o apoio a projetos e ações pró-equidade racial. O Fundo já investiu mais de 10 milhões de reais em projetos de organizações e lideranças negras comprometidas com o enfrentamento ao racismo, a promoção da equidade racial e da justiça social. O Fundo foi constituído em 2011 e conta com um importante incentivo de matchfunding da Fundação Kellogg: para cada real doado ao Baobá, a Kellogg doa mais mais 3 reais.

Segundo Selma Moreira, diretora executiva do Baobá, "este é um momento ímpar na história e poderá ser um ponto de virada, se a sociedade como um todo e em especial os líderes e tomadores de decisões toparem retirar a venda que nega o racismo e empenharem esforços intencionais para a promoção da justiça. O pedido de ajuda de George Floyd - eu não consigo respirar - é o pedido de ajuda de todos nós, que há séculos não conseguimos respirar por conta do racismo estrutural que subtrai nossos direitos, nossa qualidade de vida e até mesmo nossas vidas. Já passou da hora de toda sociedade olhar para essa questão com seriedade". É importante ressaltar que este momento de protestos contra o racismo em todo o mundo coincide com a pandemia do coronavírus. Segundo Selma, "os negros são mais vulneráveis, assim como outras populações marginalizadas". Por conta disso o Fundo Baobá vem atuando também de forma emergencial, tendo lançado alguns editais de doações emergenciais.

O enfrentamento do racismo é condição essencial para o desenvolvimento com sustentabilidade. É necessária uma mudança de paradigma, que ainda depende de avanços significativos, os quais terão de ser impulsionados pelas ações do movimento negro. Segundo Paulo Rogério Nunes, consultor em diversidade e autor do livro Oportunidades Invisíveis, "a questão da equidade racial é fundamental para o desenvolvimento do Brasil e de outros países que passaram por processos históricos similares. É muito importante termos ações concretas do setor filantrópico e também do setor corporativo, entendendo que ao apoiar comunidades negras, quem ganha é o próprio país: a economia vai melhorar, vai haver a geração de empregos, ou seja, todo mundo ganha."

Seja protagonista você também, e se puder apoie organizações que promovem equidade racial no Brasil. Conheça algumas delas aqui:

Fundo Baobá

Movimento Black Money

BlackRocks

IDBR

Geledés

Vale do Dendê

Patricia Lobaccaro