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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A cena final da COP26 e um gosto ruim na boca

Delegados são vistos na COP26 em Glasgow - Yves Herman/Reuters
Delegados são vistos na COP26 em Glasgow Imagem: Yves Herman/Reuters
Carolina Pasquali

Carolina Pasquali

diretora executiva do Greenpeace Brasil

13/11/2021 18h14

A sensação vai crescendo na sala: os países mais vulneráveis engolem o texto final e dizem, com expressões cansadas, que vão continuar lutando. Os desenvolvidos, Estados Unidos em especial, celebram os "avanços", os "passos na direção certa", o "espírito de colaboração". A Índia pede para mudar no texto a menção aos combustíveis fósseis, o Irã também.

As ilhas do Pacífico falam em voltar para casa sem decepcionar seus habitantes, suas crianças, já afetadas diretamente pelo aumento do nível do mar. As falas vão se alternando. As horas passam, e o gosto ruim na boca aumenta. Assistir na íntegra a última plenária da COP26, em Glasgow, gera desconforto. Não quero fazer comparações históricas - se é sempre assim, se essa foi pior ou melhor, etc. Mas aqui, em Glasgow, estou segura que precisávamos de mais.

Enquanto escrevo esse texto, sigo ouvindo as falas dos países. O Brasil diz que veio "com maturidade para cooperar", e diz apoiar o texto. Impossível não prestar atenção na palavra escolhida pelo representante brasileiro, "maturidade", para representar talvez o governo mais imaturo da história recente do país.

A menção à "maturidade" brasileira - aquela que teoricamente rege um governo que vem para a COP dizer que tem compromisso com a Amazônia, mas entrega a pior taxa de desmatamento de um mês de outubro desde 2016; ou que assiste o presidente pessoalmente atacar a liderança, jovem e indígena, que representou o país na abertura da COP e passou a ser perseguida na internet pelo bolsonarismo - aumenta a sensação de que palavras são só palavras. E o texto, que no desenrolar da COP foi ficando cada vez mais fraco, resistiu cambaleante às investidas finais de países como a Índia e o Irã.

Temos nele uma referência importante à eliminação progressiva do carvão e dos subsídios aos combustíveis fósseis - ainda que de maneira muito mais branda do que o esperado. A briga final se deu quando a Índia, aos 45 minutos do segundo tempo, resolveu trocar a expressão "phase-out" (acabar) por "phase-down" (diminuir). Um balde de água fria na plenária. Um balde de água fria em todos nós. Vale ressaltar, no entanto, que uma palavra não muda o fato de que o fim da era dos combustíveis fósseis parece, finalmente, despontar no horizonte.

A menção à transição justa é uma boa notícia - ela é necessária, pois não podemos esquecer que a dificuldade maior se dá em países pobres. O texto, no entanto, não entregou o que precisava em relação ao compromisso dos países desenvolvidos com os prejuízos que os países mais vulneráveis vêm sofrendo devido à crise climática, aqui chamados de "perdas e danos". Houve reconhecimento, mas não uma proposta concreta. Em vez disso, a promessa de "diálogos"... Este certamente será um tema importante no Egito, que sediará a COP no ano que vem.

Em relação ao disputado Artigo 6, celebra-se que o livro de regras foi finalmente encerrado. No entanto, ainda existem brechas que são grandes demais para serem toleradas, e teremos que seguir trabalhando para que o mercado de carbono não dê aos grandes poluidores e às grandes corporações licença para continuarem emitindo.

Transitar entre a Blue Zone - onde acontecem as negociações - e as ruas de Glasgow, onde se dão as plenárias dos movimentos sociais, as marchas e as intervenções dos ativistas, é como querer construir uma ponte entre dois mundos que estão caminhando por estradas paralelas. De um lado, os governos e seus interesses, lobistas do setor privado jogando contra os avanços, acordos a portas fechadas. De outro, os jovens, o movimento indígena, o movimento negro, as crianças, as famílias, os trabalhadores escoceses - todos juntos dizendo que basta de "blá blá blá", que precisamos de ação, e que precisa ser agora.

Me pego pensando quando - e como - se dará verdadeiramente esse encontro. Os jovens na rua puxam o coro: "Mudança no sistema para não termos mudança no clima!". Nas suas mentes e nos seus corações, clamam por justiça climática. É preciso construir soluções novas, a partir de uma costura coletiva. Dentro da Blue Zone, no entanto, a energia é pela manutenção do status quo. Os dois mundos se encontrarão daqui a pouco - resta saber qual deles vai prevalecer (e, aqui na COP, a vitória parece vir pelo cansaço...). Que a energia das ruas nos mantenha de pé pelo tempo que for necessário.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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