PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eu me chamo, e você?

Marta Conti/iStock
Imagem: Marta Conti/iStock
Toni Edson

Toni Edson

De Aracaju, Sergipe, Toni Edson é licenciado em Artes Cênicas (UDESC), Mestre em Literatura Brasileira (UFSC) e ator profissional desde 2000, trabalha com teatro de rua a partir de 2003. Curador de UOL ECOA. É doutor pelo Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da Universidade federal da Bahia (PPGAC/UFBA), estudando procedimentos e tradição oral de contadores de história africanos como inspiração para rodas de história na rua. Desde 2013 é professor de Encenação e Teatro de Rua da Escola Técnica da Universidade Federal de Alagoas (ETA/UFAL).

27/10/2021 10h49

"Se eu disser que eu sou mais um
Cuidado não tropeçar
Se eu disser que conto história
É pra buscar axé e iwá"
(Toni Edson, tresontonte de tempos atrás)

Eu lembro que cantei esses versos que agora iniciam meu texto na primeira reunião, como possível curador de Ecoa. Gosto dessa pequena quadra e a compus pouco depois que meu primeiro filho nasceu. O nascimento dele explica essa canção, mas a razão para isso é um segredo que ninguém nunca ouviu de minha boca.

Ele já tem 15 anos, algum dia eu conto. Para ele. Essa quadra fala muito de mim. Lembro que o Fred di Giacomo me pediu para falar mais sobre a canção no fim da reunião, antes de nos despedirmos, e desembolei um pouco dos versos sem chegar no que é secreto, da mesma forma que fiz para minha parceira e cofundadora do GrupoIwá, a atriz Josy Acosta. O que eu disse na reunião e para Josy não é segredo, só não escrevo tudo aqui para esse texto não ficar longo demais. Vou compartilhar algo sobre o primeiro verso. Só eu posso falar de mim. Não me importa se alguém disser que eu sou mais um. Hoje, com muita honra, eu determino minha agenda. Grande maioria das coisas que digo e faço são frutos da minha vontade, trajetória e ação.

Não sei vocês, mas quando eu era criança, volta e meia a piada boba de que "seu nome não é seu, porque você não se chama, os outros te chamam", sempre me incomodou. Por mais que eu não tenha escolhido meu nome e que durante algum tempo eu tivesse problemas com ele, com o tempo eu fui assumindo esse nome como eu e parte de mim. Mas esse não é um texto sobrenome. Não tem fortuna, nem muitas posses, nem reputação a zelar. Esse texto é só um convite a pensar: quem determina seus movimentos?

Assim como meu nome tem sido cada vez mais meu, meu cabelo, minha pele e a defesa da negritude tem construído elevações muito próprias nesse meu caminhar. Sei que a sociedade e os lugares que passei têm peso nisso. A ancestralidade e as forças espirituais têm dado certos empurrões. As pessoas com quem tenho convivido são fundamentais em cada novo posicionamento. Mas entendo e quero entender que todos esses fatores me levam a definir positivamente minhas escolhas. Cada vez mais percebo que o que eu mais quero é que ninguém escolha por mim ou determine o que vou ser e como isso vai acontecer. Não fujo de algo, busco conquistas, não vejo o copo metade vazio, vejo metade cheio, como ouvi dizer Hassane Kouyaté. Acreditem, isso não é fácil, é um exercício para a vida, e aqui sou só mais um aprendiz.

Referencialidade

No ano de 2021 eu completei meu sexto ciclo de 7 anos. Na África Ocidental, mais especificamente em Burkina Faso e ainda se tratando de uma casta específica da qual eu conheço muitíssimo pouco e repetindo as palavras do grande mestre Toumani Kouyaté e da imensa pesquisadora Keu Apoema, SE eu fosse um djeli, estaria saindo da minha fase de aprendiz para poder ser ouvido e respeitado na minha comunidade. Para esses contadores de histórias, dessa região do continente africano, o processo de escuta e aprendizado para desenvolver com mais propriedade o ofício milenar de sua família dura cerca de 42 anos. Mas eu não sou um djeli, sou só mais um contador de histórias afrodiaspórico, um eterno discípulo.

Mas trouxe esse dado, do processo de aprendizado, para destacar que estou buscando referencialidade. Quero saber como agiam e agem muitos povos africanos, quero entender o significado das tradições orais, dos costumes, tendo noção de que numa vida só, pouco devo aprender. A busca pelo conhecer me move e me deixa feliz. E minha ancestralidade já me dá muitas indicações. Por isso defendo que as pessoas possam se chamar, como bem quiserem, e que isso seja respeitado. Numa conversa com um dos meus mestres, François Moise Bamba, sobre as palavras djeli e o termo conhecido no Brasil, griot/griô, ele traz como uma falta de bom senso do dito "colonizador" nomear uma casta tirando dela toda sua referencialidade. A palavra griot não existe em nenhuma língua africana. Ele diz que quando eles têm uma palavra estrangeira, colocam um sufixo para que as crianças saibam que aquela palavra não vem da sua língua e se quiserem compreender melhor há pistas para seguir. Temos perdido nossa referencialidade.

Uma vez me perguntaram (muito educadamente) se poderíamos chamar nossos mestres de griô. Espero ter sido educado na resposta, mas entre outras palavras eu disse que a pessoa poderia chamar seus mestres como bem quisesse, mas acho importante escutar e difundir como a pessoa quer ser chamada. Um Mestre de Capoeira, uma Mestra de Guerreiro, um Mestre de Maracatu, uma Mestra de Coco, são griôs ou griotes? Se eles se assumirem assim, com certeza. Mas para mim um Mestre de Reisado que se coloca assim na brincadeira, pode até ser um griô, mas prefiro chamar de Mestre de Reisado Griô. Percebam aqui que meu combate não é contra a palavra griô, até defendo que se use no Brasil. Minha discussão é sobre como as pessoas querem ser chamadas, sem imposições, e com referencialidade. Para que as crianças, quando forem cavar, tenham como saber de onde partiram os fazeres brincantes. Eu gosto de ser chamado pelo nome, quando alguém me chama de professor, costumo chamar de estudante. Adoro ser professor. Mas procuro chamar todos os estudantes para quem dou aula pelo nome.

Respeitar escolhas, ouvir referências

Por mais que esse texto não seja sobre nome, vou escrever poucas linhas em que essa palavra salta aos olhos. As pessoas que mudam seu nome artístico precisam ser ouvidas e chamadas como quiserem. As pessoas que mudam seu nome social precisam ser escutadas e que se respeite sua opção de gênero. Quem assume um nome africano é detentora de uma consciência vasta, tem uma conexão com suas antepassadas e é merecedora de respeito.

Qual a necessidade de tanto julgamento e depreciação de escolhas genuínas que normalmente só interferem na vida de quem muda seu parâmetro de referência? Essas pessoas estão criando um modo de se ver e serem vistas. Até mais que isso, estão assumindo sua presença no mundo, buscando em si mesmas, ou em referenciais que as estruturam e as definem. Num mundo onde fomos ensinados que determinada cultura é universal, onde é dito que todo mundo tem que agir igual, propor mudanças do seu nome é um salto na contra corrente. E às vezes essa mudança e esse salto precisam se ancorar no passado.

A cultura de Burkkina Faso lembra constantemente a importância de reverenciar quem veio antes. No pouco que sei de tradição oral desse país, lembrar e nomear quem nos antecede e pratica algo anteriormente é fundamental para o nosso crescimento. E cá pra nós, o que tem de gente realizando apropriação cultural e científica de maneira deslavada, nem cabe no gibi. Dá pra falar de Bioeconomia sem ouvir os povos originários? Andre Baniwa, curador de Ecoa, responde melhor que eu. A universalidade e a destruição da referencialidade são armas que só fazem crescer a intolerância.

Por uma escuta mais ampla

Falta escuta, entre as pessoas, entre as instituições, entre aquilo que nós mesmos queremos de positivo para nossas vidas. Sim, estou falando de empatia e pensar positivo. Sem romantizar. Os caminhos são vários. Flora Bitancourt, curadora de Ecoa, em um bom conjunto de sábias palavras provoca pessoas brancas que diminuem o valor da negritude a estudar e assumir seu papel na luta antirracista. E em caso de confronto com atitude racista, Camilla Freitas, repórter de Ecoa, nos diz tintin por tintin como denunciar. E analisando a estrutura machista que temos hoje, a cientista Ana Lucia Tourinho é contundente para lembrar que nosso processo de adaptação à crise climática e ambiental depende do feminino.

Tento provocar olhares para os escritos de alguns provocadores de Ecoa, porque esse grupo me faz entender ainda mais a necessidade de assumirmos o controle de nossas agendas. Não está fácil para ninguém. Mas o número de experiências positivas e exitosas, a abertura da comunicação e a motivação/provocação para escutar (e agir) estão em muitas reportagens desse site. Vale a pena ler, ouvir e reler.

Para finalizar, outro dia reli sem muita pretensão um poema escrito para a comemoração do Kwanzaa (algum dia ainda escrevo sobre) que uma grande amiga, Amani Kemet, me inspirou a fazer. Foi a partir desse texto que resolvi escrever sobre escolhas.

AUTODETERMINAR-SE

Acorde e não só concorde
Uni-vos ao sonho antigo
Tropece e levante lorde
Oferte bem estar contigo
Divide o que lhe é sincero
Escuta o que que a idade trás
Trafegue com todo esmero
E da vida queira sempre mais
Revisite suas motivações
Melhore e calibre seus passos
Invente suas próprias ações
Navegue em seus próprios abraços
Avance ao seu bem querer
Conheça o limite , mas ouse
Atravesse , mas sem se perder
Oportunize voar, mas pouse
(Toni Edson, pouco antes da pandemia)

Eu nem imaginava como a vida ia me levar para esse texto que logo se encerra, a palavra nome aparece quase vinte vezes se contarmos também seu plural e derivação. Isso me deixa pensativo. Eu sei que não é um texto renomado ou digno de nomeação exemplar. Mas gosto desse arranjo de palavras. Espero que gostem desse pensamento exposto de mais um curador de Ecoa.

Opinião