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Por que é fundamental cuidar da saúde mental do professor

Tide Setubal

Tide Setubal

É coordenadora da área de saúde mental e conselheira da Fundação Tide Setubal. Psicóloga e psicanalista, tem mestrado na Universidade Paris V, com pesquisa sobre adolescência. Integra o Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, onde é professora e participa de grupos de pesquisa. É idealizadora do programa Espaço Jovem e coautora do livro "Mundo Jovem", ambos pela Fundação.

21/08/2020 04h00

O Brasil conta com cerca de 2 milhões de professores que lecionam para quase 48 milhões de alunos na Educação Básica — praticamente a população da Coreia do Sul inteira só em estudantes. Mais de 80% deles frequentam a escola pública, o equipamento estatal mais presente no extenso território brasileiro. Não é de hoje que o docente, o principal vetor da Educação, enfrenta sérios desafios de salário, valorização e apoio à carreira. Somados a eles, a pandemia de Covid-19 trouxe outros às pressas, como a adaptação ao ensino remoto com novas tecnologias e até a redução temporária de rendimentos. Portanto, mais do que nunca, é urgente cuidarmos da saúde mental do professor.

Em primeiro lugar, porque estamos todos vivendo um momento muito difícil, de isolamento e insegurança, então, é preciso reconhecê-lo, aceitá-lo e se reorganizar a partir disso, com as ansiedades e os medos, levando em consideração o enorme trabalho psíquico a mais que a pandemia nos impôs. Sem olhar para o seu próprio equilíbrio emocional, que é uma ferramenta preciosa, nem ter um momento de cuidado consigo, o professor enfrentará, de maneira mais frágil, os eventuais adoecimentos psíquicos que podem afetar suas vidas pessoal e profissional. Nesse momento de adaptações, também se faz importante que as famílias dos alunos e a direção da escola possam acolher o professor, apoiando-o e reconhecendo-o, reforçando assim os laços de confiança.

Em segundo, esse cuidado durante e após a pandemia pode se tornar um bom hábito, o que é algo positivo, dado que a saúde mental exige uma atenção de longo prazo. Assim como a saúde física, que já sabemos bem o quão importante é, não adianta realizar só uma conversa sobre saúde emocional por ano, que tudo já estará bem. Não fazemos uma única corrida e com ela já garantimos a saúde física no ano inteiro, fazemos exercícios periódicos para cuidar da saúde física. Do mesmo modo, todos podemos desenvolver o hábito constante de olhar para dentro de si, dialogar e olhar para o outro. Isso é fundamental para que estejamos melhores com nós mesmos e para que possamos estar bem também com o outro, seja ele um aluno, familiar, chefe ou amigo.

Chegamos então à terceira razão: um professor conectado consigo mesmo e atento à dimensão da sua vida psíquica, tende a ter mais conexão e empatia com o aluno, acolhendo-o num momento de retorno ao convívio presencial na escola, o qual tem uma demanda psíquica muito elevada. Elaborar coletivamente o momento histórico pelo qual estamos passando com bastante diálogo e atividades lúdicas para que cada um possa construir e contar uma história sobre essa tragédia mundial é algo fundamental. Por sua vez, o aluno conectado ao professor tende a abandonar menos os estudos porque o ensino vem com o afeto e o envolvimento. Todos nós nos lembramos de pelo menos um professor querido que se importou conosco em nossa trajetória escolar. Assim, se os professores conseguirem se conectar ao máximo com os estudantes, na percepção de que aprendizado e afeto andam juntos, este será um recurso muito potente contra a evasão escolar, que ameaça demais o futuro de milhões de alunos no Brasil.

Por fim, é essencial que o zelo pela saúde mental do professor seja incorporado em práticas nas redes de ensino para a melhoria do ambiente escolar como um todo, que é um dos fatores que também conectam o aluno à escola e ajudam a diminuir a evasão. É valioso o professor entender o que está acontecendo consigo mesmo, poder nomear sentimentos, trocar e aprender com outros docentes, lidar melhor consigo e, por consequência, com os alunos e os colegas de profissão. Quanto mais o professor puder fazer esse movimento de cuidar de si e de observar sua saúde emocional constantemente, se conectando com o seu desejo de ser docente e também com os seus conflitos inerentes à vida, mais ele passará a ter relações melhores consigo e com o mundo a sua volta. Com esse movimento ganhamos todos: os professores, os alunos, a escola, o futuro do nosso país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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