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Por que não pensamos em meio ambiente quando falamos de educação?

Casa Ecoativa, na Ilha do Bororé, zona sul de São Paulo, tem atividades de educação ambiental - Adriana Terra
Casa Ecoativa, na Ilha do Bororé, zona sul de São Paulo, tem atividades de educação ambiental Imagem: Adriana Terra
Luciano Frontelle

Luciano Frontelle

Ativista, autor de piadas ruins e diretor executivo da Plant-for-the-Planet Brasil. Co-fundador do coletivo Clímax Brasil, se diverte com o desafio de tirar as mudanças climáticas do armário desde 2013. Em 2016, esse trabalho foi reconhecido pela revista Época como uma das iniciativas lideradas por jovens que estavam mudando o Brasil.

05/06/2020 04h00

Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente, mas como em outras datas celebradas durante a pandemia, fica difícil celebrar de fato. Fica ainda mais difícil quando a gente lembra que, enquanto muita gente tenta dar sua contribuição para atenuar os impactos do coronavírus, o desmatamento da Amazônia segue como nunca, contribuindo para o aumento das nossas emissões, o oposto do que está acontecendo em outros países.

E assim como em outras datas, é praticamente impossível não se deixar levar pelo pensamento de tentar comparar o panorama com outros anos e imaginar o que estaria fazendo agora — ainda mais com as "lembranças do Facebook" aparecendo todo dia.

Já faz um tempo que trabalho com meio ambiente e clima, então o mês de junho é aquele que costuma ser o mais corrido — e o mais gostoso. Saudades, festas juninas. No ano passado, por exemplo, a organização em que trabalho estava fazendo uma atividade de educação ambiental lá em Cricíuma, Santa Catarina. E essa é a nossa principal atividade na Plant-for-the-Planet, afinal ela foi fundada por uma criança de 9 anos de idade, o Felix, lá na Alemanha em 2007.

Aliás, essa é outra data que vale mencionar, o Dia Nacional da Educação Ambiental, 3 de junho, criado a partir de uma lei em maio de 2012. Enquanto a data de hoje faz referência ao dia da primeira conferência global sobre o tema organizada em Estocolmo, na Suécia, o 3 de junho foi escolhido porque nesse dia, em 1992, começava a conferência conhecida como Rio-92, uma das maiores e mais importantes sobre meio ambiente no mundo.

Mas voltando para as lembranças, educação ambiental não foi algo muito presente onde eu estudei. Não me entenda mal, nós tínhamos discussões de biologia e ciências, mas um processo formativo que me ajudava a entender quais eram os principais desafios ambientais e como combatê-los, não era algo comum. Eu lembro que meu primeiro contato com algo parecido foi assistindo "Capitão Planeta" na TV. Tinha de um tudo nesse desenho: discussões sobre poluição, camada de ozônio, tráfico de animais, desmatamento e desenvolvimento desenfreado. Mas também tinha discussão sobre racismo, empoderamento feminino, AIDS.

Já no ensino médio, eu lembro que uma professora levou para a escola aquele documentário "Verdade Inconveniente", feito pelo ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore. Nessa época eu fazia parte do grêmio da escola e foi aí que começamos a promover uma série de debates sobre a realidade da nossa região, da nossa escola. Daí em diante, não parei mais. Até porque foi nessa mesma época que foram criadas as Conferências Infanto-Juvenis sobre Meio Ambiente, quando Marina Silva (Rede) era ministra do Meio Ambiente.

O diferencial dessas conferências é que as pessoas eram selecionadas para as próximas etapas a partir de projetos que propusessem para as suas escolas. Havia todo um material que ajudava a gente a olhar para o nosso entorno e pensar como poderíamos atuar onde estudávamos.

No entanto, olhando bem criticamente, ainda estamos distantes de vivenciarmos o potencial que temos para a educação ambiental no Brasil. Seja pela ausência de um debate mais estruturado em todos os níveis — o presidente Jair Bolsonaro extinguiu os departamentos de educação ambiental no Ministério de Meio Ambiente e de Educação assim que assumiu; seja pela falta de esforços coordenados de investimentos, ou ainda pelo desafio de aplicar um processo transformador, mais horizontal e menos de "de cima para baixo", como é o modelo da maioria das escolas atualmente.

Eu fico pensando: tem tanta gente que diz que educação é importante, porque é que no enfrentamento da crise climática também não seria?

E se assim é, por que mesmo entre as organizações da sociedade civil que atuam com clima, educação ainda é uma pauta que quase não aparece — a não ser quando há jovens na sala?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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