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Pesquisadores identificam novos peixes em área preservada da Amazônia

Pesquisadores preparam a rede para a coleta de peixes na Calha Norte. A região paraense é um dos tesouros da biodiversidade amazônica - Tiago Freitas
Pesquisadores preparam a rede para a coleta de peixes na Calha Norte. A região paraense é um dos tesouros da biodiversidade amazônica Imagem: Tiago Freitas
Mongabay

A Mongabay é uma agência de notícias sem fins lucrativos que visa aumentar o interesse e a valorização de terras e animais selvagens, ao examinar o impacto das tendências emergentes no clima, na tecnologia, na economia e nas finanças em conservação e desenvolvimento.

11/06/2020 04h00

Reportagem de Fernanda Wenzel

"Foi uma experiência fantástica. A gente conseguiu acessar áreas muito remotas da Amazônia", diz Luciano Montag. O biólogo até hoje se empolga ao falar das aventuras de 11 anos atrás, quando ele e outros pesquisadores coletaram informações para a elaboração dos planos de manejo das unidades de conservação estaduais inseridas nas Áreas Protegidas do Norte do Pará, região conhecida como Calha Norte.

Esse mosaico de reservas fica ao norte do Rio Amazonas e faz fronteira com a Guiana e o Suriname. Pela falta de estradas e rios navegáveis, em muitos lugares o acesso só é possível de helicóptero. "Um mês antes da nossa chegada, os homens do Exército abriram clareiras no meio da mata, para que a gente pudesse pousar", conta Montag, que é professor da Universidade Federal do Pará.

As expedições de 2008 e 2009, porém, renderam mais do que boas lembranças. Com base nos peixes capturados - e depositados no Museu Paraense Emi?lio Goeldi, onde Montag era bolsista na época -, pesquisadores acabam de descrever seis espécies nunca antes encontradas na Bacia Amazônica. Eram espécies que só haviam sido identificadas nas Guianas, no Suriname e na Venezuela.

De fato, a Calha Norte tem mais similaridades ambientais com esses vizinhos do que com o resto da Amazônia, ao sul. É uma área montanhosa, de maiores altitudes, o que faz com que os peixes dali sejam diferentes daqueles de zonas mais baixas. "A Calha Norte tem uma história geológica compartilhada com os rios da região ao norte", explica André Netto Ferreira, professor do departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do estudo.

Vista do dossel na região do Rio Jari, um dos principais afluentes da Calha Norte do Rio Amazonas - Eric Gorgens - Eric Gorgens
Vista do dossel na região do Rio Jari, um dos principais afluentes da Calha Norte do Rio Amazonas
Imagem: Eric Gorgens

Das seis novas espécies de peixes, a mais recente foi identificada em 2019: é o Curimatopsis melanura, que mede cerca de 38 mm e tem uma cauda escura, que o diferencia das outras espécies do gênero. "Os curimatídeos se alimentam de algas que vivem no lodo, promovendo um serviço ecossistêmico formidável de limpeza da água", explica Ferreira.

No maior esforço já feito para conhecer os peixes da Calha Norte, foram analisadas 13.853 amostras de animais, coletadas em afluentes do Rio Amazonas de cinco unidades de conservação (UCs): as florestas estaduais de Faro, Trombetas e Paru, a Estação Ecológica do Grão-Pará e a Reserva Biológica de Maicuru.

A partir das análises, foi possível identificar 286 espécies de peixes, conforme artigo publicado na Revista Acta Amazônica. Um trabalho que exigiu tempo - e segue inconcluso. Segundo Montag, cerca de 20% do material permanece sem identificação: "É uma região sobre a qual não se tem trabalhos, então tínhamos muitas dúvidas taxonômicas. Ainda temos."

A maior diversidade de peixes, 124 espécies, foi encontrada na Floresta Estadual de Faro, a mais próxima do Rio Amazonas. O turismo de base comunitária atrai turistas do Brasil e do mundo - principalmente pela pesca esportiva do tucunaré - e ajuda no sustento das cerca de 30 famílias locais, que têm no peixe a base da alimentação. "Viver ali é sinônimo de fartura. Mas se a UC não tivesse sido criada e a pesca predatória não fosse freada, talvez a gente estivesse passando fome", diz Joerison Fulter Nunes, representante da Associação de Moradores da Flota de Faro.

Curimatopsis melanura, uma das novas espécies identificadas na Calha Norte - Lorena S. Vieira - Lorena S. Vieira
Curimatopsis melanura, uma das novas espécies identificadas na Calha Norte
Imagem: Lorena S. Vieira

Calha Norte, floresta protegida

A descoberta dos pesquisadores é mais um passo na tentativa de desvendar a biodiversidade da Calha Norte, uma área maior que o Reino Unido que tem 80% do território formado por UCs, terras indígenas e territórios quilombolas - o que faz dela o maior bloco de florestas protegidas do mundo.

A região faz parte do Escudo das Guianas, um importante centro de endemismo: 40% das espécies que vivem ali não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. "Na Calha Norte existem serras, platôs, áreas de florestas mais altas ou mais baixas, além de savanas naturais. Cada um desses ambientes apresenta espécies diferentes", afirma Jakeline Pereira, pesquisadora do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Contudo, desde 2008, quando o governo do Pará e institutos de pesquisas uniram esforços para fazer os planos de manejo das unidades de conservação, poucos estudos foram feitos Calha Norte. "A região é grande e remota; o custo das expedições é muito alto", explica Pereira.

As poucas pesquisas resultaram em descobertas impressionantes. Foi na Calha Norte que se encontrou um novo tipo de poraquê, pondo fim à convicção de que existia apenas uma espécie deste peixe elétrico. Outra expedição, em agosto do ano passado, descobriu a árvore mais alta da Amazônia dentro da Floresta Estadual do Paru: 88,5 metros de altura.

Mosaico de unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas das Áreas Protegidas do Norte do Pará, a região conhecida como Calha Norte - Imazon - Imazon
Mosaico de unidades de conservação, terras indígenas e territórios quilombolas das Áreas Protegidas do Norte do Pará, a região conhecida como Calha Norte
Imagem: Imazon

As ameaças: gado, garimpo e rodovia

A dificuldade de acesso à região, por outro lado, também favorece a entrada de criminosos: em 2018, fiscais ambientais identificaram uma grande fazenda no Paru, com mil cabeças de gado.

"As atividades predatórias estão em todos os lugares. Na Calha Norte, há registros atividades ilegais como caça, garimpo e desmatamento", diz Socorro Almeida, diretora de gestão e monitoramento do Ideflor-bio, órgão do Pará responsável pelas UCs.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 2009 e 2019 foram desmatados quase 1.600 km² na Calha Norte - área equivalente ao município de São Paulo. Entre 2018 e 2019, a área derrubada aumentou 62%.

A possibilidade de extensão da BR-163 - de Santarém ao Suriname - estimula ainda mais a grilagem de terras na região. O temor é que a rodovia reproduza na Calha Norte o rastro de desmatamento deixado no restante do Pará: em 18 anos, os municípios cortados pela estrada perderam uma área de floresta equivalente a dez municípios do Rio de Janeiro. O projeto de extensão foi anunciado no primeiro ano do governo Bolsonaro, mas por ora está parado.

Outra preocupação é que a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que engloba parte da Calha Norte, seja aberta para mineração. Rica em cobre, ouro, titânio, tântalo e tungstênio, a Renca já é alvo dos garimpeiros, como denunciou o Greenpeace em 2017. Naquele ano, o presidente Michel Temer tentou abrir a área para exploração da iniciativa privada, medida que voltou a ser defendida em 2019 por Bolsonaro.

Tais ameaças tornam as pesquisas sobre a biodiversidade da Calha Norte ainda mais urgentes. "As espécies que a gente descobriu foram incluídas em estudos para definição da próxima lista de animais ameaçados de extinção. Isso é importante, já que o governo federal quer intervir na região", diz André Netto Ferreira.

Para os cientistas, o risco é que espécies desapareçam antes mesmo de serem conhecidas pelos brasileiros. "Podemos perder parte da biodiversidade que a gente nem sequer estudou. No dia em que algumas espécies forem identificadas, talvez elas nem existam mais na natureza, apenas dentro de um vidro em uma coleção", alerta Luciano Montag.

Os pequenos cursos d?água da região da Calha Norte levam a afluentes do Rio Amazonas e guardam espécies de peixes que agora começam a ser estudadas - Thiago Freitas - Thiago Freitas
Os pequenos cursos d'água da região da Calha Norte levam a afluentes do Rio Amazonas e guardam espécies de peixes que agora começam a ser estudadas
Imagem: Thiago Freitas

Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.