PUBLICIDADE
Topo

Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contraponto otimista para o apocalipse ambiental

Os peixes dominam as águas do planeta com sua espantosa variedade de formas e comportamentos. O peixe-palhaço vive em uma relação simbiótica com a anêmona. O limo no corpo do peixe impede que as células urticantes da anêmona o machuquem - Caters News Agency
Os peixes dominam as águas do planeta com sua espantosa variedade de formas e comportamentos. O peixe-palhaço vive em uma relação simbiótica com a anêmona. O limo no corpo do peixe impede que as células urticantes da anêmona o machuquem Imagem: Caters News Agency
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

16/05/2021 06h00

Para quem está mais informado sobre o atual desastre ambiental, e o que (não) está sendo feito para resolver isso, é bem comum a sensação paralisante de que perdemos. Não encontrando os sinais concretos de uma mudança sistêmica, sobra apenas o velho discurso desenvolvimentista e exploratório, agora anunciado com gravatas verdes.

O primeiro passo da derrota de fato é pensar ou reconhecer isso, e a ênfase exclusiva na realidade brutal da destruição pode acabar forçando essa ideia de que não haveria mais muito o que fazer. Mas como seria o mundo caso realmente efetivássemos as mudanças mais profundas? Talvez a própria falta desse tipo de visão esteja estreitando nossas perspectivas.

Na verdade, essa situação se aplica mais à Europa e EUA, onde o silêncio climático é menos gritante, e as sociedades realmente estão acordando para a tragédia ambiental. No Brasil, em geral, ainda nem começamos a contemplar de fato o que significa continuar poluindo e destruindo em escala massiva, e como isso já está prejudicando nossas vidas. Já nos EUA, por exemplo, 67% da população se sente ansiosa, ou pelo menos bastante preocupada, com os efeitos desastrosos das mudanças climáticas, que já se tornaram uma realidade ameaçadora.

Entre muitos cientistas, a atual era geológica é chamada de "Antropoceno", ou seja, a era dos humanos — isso porque a principal força que está moldando a face do planeta somos nós. Para saber como é essa face basta olhar em volta. Além da 6ª extinção em massa e do aumento da temperatura global, e suas graves consequências, recentemente foi descoberto que as mudanças climáticas já alteraram até o eixo de rotação do planeta e a espessura da estratosfera.

Parece haver um tipo de fatalismo associado a ideia do Antropoceno. Esse é o nosso destino? Como não se afetar diante de tamanha desolação?

Mas a autodestruição não é necessariamente nossa natureza. No mundo natural, um dos princípios dominantes é o da simbiose, a vida em comum com benefício mútuo. Para termos um contraponto ao Antropoceno, pelo menos conceitual, surgiu o termo "Simbioceno", que tenta nos dar um vislumbre de como seria uma civilização humana em simbiose com a Terra. A ideia é do ecofilósofo australiano Glenn A. Albrecht, bastante influente entre movimentos regenerativos por estar criando um novo vocabulário para lidarmos não apenas com os dilemas existenciais de nossa autodestruição, mas também com a possível transição.

Foi ele quem cunhou, entre outras, a palavra "solastalgia", que define uma nova emoção bastante comum hoje: a saudade que sentimos de nosso lar mesmo estando em casa, pois o ambiente foi destruído.

Simbiose

A ideia é que precisamos sair do Antropoceno o mais rápido possível: ou fazemos a transição para o Simbioceno, e nos reconectamos ao mundo natural, ou então... extinção. É um meme formidável pois ao mesmo tempo que não negligencia os problemas mais profundos, no fundo, é otimista.

O conceito de uma civilização simbiótica se liga intimamente com os processos fundamentais da vida. Em termos evolutivos, a vida como a conhecemos se deve a processos de simbiose, conforme as descobertas revolucionárias da bióloga estadunidense Lynn Margulis. Por exemplo, há um bilhão de anos, micro-organismos fotossintéticos iniciaram um processo de mutualismo com vegetais, resultando na capacidade das plantas de armazenarem energia solar: fotossíntese. Até partes fundamentais de nossas próprias células se devem a processos simbióticos entre organismos, iniciados há centenas de milhões de anos.

A urgência de uma relação mútua de benefício e cuidado — não apenas com o mundo natural, mas com as outras pessoas e até conosco mesmos — se torna óbvia quando olhamos nosso padrão de produção e consumo: somos a única espécie que retira massivamente da natureza e devolve, quase que exclusivamente, contaminação multiplicada. Assim, não surpreende o atual nível de degradação em que nos encontramos.

Auto-organização

Uma das implicações de uma relação simbiótica com a natureza é aprendermos com ela. A vida se baseia em sistemas auto-organizados, uns dentro dos outros. Nos anos 70, o escritor inglês Arthur Koestler criou o conceito de "holon", um tipo de círculo que contem outros círculos, ao mesmo tempo que está contido em um círculo maior, estendendo-se infinitamente tanto para dentro quanto para fora.

Cada organismo vivo é um holon, assim como seus componentes menores. E ele também está inserido em holons maiores, como biomas, comunidades etc. A relação entre os holons é auto-organizada. Não é preciso uma entidade central ou governante para gerir os processos.

Baseado nesse modelo, que é o da própria vida, foi criado um sistema de organização chamado holacracia, auto-organizado e sem hierarquias de cima para baixo. É nisso que se baseia também o modelo descentralizado de novas mobilizações socioambientais como o Extinction Rebellion.

Além da ação em relação à emergência ambiental, o movimento defende também a organização política da sociedade em assembleias cidadãs, como uma possível solução para a atual falência da política partidária como conhecemos. A ideia é mais simples do que parece: do mesmo modo como a vida se auto-organiza de forma eficaz, se realmente estivermos em simbiose com a natureza, também podemos fazer isso nós mesmos, de modo a sustentar e promover a vida. Não precisamos de alguém nos organizando para isso.

Nova ética

A transição em direção ao Simbioceno implica também uma nova dimensão moral. A ideia da biosfera, ou Gaia, como um sistema auto-organizado vivo do qual somos apenas uma parte, exige atitudes éticas baseadas na própria natureza. Como não somos separados da vida, não podemos prejudicar a vida.

A tão sonhada compaixão imparcial pode então ser ancorada em princípios naturais, se libertando de ideais filosóficos ou doutrinas espirituais e, assim, realmente tendo um apelo humano universal.

Obviamente que todas essas ideias implicam nos engajarmos ativamente em direção a essas mudanças, não basta apenas termos conceitos que soam bem. Mas tudo isso já existe na prática: sempre houve comunidades vivendo assim, como os povos originários, entre outros. No entanto, é algo que não apenas está mal distribuído, mas também costuma ser ativamente atacado e destruído.

Essa possível transição regenerativa é mais uma questão de reconhecimento, proteção e amplificação do que de criar algo do zero. E a organização da sociedade para demandar essas mudanças é uma parte fundamental do processo, como os novos movimentos ambientais estão demonstrando.

Não é por acaso que eles são formados em grande parte por jovens, com uma nova mentalidade, que assim já estão sendo chamados de "Geração S" — "S" de Simbioceno.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL