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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como ajudar na conscientização sobre a atual emergência ambiental

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Imagem: Getty Images
Emersom Karma Konchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

11/04/2021 06h00

Um dos obstáculos mais paralisantes — talvez o número um — para as ações regenerativas em relação à atual emergência climática e ecológica é a inconsciência do público em geral sobre a gravidade da situação. Apesar dos sentimentos de desolação e impotência sobre isso, há muito sim o que podemos fazer nessa área: está em nosso alcance e tem funcionado no exterior.

Como os veículos de comunicação são os responsáveis por pautar a opinião pública, podemos cobrar a mídia por notícias com melhor contextualização sobre o problema, em um diálogo construtivo, para o benefício de nossa civilização em risco.

E, claro, sempre podemos também amplificar esse debate em nossas conversas e redes pessoais.

Emergência

Apesar da pandemia não deixar muito espaço para a discussão de outros problemas, ela é um dos sintomas do extrativismo de nossas sociedades, cuja sede por devastação natural não tem limites. Não podemos ignorar a crise maior e os desafios catastróficos que já estão se apresentando em muitas partes do globo. Por exemplo, todo ano, doenças causadas pela poluição atmosférica matam três vezes mais do que o número total de mortos por covid-19.

As consequências das mudanças climáticas causadas pela produção e consumo de nossas sociedades terão efeitos muito mais desastrosos do que a maioria imagina.

Isso se liga também a outra crise: a acelerada perda de biodiversidade, causada pela devastação de áreas naturais, contaminação química das indústrias, monocultura, pesca etc. E as extinções em massa anteriores também foram causadas por mudanças climáticas. Entramos já na sexta grande extinção na Terra, com a diferença de que agora somos nós os responsáveis. É por isso que muitos cientistas hoje usam a palavra "antropoceno" (antropo/humano + ceno/recente) como sinônimo para "holoceno", o atual período geológico, definido de modo drástico pela ação humana no planeta.

Mobilização

Como temos pouco tempo para as mudanças necessárias cientistas falam em dez anos —, a melhor chance que temos é nos mobilizarmos como sociedade e exigir mudanças no nível de políticas governamentais — em um nível emergencial, elas seriam o fim imediato da destruição de ecossistemas e dos mecanismos de emissão em massa de gases do aquecimento. É essa abordagem que tem funcionado no exterior.

No entanto, em países como o Brasil, um engajamento assim da sociedade é virtualmente impossível, já que as informações básicas sobre a gravidade da emergência ambiental não estão disseminadas. Há um silêncio sobre isso, propagado principalmente pela mídia. Vemos notícias sobre a Amazônia, incêndios, recordes de temperatura etc. Mas sem contexto: a ligação com a crise maior e suas graves consequências — seca, fome, desertificação, conflitos... — não são mencionadas.

Apesar de todo tipo de mudança ser bem-vindo, neste período de urgência, focarmos em mudanças de hábitos ou mais desenvolvimentismo (como o "crescimento verde") não apenas não resolve, mas potencialmente pode agravar o problema, já que cria uma distração ou até mais extrativismo.

Em países da Europa onde as políticas ambientais estão mais avançadas — com decretação nacional de emergência climática e diversas outras medidas — em grande parte isso aconteceu devido à mobilização intensa da sociedade que, por sua vez, só foi possível devido a presença intensa da crise climática e ambiental no noticiário.

Como ajudar

Aqui estão algumas sugestões de como poderíamos ajudar individual e coletivamente nessa área:

  • Cobre de modo construtivo as empresas de mídia - Entre em um diálogo com os veículos de comunicação. Isso não se refere a deixar comentários críticos na página web. Envie mensagens para a editoria responsável. Se puder, fale diretamente com o jornalista nas redes sociais. Exemplos de colocações: "Seria possível mencionar as consequências do desmatamento da Amazônia em notícias futuras? Sugiro que mencionem outras soluções para isso, além das estratégias empresarias para se lucrar com a natureza. É possível mencionar as mudanças climáticas, suas causas e consequências em notícias sobre ondas de calor e outros eventos extremos?"
  • Use uma linguagem livre da política partidária - Ao falar sobre isso em conversas pessoais ou redes sociais, a ideologização da crise ambiental apenas agrava a atual polarização política -- que por si só já trava o debate. A degradação e perda do ambiente em que vivemos é um problema universal, não uma questão de direita X esquerda. Temos que mudar o atual sistema (auto)destrutivo e não apenas trocar um político, ou partido.
  • Participe de algum movimento. Isso amplia tanto sua própria voz quanto a da causa ambiental em geral, além de ser uma inspiração constante contra a inação e apatia.
  • Conversar sobre isso com pessoas próximas pode ser muito mais efetivo do que nas bolhas das redes. Todos que postam com frequência em redes sociais já devem ter percebido algo: as pessoas que se engajam com conteúdo ambiental, por exemplo, são sempre as mesmas. Ou seja, os algoritmos das redes tornam redundante o conteúdo que colocamos ali: apenas as pessoas que já seguem conteúdo ambiental vão ver. Já com pessoas que conhecemos bem, a interação é diferente, pois a amizade é parte da comunicação e, assim, é comum realmente haver diálogo e a mensagem ter efeito, se for passada de modo sensível e empático.

Um exemplo de um movimento para lidar com o silêncio climático que tem tido resultados, nos EUA, é o "End Climate Silence".

Boa parte das ações desse coletivo giram em torno de uma conta no Twitter, que entra em diálogo com as empresas de mídia, com sugestões de uma melhor cobertura da emergência climática. E, claro, os seguidores do perfil amplificam imensamente o debate. Como se trata de um movimento construtivo, muitas das empresas realmente passaram a aperfeiçoar a cobertura ambiental após entrarem nesse diálogo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL