PUBLICIDADE
Topo

Mente Natural

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A espiritualidade da crise ambiental

iStock
Imagem: iStock
Emersom Karma Kontchog

Monge budista brasileiro e ex-jornalista. Estudou filosofia budista e língua tibetana na Índia e Nepal entre 2013 e 2015, completando depois o tradicional retiro de três anos para lamas na linhagem tibetana do budismo vajrayana nos EUA. É voluntário na causa ambiental e na propagação de valores humanos sem crenças (ou ética secular), além do budismo.

27/03/2022 06h00

Costumo escrever aqui a partir de um ponto de vista laico. Mas aproveitando o lançamento de uma campanha para engajar mais tradições espirituais na mobilização ambiental, vou trazer aqui um tema mais "espiritual".

A iniciativa Fé no Clima lançou esta semana guias de "reflexões sobre mudanças climáticas para comunidades religiosas" (há uma contribuição minha na seção budista). Pode parecer que uma coisa não tem a ver com a outra, especialmente quando vemos tantas pessoas eminentes, supostamente "religiosas", cometendo exatamente o contrário do que sua religião ensina. Mesmo assim, acredito que qualquer forma de espiritualidade, incluindo abordagens laicas, deveria estar profundamente ligada ao cuidado amoroso não apenas com seres humanos, mas com toda a vida.

O próprio fato de que muitas religiões hoje abertamente crescem com uma mensagem materialista — prometendo riquezas, poder e tudo mais — demonstra certa falência ética.

Assim, entre a crescente parcela de descrentes, é comum uma rejeição inflamada e instantânea às grandes instituições religiosas. Como isso se deve, em boa parte, a essas pessoas que acabam destruindo a reputação de sua religião, compreendo e até simpatizo de certa forma com essa insatisfação — apesar de eu também não passar nem perto de ser um exemplo para a tradição que represento.

O problema é que muitas vezes, como dizem os norte-americanos, "ao jogar fora a água da bacia que banhou o bebê, o bebê vai junto". Ao rejeitar às religiões e o mal que alguns dos adeptos praticam, aquilo que é bom acaba indo junto: os valores humanos como compaixão e cuidado que, na verdade, não têm nada de religioso e, em teoria, deveriam estar na base dessas tradições.

É por isso que não acho produtiva qualquer tentativa de conversão ou expansionismo religioso, incluindo as mais sutis, que sugerem um tipo de supremacia filosófica ou ética. Acredito que a ampla difusão de uma espiritualidade ou ética completamente laica, baseada em altruísmo e no reconhecimento da vida maior que nos une, sim tem o potencial de transformar o mundo.

Vale a pena parar para pensar o que significa espiritualidade. A palavra "espiritual", na origem, se refere a um princípio imaterial, em oposição à matéria. Mas, na prática, uma pessoa que consideramos "materialista" não é simplesmente alguém que acredita na matéria como sendo o princípio absoluto da existência, mas sim alguém que persegue apenas objetivos materiais, ou seja, bens finitos e transitórios. Em oposição a isso, uma pessoa "espiritualizada" é aquela que se guia principalmente por princípios que não se restringem aos seus desejos passageiros, por valores que transcendem a existência individual, sem necessariamente negá-la.

Assim, a espiritualidade pode ser vivenciada tranquilamente sem nenhum tipo de crença sobrenatural — e muitas vezes isso acaba sendo mais genuíno, devido à ossificação das grandes tradições. Por exemplo, podemos dizer que a própria vida já traz uma dimensão espiritual inerente e imediata, pois ela envolve simultaneamente princípios transcendentes (é maior que cada um de nós, somos apenas expressões limitadas dela) e imanentes (está bem aqui e agora, neste corpo, nesta mente).

Esse entendimento fica bem óbvio quando consideramos a biosfera do planeta. O reconhecimento profundo de como somos parte integrante do mundo natural — por mais que ainda não haja respostas definitivas para o que é a vida — já é suficiente para uma espiritualidade completa, pois inclui valores éticos em relação a tudo que vive, há comunhão e união com uma realidade menos relativa e mais absoluta, e isso traz a paz de uma existência com sentido e propósito.

É em momentos como o atual, em que há a ameaça de nossas sociedades desmoronarem devido à destruição do ambiente, que nossas profundas raízes naturais terminam expostas, havendo um potencial muito maior para o despertar. Quem não costumava considerar questões como essas, acaba fazendo isso. Quanto mais pessoas despertas nesse sentido, maior será a chance de lidarmos de modo adequado com esta crise existencial inédita.

Talvez o principal obstáculo para esse despertar não seja o fato de que muitas pessoas não enxergam além dos objetivos mais imediatos e individuais — e muitas nem podem, devido à desigualdade e exploração. Mas sim que já existe um sistema de valores amplamente difundido e profundamente enraizado, que vai exatamente na direção oposta dessa visão mais integrada. Esse sistema diz: somos seres isolados, a vontade individual é suprema, vale tudo em nome dela, nossa natureza é egoísta, a vida é uma competição, por satisfação e prazer instantâneos etc.

E isso se converte até em crenças espirituais, como nas ideias sobre a supremacia da alma humana, de que outros seres vivos não têm alma, fomos feitos à imagem de Deus, somos senhores da natureza.

Até pessoas mais inclinadas à ciência caem nesse supremacismo, ao considerar que o ser humano é o ápice evolutivo, sendo donos exclusivos da consciência, nossos genes são egoístas, ou que o cosmos desperta para si na consciência humana (ou seja, somos o centro do universo!).

O mesmo vale para política e economia. Já parou para pensar o que significam afirmações como as seguintes? "O capitalismo é o único sistema viável. Quanto mais privatizar, melhor. A desigualdade é inevitável pois seres humanos são desiguais por natureza. As forças de mercado organizam a economia de modo eficiente pois são naturais".

Então, não é que estamos cegos ao fato de que há uma vasta teia natural interdependente — da qual somos meros elos — por pura ignorância. Isso é óbvio demais para não ser percebido. O obstáculo é que há essa crença supremacista que se ramifica e dissemina em todos os níveis, levando exatamente na direção oposta da realidade mais profunda. Enquanto ela não for neutralizada — e o atual sistema não for identificado pelo que ele é: uma ideia falsa muito perigosa — continuaremos na cegueira.

Minha utopia em termos espirituais é um mundo em que não haja mais "pessoas espirituais", no sentido de que ver ou buscar a realidade como ela é não deveria ser algo excepcional, que precisa ser classificado como um interesse exótico. Esse deveria ser um processo natural e universal. Do mesmo modo, não haveria "ambientalistas" e "ecologistas". Não é estranho que lendo as notícias encontramos frases como a seguinte?

"Já ambientalistas afirmam que esse projeto de lei é uma invasão às terras indígenas e ao seu próprio direto de existir."

Ou seja, "ambientalistas" integram aquele grupo anômalo de seres que se preocupam com coisas como natureza, povos originários, o ar que respiramos, o ambiente que vivemos. É como se isso fosse antinatural! Nessa visão, o normal e natural é destruir e explorar.

Pode parecer que estou defendendo aquela visão bastante difundida em meios espirituais de que para corrigirmos nossa rota catastrófica basta olhar ao redor, se unir com a natureza, meditar etc. Não, não acredito nisso. Especialmente, em momentos perigosos como hoje. O que penso é que uma transformação de mundo genuína necessariamente envolve a regeneração ou descolonização do modo como pensamos e existimos, do mesmo modo como uma espiritualidade genuína — ou preocupação com um bem maior — necessariamente envolve a ação em relação aos grandes males que criamos.