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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O preço das minorias (em direitos) de salvar a arte

Obra de Jaider Esbell - Acervo pessoal de Jaider Esbell
Obra de Jaider Esbell Imagem: Acervo pessoal de Jaider Esbell
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

10/11/2021 06h00

No dia 2 de novembro fomos assaltados pela notícia de que o parente Macuxi, Jaider Esbell, encantara*. Nasceu em Normandia, em 1979, e viveu até aos 18 anos na hoje Terra Indígena Raposa Serra do Sol, estado de Roraima. Ele foi (e é, uma vez que a arte agencia a memória cultural) escritor, artista, arte-educador, curador e ativista dos direitos indígenas, e ainda ocupava muitas outras funções; funções que um corpo político, uma voz-práxis carrega consigo.

Como escritor, que foi o ofício pelo qual lhe conheci, publicou em 2012 a obra "Terreiro de Makunaima - Mitos, lendas e estórias em vivências", com impressão limitada via Edital Funarte. Em 2013, por edição de autor, publicou "Tardes de agosto: manhãs de setembro: noites de outubro". Como ilustrador participou dos projetos "Cantos e encantos Meriná Eremu" (Wei Editora), em 2017, de iniciativa de Devair Fiorotti. Ainda com Devair, que encantou há pouco tempo também, ilustrou "Urihi: nossa terra, nossa floresta" (2017), publicado pela Editora Patuá. Na linha editorial, por certo, possui outros trabalhos que provavelmente desconheço, dada a grande extensão de projetos de que participava.

Como artista visual estava com a exposição na 34º Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), com "Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea" e com "Entidades", duas serpentes flutuantes de 10 metros de altura instaladas na região do espelho d'água do Parque da Redenção, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

O artista Denilson Baniwa escreveu uma carta para os parentes, publicada no blog da Tucum que você pode acessar integralmente aqui: Carta, por Denilson Baniwa - Blog Tucum (tucumbrasil.com). Nela, Denilson alude ao "fake-sucesso-branco", esse lugar considerado sucesso, conhecido como a melhor fase da carreira, mas que para os artistas indígenas pode-se traduzir como "a cobrança de respostas para salvar a arte, a pressão por não falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes indígenas, a ininterrupta fome de quem nos vê como uma novidade devorável no mercado".

O artista utiliza a metáfora do muro para expressar o cerceamento da vida saudável que nós artistas somos impelidos a acatar, seja em agendas de entrevistas que desrespeitam jornadas de trabalho, seja pela cobrança constante nas mídias sociais. Mas por que os holofotes não cobram os agentes que adoecem a arte e a tornam inaceitável à sociedade brasileira?

A retórica da salvação da arte

Pesa sobre os artistas indígenas, negros, LGBTQia+, PCD's, no Brasil, a responsabilidade étnico-racial, coletiva e social de salvar a arte por meio de palestras que envolvem diretamente a vivência e a dor. Essas resistências, memórias, histórias, narrativas passam a ser consumidas pela sociedade dominante sem que as estruturas se abalem e efetivem políticas públicas que garantam direitos políticos, humanos, sociais e econômicos aos corpos dissidentes. De um lado, esse consumo ainda está alinhado à falta de autocrítica. O distanciamento dos povos e culturas pelos artistas não indígenas, educadores, leitores evidencia o deslumbramento no contato com sujeitos e povos que sempre estiveram no Brasil. Porém, esse contato não tem provocado a insatisfação do branco, do não indígena, de acomodar-se nos livros canônicos, em naturalizar o redface (representação branca de indígenas, marginalizando corpos indígenas), e ocupar espaços em instituições culturais (teatros e museus por exemplo) sem a presença constante de artistas e curadores indígenas.

No que tange aos colunistas de jornais, são as minorias em direitos que expressam a indignação em casos cotidianos de racismo, machismo, homofobia, como se de nós dependesse a denúncia para a mudança radical, como mostra Marina Mathey em sua última coluna, que você pode acessar aqui: Sua opinião virou crime, e agora? - 03/11/2021 - UOL ECOA.

Do lado de cá, de artistas que precisam existir e re-existir, em uma sociedade predominantemente assentada em princípios excludentes, consumir nossa arte já não basta. Como diz Sônia Guajajara, "é preciso conhecer nossa cultura, mas também nossos conflitos" e se posicionar em prol da nossa vida.

Por outro lado, a arte das comunidades de resistência tem sido cada vez mais adotada para tema ou objeto de produtores culturais brancos. bell hooks, em seu livro "Olhares negros: raça e representação" (Editora Elefante, 2019), denuncia a lógica capitalista (e supremacista branca) que transforma as comunidades de resistência em comunidades de consumo. Ao usá-los sem nenhum compromisso com tais comunidades, criam imagens de sujeitos de resistência que se coadunam com a lógica hegemônica e dominante; incapaz de invocar ou sensibilizar a mudanças sociais, não evitam as violências - físicas e simbólicas - que incidem sobre as minorias em direitos. O cuidado solicitado nada tem a ver com a exclusão de sujeitos marginalizados de espaços culturais que tanto lutam para se fazer presentes, mas de como as instituições precisam se repensar junto às lutas das minorias político-culturais.

Os produtores culturais brancos devem ser capazes de alterar fundamentalmente seu olhar e produção para ser capazes de se engajar nas lutas dos corpos e povos que representam, para além de um modismo, exotização e afirmação de um Brasil que usa elementos de povos e grupos para perpetrar privilégios, representatividade a uma classe que se mantém no poder.

O cansaço que nos sobrecarrega adveniente dessa postura de um lado neutra, de outra inerte, afeta diretamente a qualidade de vida e a vontade de viver no mundo da arte, pois a luta incessante aparentemente individual de coletivos exige da saúde mental de artistas periferizados que trabalham no duplo aspecto: de um lado, combatendo todo um cânone e referências epistemológicas que mantêm o status quo de agentes promotores do racismo/machismo/homofobia; de outro, educando artistas, professores, administradores representantes de instituições culturais e educacionais sobre seu próprio privilégio.

Convoco os não indígenas à pesquisa, ao estudo dos povos étnicos, religiões, culturas, histórias diversas existentes no país, mas também sobre o sentido violento da colonização, da história oficial, e da cultura brasileira hegemônica que marginaliza grupos e povos não brancos. O acento precisa incidir nesse lado intocável da história também. Agir pode ser um caminho para que não paguemos o preço de lutar por nossa inclusão com as nossas próprias vidas. Que sempre possamos lembrar da memória de Jaider Esbell.

*Encantar é um verbo utilizado por indígenas para dizer que um parente faleceu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL