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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Literatura Indígena bilíngue e polilingue na sala de aula

Literatura Indígena bilíngue e polilingue na sala de aula - Montagem: Julie Dorrico
Literatura Indígena bilíngue e polilingue na sala de aula Imagem: Montagem: Julie Dorrico
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

30/06/2021 06h00

A literatura indígena traz inequivocamente atributos de sua identidade cultural como projeto de afirmação. Usar a língua materna em projetos literários têm sido uma alternativa que os escritores têm usado para revitalizar e fortalecer as línguas originárias.

No Brasil, segundo o último censo (IBGE, 2010) há no país 274 línguas indígenas. Ricardo Tupiniquim Ramos, Professor-Assistente do Departamento de Ciências Humanas (Campus VI - Caetité) da UNEB, informa que o parâmetro estabelecido pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), para que uma língua não corra o risco da extinção é ter 6 milhões de falantes. Nesse sentido, denuncia o pesquisador, todas as 274 línguas indígenas no Brasil estão em risco de extinção visto que no Brasil, nem todos os indígenas, totalizando 897 mil no último censo, falam unicamente uma língua.

O intelectual e educador Gersem Baniwa argumenta que "a perda de uma língua por um povo indígena afeta diretamente a relação desse povo com a natureza e o cosmo, resultando em quebra ou redução de conectividade entre os seres e, consequentemente, afetando o equilíbrio e a harmonia da vida no mundo". Ele elenca, assim, a função social e transcendental das línguas indígenas como o caráter sociocósmico que propicia o elo, a conexão e a comunicação entre os mundos existentes.

Perceber a importância das línguas indígenas na sala de aula passa pelo desafio, segundo Gersem, de superar a "face perversa e histórica da tradição colonial do Estado que continua sustentando e legitimando uma relação de poder profundamente assimétrica de dominação, negação, opressão, inferiorização, discriminação, racismo e invisibilização dos povos indígenas e outros grupos étnicos subalternizados".

Literatura Indígena bilíngue

2 - Montagem: Julie Dorrico - Montagem: Julie Dorrico
Lia Minápoty e seu livro bilíngue
Imagem: Montagem: Julie Dorrico

A escritora Lia Minápoty, pertence ao povo Maraguá, que se localiza na área indígena de Maraguápajy, no estado do Amazonas. A autora da obra "Tainãly, uma menina Maraguá/Taynãly, yepé tainãê Maraguá" (Editora Positivo, 2014), é falante nativa da língua maraguá, mas também fala o português, o mawé e o nheengatu. Para essa publicação, a autora escolheu o maraguá como projeto político ao lado da língua portuguesa.

Destinada ao público infantil, as crianças e os leitores não falantes da língua podem ter acesso a vocábulos da língua maraguá como kunhãtãi, xerimbabo, pirá, que significam respectivamente, menina, animal de estimação e peixe. Apresentando um cenário positivo da vida indígena ribeirinha, o leitor se depara com o projeto de renomeação da Terra pela língua maraguá que busca reencantar o espaço a partir do relacionamento entre o povo e a floresta; além de mostrar imagens humanizadas dos indígenas em seus territórios tradicionais. Para adquirir a obra clique aqui: Tainãly, Uma Menina Maraguá.

2 - Montagem: Julie Dorrico - Montagem: Julie Dorrico
A obra polilingue: "Taynôh"
Imagem: Montagem: Julie Dorrico

A escritora Aline Pachamama fez um projeto ousado e digno de ser celebrado. Aline pertence ao povo Puri, da Mantiqueira, que se localiza no estado do Rio de Janeiro. É Doutora em História Cultural pela UFRRJ, Mestre em História Social pela UFF e idealizadora da Pachamama Editora.

A obra em questão trata-se da polilingue: "Taynôh: o menino que tinha cem anos/Taynôh: mitsi dzahu na watébrémi ãmã iwahu/Taynôh: ava'i ma'et' as ro'yma ohasa/Taynôh: el niño que tenia cien años" (Editora Pachamama, 2019). A narrativa é escrita em 4 línguas: A'uwé, Xavante (Macro-Jê), Guarani Mbya (Tupi), português e espanhol.

"Taynôh é a criança que está crescendo ou a criança interior dos que se tornaram adultos", diz a autora; Pachamama é a mãe de todos os indígenas. Quando o menino perde a conexão com os ancestrais, abandona a floresta do coração, passa a sentir a crise de afeto e se entristece. Mesmo diante dos convites de Pachamama, o menino já não quer cantar as canções antigas e ser parte dela. O tema da desconexão com a terra é a crítica paradigmática da teoria indígena sobre um modelo de sociedade pautado na dicotomia entre homem versus natureza. A obra destinada ao público infantil e juvenil busca reaver a organicidade dessas relações rompida pela modernidade.

O projeto linguístico de trazer duas línguas indígenas ao lado de duas línguas de matriz europeia e colonizadora, simboliza um chamado para que o leitor volte seu olhar às línguas indígenas existentes no país. A tradução das línguas indígenas não foi feita ipsis litteris, pois há muitas palavras em língua portuguesa que não fazem parte do mundo indígena. Para valorizar a oralidade, a editora compartilha um vídeo em seu site em que a narrativa em Guarani Mbya para que o leitor não-indígena escute a palavra pronunciada por um falante nativo e sinta a espiritualidade nela. Para adquirir a obra, clique em Taynôh | Pachamama Editora.

Lançamento Makunaimã Taani

3 - Montagem: Julie Dorrico - Montagem: Julie Dorrico
Kamuu Dan, pertencente ao povo Wapichana
Imagem: Montagem: Julie Dorrico

O escritor Kamuu Dan, pertencente ao povo Wapichana, que se localiza no estado de Roraima fronteira com a Guiana, está lançando sua mais recente obra: "Makunaimã Taani: Presente de Makunaimã" (aua editorial, 2021). O livro destinado ao público infantil, ou como diria Aline Pachamama, a criança interior em você leitor/a adulto/a que não está próximo da literatura indígena ainda, traz a línguaWwapichana primeiro, seguido da língua portuguesa.

O livro traduzido integralmente pode ser usado como ferramenta pedagógica tanto para a educação escolar indígena, que pode utilizar a obra para alfabetização em língua materna wapichana; bem como para a não-indígena, que pode ter o contato com a língua Wapichana e a visão de mundo indígena que traz o enredo. De forma poética, o autor mostra a diferença entre a plantação de milho no sentido indígena que o ato de plantar envolve, e a do agronegócio não-indígena. Uma reflexão contemporânea desafiadora que precisa ser discutida pelos leitores karaiwenau, os brancos/não indígenas.

Para adquirir a obra, clique em Livro Infantil Presente de Macunaimã de kamuu Dan Wapichana | Shopee Brasil.

Plantando sementes

Nesta última semana, nós, povos indígenas, fomos devastados em mais um ataque do Estado brasileiro em nossos direitos indígenas, assegurados pela Constituição Federal de 1988. A aprovação da PL 490 que tem por objetivo impedir a demarcação das terras indígenas, revisar as já demarcadas, e regularizar o garimpo nessas TI?s é mais um projeto do genocídio não efetivado aplicado desde 1500 contra os povos originários.

Já sentimos que a concentração de terras para a exploração nas mãos de poucos latifundiários não se preocupa com a vida coletiva a longo prazo, em alguns casos, nem no curto ou médio. Dados científicos comprovam a proteção das áreas habitadas por comunidades indígenas. Escrevi sobre isso aqui: Dicas de autoria indígena para você ler na Semana do Meio Ambiente - 09/06/2021 - UOL ECOA. Para além de todo cuidado que os indígenas fazem para com a Mãe-Terra, é preciso olhar a história colonial, ditatorial que violou direitos de terra, de vida, de humanidade, de cidadania aos povos originários; e avolumar nossas vozes para que esses atos de injustiça, no atual governo de morte, não seja nossa sanguinária história.

Por isso convido a todos a lerem e assinarem a Carta Aberta aos Ministros do Supremo Tribunal Federal para que eles não compactuem com a tese do Marco Temporal, que além de injusta com a história e as vidas indígenas, respalda um futuro de exploração ensejado pelos ruralistas, que não nos cabe, e nem a eles, e nem a ninguém. Em síntese, a tese do Marco Temporal tenta usar a máxima de que só tem direito às terras indígenas povos que estavam nos territórios que reivindicam na data de 05 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. Desconsiderando ou ignorando desonestamente a colonização que se apropriou ilegalmente das terras indígenas, e mais recentemente dos realocamentos dos povos na Ditadura Militar, causando a morte de indígenas de vários povos, a tese tenta tomar as poucas terras que nos restam.

Para assinar a Carta Aberta clique aqui: CARTA ABERTA AOS MINISTROS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL