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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dicas de autoria indígena para você ler na Semana do Meio Ambiente

"A queda do céu" do xamã yanomami Davi Kopenawa - Montagem: Julie Dorrico
"A queda do céu" do xamã yanomami Davi Kopenawa
Imagem: Montagem: Julie Dorrico
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

09/06/2021 06h00

Na primeira semana de junho, comemora-se a Semana Nacional do Meio Ambiente, instituída pelo Decreto nº 86.028, de 27 de maio de 1981. O Decreto também definiu a comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no dia 05 do mês corrente, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), na Conferência de Estocolmo, na Suécia, em 1972.

Nesta semana agentes indígenas mobilizam-se para chamar atenção para uma luta diária dos povos originários: a luta pelas vidas humanas e não humanas que constituem o planeta. Lideranças e escritores indígenas criticam e teorizam a postura dominante e política da economia brasileira cujas consequências atingem diretamente os sujeitos e as comunidades indígenas, e a vida de todos os brasileiros, sem exceção. Teorizando sobre a língua, os sentidos e a prática, o xamã Davi Kopenawa questiona a morfologia do nome "Meio Ambiente". Liderança do povo Yanomami, que habita o estado de Roraima, o ativista em defesa da floresta, rechaça o nome porque, segundo ele, a própria constituição já denota a fragmentação que corrobora a destruição da natureza:

"Quando falam da floresta, os brancos muitas vezes usam uma ou outra palavra: meio ambiente. Essa palavra também não é uma das nossas e nós a desconhecíamos até pouco tempo atrás. Para nós, o que os brancos chamam assim é o que resta da terra e da floresta feridas por suas máquinas. É o que resta de tudo o que eles destruíram até agora. Não gosto dessa palavra meio. A terra não deve ser recortada pelo meio. Somos habitantes da floresta, e se a dividirmos assim, sabemos que morreremos com ela. Prefiro que os brancos falem de natureza ou ecologia inteira. Se defendermos a floresta por inteiro, ela continuará viva".

A crítica xamânica da economia política da natureza, trazida na obra "A queda do céu: palavras de um xamã yanomami" (Companhia das Letras, 2015), denuncia o nome Meio Ambiente nos sentidos de destruição que ele enseja. Convoca, assim, à mudança de postura do "povo da mercadoria" - os brancos, a mentalidade branca-imperial-colonial-ocidentalizada - para que parem de destruir a floresta. Como isso poderia ser possível? Escutando as "palavras em pele de papel", isto é, as palavras escritas na obra, as palavras ritualizadas, dos ancestrais, na defesa da vida espiritual que habita as árvores, os rios e os animais.

Ideias para adiar o fim do mundo?

1 - Montagem Julie Dorrico - Montagem Julie Dorrico
O livro "Ideias para adiar o fim do mundo" de Ailton Krenak
Imagem: Montagem Julie Dorrico

Ailton Krenak, intelectual e ativista indígena há mais de cinco décadas, é um expoente na defesa dos povos indígenas e da floresta. Suas ideias fortemente assentadas nos princípios indígenas fornecem métodos milenares e ancestrais do relacionamento orgânico da humanidade indígena com a floresta. Nesse sentido, o autor defende a relação homem e natureza como imbricadas, questionando a dicotomia antropológica "homem versus natureza" que a ciência ocidental impõe para ser sujeito produtor de conhecimento. Em "Ideias para adiar o fim do mundo" (Companhia das Letras, 2019), o autor diz poeticamente "Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo que eu consigo pensar é natureza".

O que rege, porém, nossa educação básica e social, é a ideia de que natureza e cultura são áreas distintas de ser. Resumidamente o antropólogo francês Philipe Descola explica que a hipótese é esta: "Os humanos são sujeitos que possuem direitos por conta de sua condição de homens, ao passo que os não humanos são objetos naturais ou artificiais que não têm direitos por si mesmos". Quando ouvimos ou lemos palavras indígenas notamos que o que seria visto como pedra-objeto, rio-objeto, árvore-objeto, na verdade está imbuído de espiritualidade, e assim compreendemos o porquê de os povos indígenas não cederem ao impulso capitalista da exploração, porque se sentem parte da natureza, porque não perderam a conexão com a terra.

Por quanto tempo ainda pode o mundo existir?

2 - Montagem Julie Dorrico - Montagem Julie Dorrico
Capa do livro "Antes o mundo não existia"
Imagem: Montagem Julie Dorrico

Outra dica de obra para ler nesta Semana - e ao longo do ano - é a obra "Antes o mundo não existia" (Editora Dantes, 2019). A obra, marco da autoria indígena no Brasil, foi publicada pela primeira vez, em 1980, pela Livraria Cultura Editorial, de São Paulo. Os autores são do povo Desana Kehípõrã, Umusï Pãrõkumu, ou Firmiano Arantes Lana e seu filho Tõrãmü Këhíri, ou Luiz Gomes Lana.

Nesta obra, a origem do mundo se dá pela "Avó do Mundo", também conhecida como a "Avó da Terra", a Yebá Buró. Segundo os autores, foi a matriarca quem pensou sobre o futuro do mundo, os futuros dos seres, em como deveria ser o mundo.

O mundo criado pela Avó ensina os indígenas Dessana a coexistirem com a floresta. Factualmente essa coexistência tem sido levada a sério. Os Dessana localizam-se no estado do Amazonas. Os dados apresentados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) mostram que os territórios indígenas "resfriam a superfície e influenciam as circulações atmosférica e oceânica globais, ajudando a baixar a temperatura do planeta. [...] Na Amazônia brasileira, as comunidades indígenas protegem e manejam áreas que armazenam 27% dos estoques de carbono da região, o que representa aproximadamente 13 bilhões de toneladas. Esta quantidade não considera o carbono armazenado no solo, que possui, em média, um estoque entre 40 e 60 toneladas por hectare. Esta retenção do carbono pelas florestas ajuda a conter o acúmulo de CO2 na atmosfera, com efeitos positivos na redução do aquecimento global".

Atualmente as reservas indígenas brasileiras ocupam 12,5% do território nacional, sendo que na Amazônia, 98% do território onde estão localizadas as comunidades indígenas, o território está preservado; fora deles, os povos resguardam a pouca vegetação nativa que conseguem. Para ler mais sobre, acesse a reportagem STF começa a julgar futuro da demarcação de Terras Indígenas nesta semana. Por quanto tempo o mundo ainda pode continuar existindo? A resposta um tanto óbvia é do quanto levarmos a sério a mensagem do xamã yanomami, do intelectual Ailton Krenak, e dos autores Umusï Pãrõkumu e Tõrãmü Këhíri sobre o quanto os indígenas têm lutado para que esse mundo ainda possa continuar existindo.

A autoria indígena por ser oriunda da subjetividade indígena sempre apresentará a relação humana com a floresta numa perspectiva orgânica, pondo em xeque o antropoceno e a modernidade com seus regimes de exploração econômica. Nesse sentido, ler autoria indígena significa aproximar-se de mensagens que enunciam sobre o bem-viver, da Terra espiritualizada, de uma humanidade que é antes de tudo natureza.

Alguém pode indagar que o respeito à Terra pode ser puro misticismo, ou retrocesso, um retorno ao obscurantismo epistêmico. Alguém ou muitos poderiam dizer isso, porém, afirmo que se sentir parte da natureza significa ir mais além, ampliar, abrir-se ao que a ciência ocidental moderna foi incapaz de abraçar, tais como "as emoções, a intimidade, o sentido comum, os conhecimentos ancestrais e a corporeidade". A fala de Santiago Castro-Gómez, teórico decolonial, reforça que não se trata da disjunção, senão da conjunção epistêmica, da boa relação com outras formas de produção de conhecimento, na esperança de que a ciência e a educação ocidental deixem de ser aliadas do capitalismo predatório. Ouvir os povos originários, garantir seus direitos políticos, abraçar suas ciências ancestrais pode ser uma metodologia potente na proteção da (nossa) floresta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL