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Julie Dorrico

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Envolvimento: por que precisamos de Universidades Indígenas no Brasil?

Acervo Paiter Suruí 2 - Acervo Paiter Suruí
Acervo Paiter Suruí 2 Imagem: Acervo Paiter Suruí
Julie Dorrico

Julie Dorrico é doutora em teoria da literatura na PUC-RS. Autora da obra "Eu sou macuxi e outras histórias" (Caos e Letras, 2019) que venceu o 1º Lugar no Concurso Tamoios de Novos Escritores Indígenas, promovido pelo Instituto UK'A e Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ, 2019). Descendente do povo macuxi (Roraima). Organizadora da Coleção Memórias Ancestrais, obras de autoria indígena, pela Editora Tekoha (2021). Este é um espaço-terreno para reflorestar simbolicamente a educação brasileira. Buscando fortalecer o uso da lei 11.645/2008 que tornou obrigatório o ensino das culturas e histórias afro e indígenas em todo currículo escolar, esta coluna busca compartilhar iniciativas, projetos e temas indígenas que possam fortalecer a educação étnico-racial no país.

16/06/2021 06h00

O intelectual Ailton Krenak defende o conceito de "envolvimento" como regime substitutivo ao conceito colonial de "desenvolvimento". A morfologia ensejada pelo termo é o menor dos problemas, mesmo assim, é possível sentir no termo o sentido que ele carrega, o prefixo "des" alude ao descomprometimento com o "envolvimento"; porém, os fatos históricos ilustram o desastre que tem sido os projetos de "progresso e desenvolvimento" sem considerar outros regimes econômicos possíveis para o país. A degradação da floresta, ainda em curso, e de modo agravado no atual governo mostram que caminhamos para um colapso climático. Mesmo diante do tensionamento dos povos da floresta para a proteção e preservação da natureza, uma outra prática ainda não foi adotada. Vocês podem conferir aqui os índices de desmatamento na Amazônia em 2021: Desmatamento na Amazônia chega a 196 km² em janeiro de 2021, aponta Imazon - Imazon.

Reencantando o mundo: outras formas ancestrais de pensar a terra

Os povos originários nunca romperam seu relacionamento com a terra. Vivendo numa relação vertical, autoritária, colonizadora e afins até o advento da Constituição Federal (1988), finalmente podem sentir um átimo de autonomia nesses 33 anos. Tais povos mostram que não obstante as flechas envenenadas na área da política, da cultura, da economia, etc., resistem defendendo seus modos de vida tradicionais, suas crenças, suas memórias e histórias.

É pelo direito de ter uma educação encantada com os ensinamentos da cultura e dos modos de vida; bem como específica e diferenciada como rege o artigo 210 da Carta Magna (1988) é que o povo Paiter/Suruí, sob liderança de Almir Suruí, encaminha o projeto de sua Universidade Indígena, a Universidade Paiter A Soeitxawe (UNIPAITER). Informações sobre o projeto e os planejamentos podem ser acessados na plataforma Wikiversidade: UNIPAITER - Wikiversidade (wikiversity.org). A parceria com a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) foi firmada no ano de 2012, possibilitando a estruturação e o apoio ao nascimento da Universidade.

Conforme informa o vídeo de apresentação, Primeira Universidade Indígena do Brasil, a universidade tem como objetivos, promover o ensino superior e demais ensinos em todas as suas modalidades, inclusive na área profissional e tecnológica, estimulando a pesquisa tradicional; a pesquisa científica e a extensão de servido à comunidade, sempre em conjunto com o fortalecimento da língua tupi monde Suruí erudita. No momento, apesar da estrutura já alicerçada, aguarda a efetivação que está temporariamente pausada em consequência da pandemia da covid-19 que também atingiu a comunidade.

O povo Paiter se autodenomina assim em sua língua materna. Significa "O povo verdadeiro, nós mesmos". O nome Suruí foi dado pelos antropólogos para serem identificados pela sociedade dominante. Por isso, usam Paiter Suruí, para afirmar primeiro sua identificação, enquanto ainda são reconhecidos pelo nome dado pelos não indígenas. Habitam a Terra Indígena Sete de Setembro, localizada na região fronteiriça, ao norte do município de Cacoal, estado de Rondônia, até o município de Aripuanã, Mato Grosso, norte do Brasil. O contato com a sociedade dominante aconteceu em 1969, e desde então, o povo se protege das doenças trazidas pelo branco, cuida de seus territórios, e de sua identidade coletiva. A subsistência econômica num projeto de envolvimento com a terra já é uma realidade para o povo que firmou parceria com a empresa 3 Corações e fundaram o "Projeto Tribos". Explico sobre o uso do termo "Tribo" e o peso da enunciação feita pelo indígena aqui: A teoria e a literatura indígena na educação: outras formas de nomear. É possível conhecer mais da cafeicultura Suruí aqui: Projeto Tribos | Café 3 Corações.

Rubens Naraikoe Surui, coordenador da Associação Metareilá, formado em Direito, presidente e chefe da associação, reiterou o compromisso paiter com o território nos projetos econômicos, bem como com a educação do povo, uma que priorize as palavras dos anciões, "onde o mais velho repassa o conhecimento para os mais novos", em cursos que o "homem branco pode participar como aluno e aprender o conhecimento Paiter".

Dessa forma podemos notar que Universidades indígenas no Brasil, de iniciativas dos povos originários, trazem alternativas de projetos econômicos preocupados com a proteção da floresta, ao mesmo tempo que reafirmam os valores das culturas indígenas, tão importante para um projeto de nação que deveria ser responsável por democratizar o ensino e a cultura, por diminuir as desigualdades sociais, pelo clima, e pela terra, tão desencantada. As vozes da floresta reencantam não só a terra, mas a educação, essa área tão devastada.

1 - Acervo Paiter Suruí - Acervo Paiter Suruí
Acervo Paiter Surui
Imagem: Acervo Paiter Suruí

Plantando sementes

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Projeto Tribos com 3 Corações: Sobre o projeto | Projeto Tribos

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