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Fred Di Giacomo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Vou morrer e não vou ver país diferente", a diáspora noir de Paulo Scott

O escritor Paulo Scott com sua mãe e o irmão André na praia de Torres (RS). - Acervo Pessoal
O escritor Paulo Scott com sua mãe e o irmão André na praia de Torres (RS).
Imagem: Acervo Pessoal
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

16/03/2021 04h00

No final dos anos 90, Amarelo, o sujeito grande e corpulento ao volante, dirige o carro a caminho do casamento do irmão Marrom, de quem era padrinho. A esposa reclama que Amarelo deixara para arrumar tudo em cima da hora, como sempre. Ela pergunta quando o sujeito, 1,82 metro, vai crescer.

Amarelo dirige, não responde. Tinha, então, 31, 32 anos, não se lembra ao certo. Advogado, seria em três anos sócio de um dos maiores escritórios de advocacia do Rio Grande do Sul, dava aula na PUC-RS, rabiscava versos; já fora skatista. A figura complexa parecia, aos olhares amigos, forte; sólida como uma rocha.

Sólido como uma rocha, mas Amarelo sente o mal-estar súbito. Estaria morrendo? A sensação de proximidade da morte não era um AVC ou um ataque cardíaco.

Ali, no meio da estrada, com as mãos ao volante, o advogado e futuro escritor premiado Paulo Scott teve sua primeira crise de pânico. "Foi um negócio que me marcou profundamente".

Heróis Vilões

"Já fui mulato /Eu sou uma legião de ex-mulatos. Quero ser negro 100% (...) tudo menos o santo", Caetano Veloso, "O Herói".

Paulo - Renato Parada/Divulgação - Renato Parada/Divulgação
O escritor Paulo Scott, autor de "Marrom e Amarelo" e "Meu Mundo Versus Marta"
Imagem: Renato Parada/Divulgação

"Marrom e Amarelo" (Alfaguara, 2019) é dos melhores romances escritos por essas plagas no século XXI. Cheio de nuances e avesso a maniqueísmos, marcas registradas da prosa de Scott, o livro parte da história de dois gaúchos filhos de um pai negro e uma mãe branca: Federico (Amarelo) e Lourenço (Marrom). Acabou tornando-se um marco ficcional sobre colorismo, "democracia racial" e as pequenas desigualdades raciais tão únicas do Brasil, mas que tornam-se mais comuns em um mundo globalizado e miscigenado. É uma leitura recomendada a todos simplistas de ambos aspectos ideológicos que procuram soluções (e narrativas) simples para um país tremendamente complexo.

Segundo Paulo Lins, autor de "Cidade de Deus" (Companhia das Letras, 1997), o romance de Scott "discute o racismo de forma contundente, nunca vista na literatura brasileira".

Itamar Vieira Junior, que lançou o onipresente "Torto Arado" (Todavia) no mesmo 2019 de "Marrom e Amarelo", disse-me que leu o livro de Scott assim que ele saiu e que: "Gostei mesmo. Sempre indico quando participo de clubes de leitores e me pedem indicações".

Existe uma qualidade narrativa marcante nos livros de Scott, que é sua capacidade de construção de personagens complexos, como a vida real, e com motivações fortes. Todo mundo está em busca de algo "justificável" em "Marrom e Amarelo" — até os "vilões".

É comum nos livros de Scott, especialmente neste último romance, mas também em "Habitante Irreal" (Alfaguara, 2011) e em "O ano em que vivi de literatura" (Foz, 2015) que o leitor inicie suas páginas julgando tratar-se de uma autoficção, em que o protagonista é uma versão literária de Paulo, alguém com quem você simpatiza e por quem torce. Até ser decepcionado uma sequência de vezes por comportamentos mesquinhos e equivocados, mas humanos, demasiadamente humanos.

Como acontece com o advogado, ex-militante estudantil e ex-petista Paulo quando encontra uma jovem indígena agachada no meio da estrada, em "Habitante Irreal". A menina tem apenas 14 anos, e você torce para que Paulo cuide da jovem guarani, mas ele acaba envolvendo-se amorosamente com ela e a engravida -- com tudo de errado que você pode estar pensando ao ler essa frase. Paulo é homônimo do autor, que também é advogado, ex-presidente de DCE e ex-filiado ao Partido dos Trabalhadores.

Há muitas similaridades nos protagonistas de Scott com o autor. Federico, protagonista de "Marrom e Amarelo", tem em comum com Paulo Scott ser o filho mais claro de um delegado negro, criado no bairro do Partenon, em Porto Alegre. "Marrom e Amarelo era como meu pai chamava eu e meu irmão", diz o autor, que em determinado momento da entrevista chama Federico de Paulo.

Livros do mal

HQ - Reprodução - Reprodução
Capa da HQ "Meu mundo versus Marta" de Paulo Scott e Rafael Sica
Imagem: Reprodução

Scott começou "tarde" e não parou mais. Está lançando a HQ "Meu mundo versus Marta (Quadrinhos na Cia, 2021)", feita a quatro mãos com o quadrinista Rafael Sica.

Prepara, também, um romance policial, provisoriamente chamado de "Rondonópolis". "É um livro sobre o egoísmo. "Marrom e Amarelo" foi sobre a raiva. O "Habitante Irreal?" é sobre o niilismo, sobre o desencanto. O niilismo como uma forma de aplacar o peso da existência."

Aos 54 anos, diz não ter grandes ilusões com prêmios, resenhas ou com o meio literário nacional, que satirizou em sua obra mais crua "O ano em que vivi de literatura", que não foi tão incensada pela crítica quanto seus demais contos e romances.

"Eu pego meus caminhos e sigo neles, com muita convicção. Eu faço as coisas por diversão e não quero perder isso, sabe? Não quero entrar nesse jogo, que é um erro, de querer deixar uma obra, de querer que minha obra seja aplaudida.", diz Scott resignado.

Criado perto de uma favela, bisneto de mulheres negras escravizadas (tanto de parte materna, quanto paterna), Paulo trabalhou anos como advogado até lançar seu primeiro livro, de poemas, aos 35 anos e usando um pseudônimo (Elrodris) para que os poemas "estranhos" não queimassem o filme profissional.

O primeiro reconhecimento veio aos 37 anos com os contos de "Ainda orangotangos" (2003) publicados pela editora independente mais hypada da época, a "Livros do Mal", que também revelou Daniel Galera e Joca Reiners Terron. No entanto, Scott parecia um tanto deslocado entre os companheiros mais novos: "Até hoje eu não consigo viver como alguém de classe média alta acadêmica. Até hoje eu tenho esse olhar [de quem viveu em um bairro de periferia]".

Eram os anos de transição entre o governo FHC e Lula, pré-cotas raciais, momento em que os Racionais Mc's lançariam um de seus grandes clássicos "Nego Drama". Mas Scott, autodeclarado "um homem negro pardo claro", não se embrenhava nas dúvida do que o escritor Alexandre Ribeiro chama da "cor do talvez":

"Algumas pessoas do Movimento Negro, vendo meu fenótipo, dizem 'Ah, o Scott é branco'. Mas eu não sou branco. Eu venho de uma família negra. Meu pai é um homem negro, meu irmão é um negro retinto. Podem me torturar, mas eu nunca vacilei sobre isso."

"Too black, too strong"

Infância - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
O escritor Paulo Scott no Jardim da Infância
Imagem: Acervo Pessoal

"Eu tenho uma profunda admiração pela minha mãe". A mãe de Paulo Scott, que está na primeira foto desta reportagem, foi quem introduziu o filho à arte. Ela gostava de desenhar, mas teve que abrir mão de qualquer pretensão artística para criar os dois filhos e dar suporte para o marido estudar e se formar em direito.

"A primeira coisa que me deixou louco foi ouvir o Jorge Ben, aos 4 anos, na rádio. E depois lembro do meu pai falando do Caetano. A primeira pessoa por quem me apaixonei e quis ser foi o [escritor e filósofo francês Jean Paul] Sartre".

Apaixonado por Caetano ("é perturbador alguém tão talentoso"), que diz considerar poeta ao contrário do que polemizava Bruno Tolentino, Scott, que também ataca de DJ e tem um podcast literário chamado "De modo geral", lembra:

"A banda que mudou minha vida pra sempre chama-se Public Enemy." E cantarola o sampler de Malcom-X em "Bring The Noise", um dos clássicos da banda de Chuck D: "Too black, too strong" (algo como "tão preto, tão forte", em português). "Essa música mudou minha vida. Eu pensei: 'nada é mais importante pra mim?'".

Ao contrário de sua "poesia maluca", a conversa com Paulo Scott é tranquila, pontuada por alguns silêncios, as frases pensadas ditas com serenidade. À certa altura o autor de "A timidez do monstro" (Companhia das Letras, 2005), seu favorito entre os próprios livros, pausa a entrevista, veste uma máscara e vai levar o lixo para fora.

A única exaltação se dá quando Paulo, que elogia na conversa os autores Cidinha Silva e Jeferson Tenório, relembra da emoção sentida ao ouvir "Noites do Norte", música de Caetano Veloso composta sobre o texto do abolicionista Joaquim Nabuco. Ela começa com a frase: "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil."

"Não adianta, a vida passou, eu tentei a arte, estou na arte, mas o Brasil é um país violento, cara. É um país escravocrata, escravagista e é essa lógica, como está nessa música, que nos conduz. E nos aprisiona pra sempre. Eu vou morrer e não vou ver um outro país diferente."

Nesse momento a dura realidade dos guaranis retratada de forma pioneira em "Habitante Irreal" e a violência do racismo cordial perfeitamente pintada em "Marrom e Amarelo" cruzam-se com quem Scott, poeta e prosador, é. Ele que sempre reafirma que não é um autor engajado, que diz só interessar-se em contar boas histórias, não consegue livrar-se do olhar que carrega desde os 6 anos, quando descobriu-se negro na escola.

"Eu via nesse lugar onde me criei... Eu via como a polícia chegava, via como os negros eram tratados, via que os negros eram parados e eu, como era mais claro, não era. As duas vezes em que fui parado eu estava com meu irmão." Scott se refere a André, o que o pai chamava de Marrom, o que Scott foi padrinho quando teve seu primeiro ataque de pânico. "Eu tenho uma noção [da realidade], que meus amigos do Bonfim, da USP, e da UFRGS não entendem. Eles não têm culpa, mas não entendem".