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Clientes Ford reclamam de falta de peças; autorizadas dizem que há estoque

Concessionárias afirmam que a maioria das peças estão em estoque, outras, chegam em até 20 dias úteis -  NE10
Concessionárias afirmam que a maioria das peças estão em estoque, outras, chegam em até 20 dias úteis Imagem: NE10

Paula Gama

Colaboração para o UOL

12/01/2022 04h00

Um ano atrás, quando a Ford anunciou que deixaria de produzir veículos no Brasil, o principal temor dos proprietários de veículos da marca - além da desvalorização - era a falta de peças de reposição para seus automóveis. Na avaliação de alguns clientes da oval azul, a preocupação se concretizou, mas as concessionárias afirmam que tudo segue dentro dos limites da normalidade.

No último mês, foram registradas no "Reclame Aqui" - site criado para consumidores relatarem seus problemas com empresas variadas - mais de 30 reclamações sobre faltas de peças da Ford.

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Nos relatos, clientes protestavam por ter que esperar entre 20 dias e 6 meses por vários tipos de peças como retrovisores, airbag do motorista e tela da central multimídia do Ka, mangueira do intercooler da Ranger e módulo TCM para o câmbio Powershift, que equipa modelos como Fiesta, Focus e Ecosport. A maior parte das reclamações são sobre esse último item.

Victor Melo, proprietário de um Focus 2015, relata que tem sofrido com a falta de peças para resolver problemas no seu câmbio Powershift. "Mandaram um orçamento falando que tenho que trocar os atuadores para ter direito à garantia estendida. A consultora disse que provavelmente vão trocar embreagem e módulo TCM, porém o módulo está em falta. Pediram, mas não têm a data de chegada do mesmo."

Dono de outro Focus, Fábio Ruiz encontra-se na mesma situação desde o dia 6 de dezembro. "Levei meu carro para verificar os problemas no câmbio. Me passaram outras peças para comprar e fizeram a correção de alguns erros alegando que, só após isso, a Ford autoriza a troca do TCM. Após quase um mês as peças não têm previsão para chegar", lamenta Vital Santos.

Relatos como esse se multiplicam em um grupo de clientes da Ford no Telegram, a maior queixa é, de fato, sobre a falta do módulo TCM para o câmbio Powershift. Com os depoimentos em mãos, UOL Carros procurou a Abradif, associação de concessionários da marca que no ano passado relatou problemas com falta de peças, mas fomos informados de que só o presidente poderia falar sobre o assunto, e ele está viajando sem acesso ao celular.

Questionada, a montadora deu a seguinte resposta: "A Ford vem trabalhando para atender os clientes no menor prazo possível e eventuais ocorrências de atraso de peças são pontuais. Para alguns componentes existe ainda a questão da escassez global de semicondutores, que continua afetando as montadoras e outras indústrias em todo o mundo".

Procuramos também diversas concessionárias da Ford, para entender se realmente há um problema de abastecimento de peças para reposição, levando em consideração que as fábricas trabalharam por meses especificamente para abastecer esse mercado.

Entre as mais de 20 concessionárias procuradas - entre lojas que cujo setor de peças nem atendiam o telefone e outras que preferiam não falar sobre o assunto - apenas seis quiseram prestar depoimento. Todas elas afirmaram que o abastecimento de peças segue bem, "dentro do possível".

Lojas dos grupos Ford Caoa, Ford Center, Ford Indiana e Ford Navesa afirmaram que a maior parte das peças estão em estoque nas concessionárias e que, quando faltam nas oficinas, a montadora envia dentro do prazo, que pode variar entre 4 e 20 dias úteis, de acordo com o que cada loja relatou.

A exceção, no entanto, é para o módulo TCM do Powershift, que está em falta em todo país, segundo eles, devido à extensão da garantia da marca, que aumentou o número de substituições. Para receber esta peça o prazo, que é indeterminado, pode aumentar.

O módulo TCM do câmbio Powershift está em falta em todo Brasil, alegam concessionárias  - Murilo Góes/UOL - Murilo Góes/UOL
O módulo TCM do câmbio Powershift está em falta em todo Brasil, alegam concessionárias
Imagem: Murilo Góes/UOL

Já o gerente de vendas da Ford Sonnervig Norte, em São Paulo, João Marcos Florence, afirma que no último ano, devido ao desabastecimento de peças em todo mundo, houve itens mais críticos, ligados à eletrônica, como módulos e sensores, mas isso já se estabilizou.

"Temos um estoque bem consolidado, feito com uma programação de três a quatro meses. Quem sabe trabalhar o estoque com inteligência, como recomendado pela própria montadora, não tem problema de peças. As peças que faltam aqui chegam em 15 a 20 dias, o único problema que, de fato, estamos enfrentando é com a logística, que está horrível. Às vezes a Ford manda a peça, mas a transportadora não entrega certo, manda para outra concessionária, entre outros erros que atrasam o processo", relata Florence.

Wiliam Ribeiro, responsável pela área de peças da Fancar Guarapuava, no interior do Paraná, explica que as peças importadas são as que mais demoram para chegar, entre 20 e 25 dias úteis. "A Ford nos dá muitas chances para comprar peças. Quando eles não têm em estoque, informam qual autorizada possui, para que possamos entrar em contato. Tudo mastigado. Agora o módulo TCM realmente está em falta em todo Brasil, não tem jeito."

O que diz a lei?

O Código de Defesa do Consumidor brasileiro é muito evasivo a respeito da obrigatoriedade das montadoras em continuar oferecendo peças para carros que saíram de linha, ele afirma que "depois que o carro deixa de ser fabricado ou importado, suas peças de reposição devem ser mantidas durante um prazo razoável". Mas o que vem a ser um prazo "razoável"? Especialistas afirmam que de 8 a 10 anos, mas essa estimativa não tem respaldo legal.

No entanto, no ano passado, apenas 20 dias após o anúncio de fechamento das fábricas - período em que a produção de peças foi paralisada momentaneamente - a Abradif, associação de concessionários da marca, emitiu uma circular para suas associadas alegando que estava sendo notificada falta de peças e acessórios, principalmente para os modelos Ka, Ka Sedan e Ecosport. Na época, o Procon-SP se manifestou.

O órgão de defesa do consumidor notificou a empresa no dia 13 de janeiro para explicar "como será feito o atendimento aos proprietários cujos veículos estão dentro do prazo de garantia; por quanto tempo e, de que forma, serão disponibilizadas as peças de reposição para os veículos que estão fora da garantia; e se o encerramento das atividades das fábricas causará impacto no prazo de entrega dos veículos novos comprados recentemente".

Sobre a resposta da notificação, na época, o diretor-executivo do Procon-SP, Fernando Capez, afirmou que "a Ford, por meio dos seus representantes em reunião, assegurou ao Procon que não faltarão peças durante toda a vida útil de veículos que vierem a serem adquiridos por consumidores."

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