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Golpe do reconhecimento facial faz vítima financiar carro para terceiros

Imagem de circuito de segurança flagra publicitário mostrando rosto ao celular de motoboy para liberar entrega de suposto brinde - Reprodução
Imagem de circuito de segurança flagra publicitário mostrando rosto ao celular de motoboy para liberar entrega de suposto brinde Imagem: Reprodução

Ed Rodrigues

Colaboração para UOL Carros, no Recife (PE)

04/06/2021 04h00

O reconhecimento facial, ferramenta criada para dar mais segurança a dispositivos e operações, tem sido usado na aplicação de um novo golpe.

O publicitário Piero Rossi, morador da capital paulista, alega à reportagem de UOL Carros ter descoberto o financiamento de um carro em seu nome, contratado à sua revelia. A má noticia veio, afirma Rossi, logo após ele mostrar o rosto para o celular de um motoboy, para confirmar a respectiva identidade e, assim, receber um brinde na sua residência.

O golpe, explica, deixa as parcelas do automóvel para a vítima pagar, mesmo sem ela receber o veículo - que ficaria em poder dos golpistas. O publicitário denunciou o caso à Polícia Civil de São Paulo, que deu início a investigação por suspeita de estelionato.

Rossi também levou o caso ao Itaú, que teria liberado o financiamento. O banco informa que abriu procedimento interno para apurar os fatos.

Piero conta que soube por meio do banco que uma picape Volkswagen Amarok V6 2018/2019, no valor aproximado de R$ 200 mil, está financiada com seu CPF. Ele nega ter feito a transação e diz que desconhece o paradeiro do carro.

"Como sou publicitário, vira e mexe ganho presentes por entrega que exige reconhecimento facial. Por isso, não desconfiei naquele momento. Primeiro entraram em contato comigo por WhatsApp e confirmaram meus dados. Depois, veio a entrega", afirma.

'Presente de grego'

Volkswagen Amarok V6 semelhante à que publicitário diz ter sido financiada em seu nome e à sua revelia - Marcos Camargo/UOL - Marcos Camargo/UOL
Volkswagen Amarok V6 semelhante à que publicitário diz ter sido financiada em seu nome e à sua revelia
Imagem: Marcos Camargo/UOL

O "presente de grego", um kit de perfumaria, foi entregue na residência de Rossi por um motoboy, o qual teria informado que teria de confirmar o recebimento. Para tal, realizou suposto procedimento de leitura da face do publicitário.

"Ele disse que era de uma loja de flores. Quando foi embora, comecei a ficar desconfiado e telefonei para o estabelecimento. Foi aí que fiquei mais preocupado, porque disseram que não haviam enviado nenhum produto para mim", disse.

Algum tempo depois, o publicitário recebeu uma ligação do banco, confirmando o financiamento do veículo em seu nome.

Com a confirmação facial e possivelmente de posse de documentos falsos, um suspeito retirou o veículo na loja e sumiu, diz.

"Isso ocorreu em maio. Fui à delegacia e acionei o banco. Já tem mais de duas semanas e não tive retorno", continua.

Segundo o advogado João Victor Abreu, que representa a vítima, a investigação do suposto golpe ficou sob a responsabilidade do 6º Distrito Policial (Cambuci).

"Não sabemos quem está com o carro. Não sabemos onde está o carro. E nem sabemos qual foi a loja que liberou o carro. Todas as informações que temos foram passadas ao banco", explica Abreu.

Outra vítima

Em uma rede social, Piero Rossi postou um desabafo e teve o apoio de vários internautas, que também demonstraram revolta com a situação.

Dentre eles, uma analista de importação alega ter sido lesada da mesma forma, novamente com financiamento autorizado pelo Itaú.

"Sofri exatamente o mesmo golpe. É revoltante como esse tipo de coisa acontece", comentou na publicação de Rossi.

"Ainda no mesmo dia liguei no Itaú para deixar um alerta que estavam tentando um golpe em meu nome, e mesmo assim conseguiram seguir com o financiamento", prosseguiu a internauta.

O que diz o banco

UOL Carros procurou o Itaú Unibanco em busca de um posicionamento sobre a denúncia.

Em nota, a instituição financeira informa que já está em contato com o cliente e que prestará todo o apoio necessário para a resolução do caso.

O Itaú ressaltou que, no caso de financiamento de veículos, as concessionárias e as revendas "seguem padrões rigorosos de acesso à plataforma tecnológica do produto mediante credenciais legítimas".

Isso inclui, de acordo com a empresa, checagem da identidade do cliente por biometria facial em todos os contratos.

O Itaú salienta que realizará "apuração e investigação rigorosas junto à loja que formalizou esse contrato".

O banco ressalta, ainda, que "frequentemente realiza ações de comunicação para alertar os clientes sobre novos golpes e nunca envia representantes para confirmação de dados, entrega ou retirada de objetos pessoais".

Já Secretaria da Segurança Pública de São Paulo diz que " o caso foi registrado pelo 89º DP (Jardim Taboão) como estelionato e enviado para ao 6º DP (Cambuci), responsável pela área dos fatos e que a "vítima foi orientada sobre o prazo para representação criminal".

Como evitar golpes

Reconhecimento biometria facial - Pixabay - Pixabay
Imagem: Pixabay

Especialista em privacidade e proteção de dados, a advogada Rebeca Diniz Mello alerta que o reconhecimento facial é uma ferramenta que está sendo desvirtuada, com utilização banalizada em vários segmentos comerciais, a exemplo de farmácias e academias.

"Deveria ser restrito a operações de segurança, mas hoje está sendo usado simplesmente como assinatura de validação de brindes, para acesso a edifícios empresariais e à portaria de academias", diz.

"É justamente essa desvirtuação que acaba ocasionando danos às pessoas", explica Mello.

Ela dá dicas para que as pessoas não caiam em golpes semelhantes.

"A mais importante é não disponibilizar sua biometria facial a ninguém. É um dado extremamente sensível e que abre todo tipo de porta para todo tipo de golpe. O simples fato de receber o brinde não justifica validar sua identidade por meio um registro fotográfico", alerta.

"Se tiver de fazer a biometria, é importante ter a certeza de que se trata de empresa idônea e isso tem que ser feito dentro da própria empresa", continua.

Rebeca acrescenta que o usuário pode exigir do banco ou de outras instituições que a biometria facial seja substituída por protocolo diferente.

"Até as farmácias estão usando biometrias digitais para alguns consentimentos. E só oferecem outro tipo de validação se o cliente questionar. Aí, enviam um token para seu celular ou imprimem um documento onde você coloca a boa e velha assinatura", finaliza.