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Ford planejava substitutos nacionais do Ka 3 meses antes de fechar fábricas

Em outubro de 2020, executivos da Ford do Brasil disseram a concessionários que ainda negociavam com matriz nos EUA a produção em Camaçari (BA) da 3ª geração do EcoSport - Divulgação
Em outubro de 2020, executivos da Ford do Brasil disseram a concessionários que ainda negociavam com matriz nos EUA a produção em Camaçari (BA) da 3ª geração do EcoSport
Imagem: Divulgação

Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/01/2021 04h00

Três meses antes de anunciar na semana passada o fechamento das suas fábricas no Brasil para focar apenas modelos importados, o comando da Ford já tinha definido a aposentadoria de Ka e Ka Sedan, que sairiam de linha até o fim de 2022.

Nesta época, executivos da filial brasileira ainda planejavam produzir em Camaçari (BA) pelo menos dois SUVS inéditos, paralelamente à aposentadoria dos compactos. Dentre eles, a nova geração do EcoSport.

Essas informações foram comunicadas pela montadora a concessionários durante reunião em outubro do ano passado, em São Paulo - conforme um distribuidor presente ao encontro revelou a UOL Carros.

Procurada pela reportagem, a marca informa que "não irá se manifestar".

Sob condição de anonimato, o revendedor, cuja família comercializa veículos da marca há mais de 50 anos, afirma que a conversa foi solicitada pela Abradif (Associação Brasileira dos Distribuidores Ford) para cobrar investimentos na fábrica baiana para viabilizar novo ciclo de produtos feitos no País.

Segundo nossa fonte, na ocasião dirigentes disseram que ainda negociavam com a matriz, nos Estados Unidos, a liberação de recursos para renovar a gama nacional - sinalizando que a decisão de encerrar a manufatura brasileira pode ter surpreendido também a filial.

"Informaram que a linha Ka teria vida curta e continuaria à venda durante o período de 18 meses a dois anos. Ao mesmo tempo, previam anunciar até abril de 2021 os novos investimentos em Camaçari", conta o empresário.

Na segunda-feira (11), os planos foram oficialmente sepultados.

"[Na reunião, ouvimos que o aporte na Bahia] ainda não estava confirmado. Por outro lado, confirmaram a produção da nova Ranger na Argentina e a montagem da Transit no Uruguai. Natan Vieira, vice-presidente de marketing, vendas e serviços, disse acreditar em novo ciclo de produtos brasileiros, embora não pudesse garanti-lo. A linha mudaria de patamar, com um EcoSport maior e pelo menos outro utilitário esportivo".

Também em outubro do ano passado, pelo menos um protótipo do novo Eco foi flagrado rodando em testes no Brasil. O modelo, originalmente concebido e projetado pela Ford em solo brasileiro, segue em desenvolvimento na Índia.

Rede reduzida pela metade

Durante a entrevista, o dono de concessionária afirma, ainda, que, após a Ford desistir de fabricar veículos aqui, informou aos distribuidores os planos de reduzir a rede de 283 para cerca de 120 pontos de venda e pós-venda ativos.

Além disso, ele diz que o estoque atual de Ka, Ka Sedan na rede será esgotado dentro de 30 a 40 dias, quando o trio finalmente será aposentado em nosso mercado.

O empresário conta que a prioridade para os cerca de 160 revendedores autorizados que estão prestes a ser desligados é acelerar as tratativas com a montadora para o pagamento das respectivas indenizações.

O revendedor acrescenta que a Abradif está contratando advogados para dar suporte jurídico durante o processo de negociação com a empresa.

Os valores, pontua, vão variar de acordo com o faturamento de cada concessionária.

Vender Ford era negócio 'sustentável'

Ford Ka Camaçari - Divulgação - Divulgação
Produção de Ka, Ka Sedan e EcoSport já foi encerrada na Bahia; estoques vão durar de 30 a 40 dias
Imagem: Divulgação

O empresário destaca que a Ford "já firmou o compromisso" de ressarcir os concessionários, da mesma forma que fez ao encerrar a produção de caminhões em São Bernardo do Campo (SP) em 2019.

Também diz esperar que a companhia "tenha decência" para reconhecer o trabalho dos seus distribuidores - alguns dos quais, segundo ele, têm lojas com a bandeira Ford "há quatro gerações".

Apesar do coronavírus e da falta de lucratividade alegada pela Ford enquanto fabricante de veículos no Brasil, o revendedor afirma que trabalhar com a montadora era um negócio "sustentável" - ao menos até a companhia anunciar o fechamento das suas três fábricas.

"A rede vinha operando com rentabilidade razoável, mesmo com a pandemia e os quase três meses de revendas com portas fechadas. As vendas eram muito alavancadas pelo agronegócio, por conta do posicionamento estratégico da Ranger, que seguirá em linha. Mesmo nos grandes centros urbanos, onde os distribuidores dependiam mais dos carros populares, a operação era sustentável".

Ele pontua que a Ford "passou a informação" de que pretende manter 120 concessionárias para prosseguir com o atendimento da garantia e os serviços de pós-venda.

No entanto, diz que um estudo encomendado pela Abradif aponta que o número ideal seria de "40 a 50" distribuidores - de forma a garantir que estes se mantenham rentáveis.

Citando o mesmo estudo, o revendedor destaca, ainda, que a expectativa é de que a Ford caia dos atuais 7,14% de participação de mercado para 1,4% de market share, "no máximo" - o que rebaixaria a marca ao mesmo volume de vendas de Mitsubishi e PSA.

Ele avalia que muitos lojistas irão migrar para outros fabricantes e os que ficarem terão de reforçar o negócio de carros usados, cujo preço tem subido - inclusive os produzidos pela Ford.

De acordo com o entrevistado, já existe movimentação rumo a outras marcas, como Volkswagen, Fiat, Jeep, Nissan e Caoa Chery.

Ele diz que, antes mesmo do fim da produção local, tem mantido contato com outras montadoras e remodelando algumas das suas lojas para viabilizar o atendimento a duas montadoras simultaneamente.

Acrescenta ter esperanças de que a Chery ou outra chinesa possa assumir as instalações de manufatura desativadas e também ao menos parte da rede de distribuidores.

'Carimbo na testa pela má gestão'

Lyle Watters e Rogélio Goldfarb, da Ford, ao lado da Ranger Storm - Divulgação - Divulgação
Lyle Watters (à esq.) e Rogélio Goldfarb, presidente e vice-presidente da operação brasileira da Ford
Imagem: Divulgação

O distribuidor até cogita manter a parceria com a Ford, mas destaca que desde "três ou quatro anos atrás" já não tem mais confiança na operação brasileira da empresa e no rumo que ela tem tomado.

Além disso, diz que a oval azul "chegou a esse ponto por total incompetência de gestão da sua diretoria", citando Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul, e Rogelio Golfarb, vice-presidente.

"A culpa é exclusivamente da diretoria. Não tiveram a capacidade ao longo dos anos de mudar a gestão da companhia, que se tornou pesada e lenta, com produtos obsoletos e sem estratégia. Após a venda da fábrica de São Bernardo, alugaram um prédio de 14 andares na capital paulista para abrigar a nova sede administrativa, com aluguel caríssimo, e agora só vão ocupar dois", critica.

Segundo o dono de concessionária, o relacionamento da Ford com a rede tem sido pontuado por "falta de respeito, dignidade e tratamento com as pessoas".

"Hoje os executivos da empresa têm um carimbo na testa pela má gestão. Eles foram os responsáveis pelo fechamento das fábricas no Brasil".