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Contemple o mundo lá fora e mova-se para dentro de si

Jamile Santana
Imagem: Jamile Santana
Jamile Santana

Escritora, poeta, cientista social, pesquisadora com estudos no âmbito do mobilidade, direito à cidade e segregação sócio espacial e racial. É cicloativista interseccional e coordenadora da ONG Movimenta La Frida.

Colunista do UOL*

24/11/2020 04h00

Um colapso interno entre a angústia e o medo tem tomado conta de muitos, principalmente dos corpos vulneráveis frente ao caos e instabilidades dessa pandemia. Alguns caminhos fechados pela crise econômica já têm afetados drasticamente a vida dos brasileiros, uma crise que em suma afeta as classes populares, que permanecem sendo explorada pelo capital (empresas, indústrias, lojas?), que corroboram massivamente para acumulação de bens a pequenos grupos formado por maioria branca, burguesa, capitalistas, racista.

Enquanto a base popular permanece se pondo em risco para receber um salário de fome, se reinventando diariamente, pensando preocupadamente no que irão comer amanhã.

Um leve sentimento de nostalgia nos toma e não é por acaso. Essa sensação de reviver tempos já vividos mesmo que tanta coisa tenha mudado, é em função dos retrocessos socioeconômico, que nos retomam tempos miseráveis, de fome, sede e até mobilidade precária.

Devemos nos entender como pessoas ativas na mobilidade a todo tempo, seja na caminhada, no uso pelo transporte público, nas bicicletas, motos, carros privados, ao inserir na mobilidade e no acesso à cidade a nossa visão crítica quanto ao pertencimento ao espaço se relativiza a partir da posição que ocupamos neste trânsito.

A perspectiva de quem caminha pela cidade cotidianamente se faz diferente da de quem pedala, de quem utiliza o transporte coletivo a quem utiliza o carros ,e por aí vai. Se pergunte "como eu vejo a cidade em meu modal de transporte? E quais narrativas se ressaltam e se ausentam na minha percepção?"

Essa mesma pergunta objetiva pode trazer reflexões subjetivas, e ao mesmo tempo comuns, a um coletivo que se impacta pelas mesmas elevações e carências. A exemplo da segurança, no amplo sentido, desde a sua dimensão estrutural ao comportamental atravessa a necessidade de todas pessoas ativas (simultaneamente passivas), seja o cadeirante que necessita de ruas mais estruturadas para se locomover sem risco, segurança na aplicação de melhor sinalização, na redução de velocidade dos carros, na priorização do pedestre e afins.

A contemplação de como nos movimentamos na cidade e como a cidade se movimenta ao nosso entorno é uma forma de gerar reflexões críticas que nos dá a oportunidade de enxergar as portas e buscar chaves. Ampliar nossa visão sobre esses aspectos torna-se um mecanismo imprescindível para abrir portas e prospectar novas possibilidades.

A arte se eleva como ferramenta dessa contemplação. Quando falamos da cidade como nosso universo, há arte em tudo: monumentos, construções, transporte, pinturas, grafite, pixo, música, as áreas verdes, intervenções diversas no espaço.

Em Salvador, antes da pandemia, no cotidianos, encontrávamos pessoas fazendo arte em todo local: semáforos, ruas, paredes, nas praças, na porta das suas casas.

Poetas traficam informações nos ônibus, declamam para o povo conhecimentos históricos não contados nas escolas, em conjunto com as suas experiências conferem epistemologias ancestrais na oralidade.

Agora já não vemos mais os poetas nos ônibus, estes que cumpriam a missão de informar o povo notícias não midiatizadas, que trocavam com o povo a palavra pela moeda do pão de cada dia. Eles se encontram limitados ao digital ou ao engavetamento de suas produções.

Inclusive, ressalto que na contramão do desamparo, o movimento de luta é contínuo, e na ressignificação das dificuldades, medidas de acolhimentos diante da pandemia seguem na busca pelo fortalecimento da arte, a exemplo do projeto P_O_E_S_I_A, que vem apoiando poetas em situação de vulnerabilidade no Brasil, concedendo bolsas que são garantidas a partir do financiamento coletivo do Benfeitoria.

Precisamos ver o outro como parte de nós, e mover-se para dentro de si é rebuscar no seu eu a humanidade alienada pela superficialidade que o capital tenta nos empurrar. E se nós reconhecermos humanos, não máquinas, nos permitiremos também humanizar o outro. Isso é Sankofa.

*Colaborou Denival Vidal