PUBLICIDADE
Topo

AfroCiclos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contra cultura hegemônica de urbanização que espelha suas realidades

Cleber Souza/UOL
Imagem: Cleber Souza/UOL
Jamile Santana

Escritora, poeta, cientista social, pesquisadora com estudos no âmbito do mobilidade, direito à cidade e segregação sócio espacial e racial. É cicloativista interseccional e coordenadora da ONG Movimenta La Frida.

Colunista do UOL*

16/02/2021 09h47

Toda vez que passamos pelo centro urbano da cidade nos deparamos com pontos de referências e formas de nos relacionarmos muito comuns. Mas, para nós, corpos e populações que estão à margem dos centros urbanos, muitas vezes nos sentimos diferentes ao acessá-lo.

E, se nos sentimos assim, é porque nossos territórios reverberam uma outra forma de estar e de configuração sócio-espacial, que advém da herança ancestral da população que majoritariamente esteve e está alí constituída e construindo o território. No entanto, lidando com as marcas dos reflexos da intervenção da cultura eurodescendente, que impõe historicamente a aderência das suas formas de estar e construir as cidades.

Por que a forma que se configura o centro urbano, com prédios, longas vias asfaltadas, praças cimentadas, lojas, comércios, estátuas, nomes de ruas e bairros homenageando seus heróis colonos escravocratas devem ser o modelo de civilização de todas os espaços, que vêm crescentemente sendo afetados pela imposição de projetos hegemônicos de desenvolvimento urbanístico?

A replicação desse modelo não se dá nem ao trabalho de refletir as culturas locais. Não se respeita nossos valores e símbolos culturais, é empurrado goela abaixo um modelo arquitetônico europeu de cidade.

As feiras que fazem a economia girar são substituídas por grandes mercados e shoppings, os espaços verdes se convertem em cinza do cimento, ruas de barro ou de paralelepípedo são substituídas por asfaltamento pesado totalmente poluente, colocado de qualquer modo, sem escoamento de água, valas ou bueiros, sem calçadas.

Inclusive a política institucional instrumentaliza o asfaltamento enquanto moeda política, como se asfaltar ruas fosse um grande feito de um governante. Não é. São, inclusive, obras de baixo orçamento. Sem contar que esse é o modelo de cidades espelhadas que está na ordem da cultura hegemônica, e diga-se, um espelho bem embaçado.

Nesse processo, nossos espaços de moradia, lazer e templos religiosos são atravessados pelo desejo insaciável da estrutura racista de dominação de cimentar todos espaços.

Desapropriação de populações inteiras de aldeias, quilombos, periferias urbanas e rurais para construir e instalar prédios, resorts, grandes hotéis, lojas comerciais, estádios de futebol e complexos de agronegócio que têm por objetivo manter e aumentar as riquezas de famílias eurodescendentes, donas de grandes empreiteiras, indústrias e empresas que, aliadas aos seus pares, ocupam a maioria das cadeiras no poder público que financiam, apoiam e criam brechas para favorecer o bem-estar de uns em detrimento de muitos outros. A população pobre do Brasil trabalha e paga para a população branca deste país viver bem.

Acrescentando que a cultura de segregação produz a autossegregação, a privatização dos espaços alienam nosso direito à cidade e constitucional de ir e vir. A delimitação dos espaços, a imposição comportamental, vestuário, a aceitação e permanência do indivíduo pela sua aparência fenotípica ou cor da pele são reproduzidos nitidamente em toda estrutura cultural dos espaços dos grandes centros.

A negação dos recursos em nossos territórios precarizam condições de vida para que nos mantenhamos vulneráveis a sermos eternamente massas de manobra/mãos de obra baratas, segregam recursos em um centro que é da produção de suas riquezas, e se autossegregam em condomínios, bairros de luxo, enclaves onde estão compactados todos os recursos roubados de uma grande população explorada. Saúde, segurança, escolas, minishoppings compactam suas necessidades imediatas de consumo, onde os explorados que os servem mais uma vez.

Nossa cultura da coletividade dentro dos territórios geograficamente periféricos aos centros urbanos também está se perdendo na forma de pensar egoísta, predatória e meritocrática dominante, onde o "ter" condiciona o "ser" e o "estar".

A dita diversidade brasileira não está nas propagandas que circulam na cidade, ela é coagida pela violência que assegura que esse modelo de cidade permaneça, assim fazendo controle da intervenção das culturas subalternizadas na cultura dominante.

O que culmina na segregação sócio-espacial e racial, onde a cultura dominante permanece fazendo alterações nos territórios subalternizados. Isto faz parte de um projeto de dominação da população eurodescendente sobre a população afrodescendente e indígena. Consequentemente, em partes isto afeta as pessoas não-negras e não-indígenas que também estão naquele espaço

Nós, populações afrodescendentes e indígenas nas cidades desse país, migramos todos os dias em busca de nosso sustento. Além de mal pagos, violentados, mal representados e identificados com tudo que é de mais negativo, a escuridão, a poeira, a sujeira. As políticas de segregação usam verbos como higienizar, limpar, quando tentam aniquilar nossa presença, se não podem se aproveitar dela.

Não parece ser justo despender tanta energia em fazer a manutenção das riquezas da classe dominante, devemos parar de correr para se parecer com o outro.

Vamos aflorar nosso potencial criativo e recreativo ancestral, desenvolvendo nosso fortalecimento econômico, produzindo autonomia dentro das próprias comunidades. Podemos sim pensar, criar, construir e usar nosso modelo de cidade, nosso modelo de território que espelhe de forma nítida a diversidade de culturas existentes nesse país. Que não seja uma mera reprodução do que já está posto.

*Colaborou Macaulay Pereira

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL