PUBLICIDADE
Topo

Uso de bicicletas cresce, mas luta por 'vias melhores' ainda é longa

home urbanismo ciclista - uol tab
home urbanismo ciclista Imagem: uol tab
Jamile Santana

Escritora, poeta, cientista social, pesquisadora com estudos no âmbito do mobilidade, direito à cidade e segregação sócio espacial e racial. É cicloativista interseccional e coordenadora da ONG Movimenta La Frida.

Colunista do UOL

18/08/2020 04h00

No dia 19 de agosto é comemorado o Dia Nacional do Ciclista. A data foi escolhida em homenagem a Pedro Davison, que era ciclista e biólogo. Ele tinha 25 anos quando foi atropelado e morto no dia 19 de agosto de 2006, enquanto pedalava na faixa central do eixo sul em Brasília.

O dia Nacional do Ciclista nos convida repensarmos a segurança no trânsito. A influência capital que estrutura as hierarquias do status quo do indivíduo em posse de um carro, por vezes, corrobora e influencia seu comportamento frente a outros veículos, principalmente no que se diz respeito à bicicleta.

O respeito é fundamental em todas as relações sociais. Compreender as diferenças e respeitar o espaço do outro - que inclusive é de um metro e meio a distância mínima que os veículos da bicicleta -, além de ter que reduzir a velocidade.

Apesar de a bicicleta ser um modal de transporte que tem prioridade diante dos veículos com motor, ciclistas sofrem cotidianamente com o desrespeito e imprudência de motoristas no trânsito. E a infraestrutura que deveria favorecer a bicicleta é ignorado e/ou sucateada pelo poder público.

Em algumas cidades no Brasil, ciclofaixas e ciclovias são instalados em zonas seletivas e ainda assim tem utilização limitada ao "lazer". Ciclofaixas se tornam estacionamento durante a semana e são abertas aos "domingos para passeio de bike".

Em uma menção ironicamente romântica, a utilização da bicicleta como mera ferramenta de lazer não visualiza sua potencialidade quanto modal de transporte ativo, autônomo, econômico, sustentável, que exige bem menos investimento estruturais frente aos superfaturamentos de obras de pavimentação, asfalto e viadutos, que priorizam os carros e são caminhos para corrupção e desvio de verbas públicas.

Desmistificar a visão de que o ciclista é uma pessoa que usa "mountain bike equipada e roupa esportiva" é outro convite necessário para ampliar os horizontes.

Olhando a questão do classicismo na mobilidade bike, existem múltiplas realidades. É preciso ter consciência dessas multiplicidades, até mesmo nas reivindicações por políticas estruturais que atendam quem se utiliza da bicicleta como meio de transporte, tendo em conta os atravessamentos sociais e territoriais.

São muitas as reivindicações e memórias a serem levantadas neste 19 de agosto. Para além das lutas, tem sido uma vitória para comunidade cicloativista ver o crescimento da utilização das bicicletas dentro do contexto da pandemia, apesar dos pesares do momento de crise na saúde e na economia.

A busca por práticas mais saudáveis e por meios de transporte mais econômicos e ímpares tem impulsionado o uso da bicicleta no Brasil, e consequentemente aumentado o número de aliados na busca por uma cidade mais sustentável e democrática. Ainda há uma longa jornada, sigamos na pedalada em conjunto por "vias melhores''.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.