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Sobre fragilidades e enfrentamentos: um corpo que desafia a cidade

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Imagem: Getty Images
Jamile Santana

Escritora, poeta, cientista social, pesquisadora com estudos no âmbito do mobilidade, direito à cidade e segregação sócio espacial e racial. É cicloativista interseccional e coordenadora da ONG Movimenta La Frida.

Colunista do UOL*

25/08/2020 04h00

É sabido que vivemos sob uma estrutura capitalista, hetero-patriarcal, LGBTfóbica e essencialmente racista, que se materializa através das instituições e culturas formatando o pensar-agir-sentir das pessoas que nela estão contidas.

Os corpos femininos que transitam pelas cidades, seja a pé, de bicicleta, transporte coletivo, carro e etc, por vezes, esbarram nas embrincadas encruzilhadas deste (des)arranjo social que tem suas violências legitimadas por tal estrutura.

Mover-se batalhando para superar todos os obstáculos físicos como, por exemplo, as calçadas completamente esburacadas e/ou inexistentes, ausência e iluminação em pontos que se tornam perigosos na cidade, tanto quanto a fuga das mais diversas faces da violência. Acidentes, furtos, roubos, estupros, violência policial... Precisamos avançar e fugir, caminhar com atenção.

Quando tomamos a vivência da mulher negra dentro desse contexto, percebemos o quanto seu corpo está completamente retalhado pelas múltiplas lâminas da navalha social. São mãos que tocam as suas intimidades sem consentimento. Mãos que masturbam o próprio membro se insinuando, sem pudor.

Como aconteceu comigo na manhã de ontem. Ao sair de casa caminhando, refletia sobre a temática que escreveria nesta coluna AfroCiclo quando ouvi um "psiu". Olhei o chamado que vinha de um homem se masturbando nas ruínas de um casarão abandonado.

Enfurecida, busquei ajuda junto a um grupo de pessoas. Havia dois homens e uma mulher. Ela ficou estarrecida, enquanto os dois riam achando o fato "inusitadamente engraçado". Risos que me violentaram mais uma vez.

Ao buscar o órgão de segurança pública, atenderam minha queixa e foram verificar. Quando busquei saber o que havia se dado, me informaram que não havia um rapaz no local, que pessoas disseram terem visto um homem sem camisa sair de lá. E concluíram me dizendo: "deve ser aquele doido que fica por ai sem camisa. E que coragem dele ficar debaixo daquele casarão que está prestes a desabar". Me senti mais uma vez violentada, a quem deveria recorrer?

As mulheres, aos montes, denunciam e expõem as violências sofridas diariamente para impor seus corpos à cidade. A mulher negra, por carregar em si as mais profundas cicatrizes, fruto das incisões sofridas pelo bisturi da estrutura classista, racista e patriarcal, se percebem ainda mais retalhadas quando precisam lançar seus corpos pretos para desbravar os caminhos traçados na mão social.

Mãos que jogam o carro em cima de uma ciclista, sem se preocupar com o estrago - seja ele físico ou emocional. Como aconteceu com Bruna Rocha, uma mulher negra, jornalista, ciclista, que relatou neste sábado a violência que sofreu enquanto pedalava no trânsito de Salvador (BA).

Bruna conta: "Um cara me prensou de carro e eu, de bike, caí. Ele desceu enquanto eu me erguia e foi olhar o carro dele. Me perguntou como eu estava? Não, veio me culpando. Discutimos e parou uma viatura. O policial (homem) deu razão a ele. Um outro homem, que observava a cena, deu razão a ele. Só tinha homens. Quem iria testemunhar ao meu favor? Certamente vou ter que pagar o "prejuízo" dele. Porque o mundo é assim, injusto. Volto para casa chorando e solitária. A misoginia, quando não nos mata como uma bala, nos mata por dentro".

Viver no dilema entre o sair e enfrentar o mundo que tenta invisibilizar mulheres negras, ou ser invisível para se resguardar das violências que nos atravessa cotidianamente? Corpo que desafia a cidade pelo simples fato de transitar por ela. Certamente não conseguirá ser contido, pois somos muitas e estamos juntas nos acolhendo, avantes na luta.

Através das minhas irmãs, especialmente da afro-filósofa contemporânea Itana Santana, compreendi a magnitude e o poder empoderador que é de se impor, apesar das supostas fragilidades apontadas pela estrutura. Percebi que, para as minhas ancestrais, a concepção de fragilidade não existia como categoria que confira atributo para sua forma de ser.

Foi ouvindo sobre como agiam as minhas ancestrais que percebi que tais atributos sequer eram por elas considerados como limitante diante da iminente condição de estar sempre a se movimentar.

É desafiador impor nosso corpo à cidade, quando somos apontadas e afetadas pelo discurso da fragilidade feminina e contraditoriamente estamos sempre enfrentando, resistindo e desafiando todos os dias as navalhas ágeis que buscam nos mutilar, impedindo a nossa mobilidade e expansão.

Assumo a minha qualidade guerreira, que não significa necessariamente vestir-se de pesadas armaduras para enfrentar as batalhas. Visto-me do espírito das minhas ancestrais, embainho o meu facão enquanto sigo firme olhando meu algoz nos olhos. Desafiando o seu movimento e imponho o meu corpo no mundo.

*Colaborou Itana Santana da Conceição

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.