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Sem carboidratos: como dieta cetogênica pode ajudar quem tem epilepsia

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Imagem: iStock

Luiza Ferraz

Colaboração para o VivaBem

27/05/2022 04h00

Estima-se que mais de 50 milhões de pessoas no mundo sofrem com a epilepsia. Alguns casos são mais graves, chegando a 100 crises por dia, e outros menos, com somente uma. Mas independente da quantidade, esse é um transtorno que precisa de tratamento —na maioria das vezes com medicamentos—, e a dieta cetogênica pode ser uma grande aliada.

Ela existe desde a década de 1920 e conta com um amplo trabalho científico. Especialistas indicam que ela é indicada para quem é mais resistente ao tratamento, porque pode reduzir as crises em até 50%. "Os tratamentos cetogênicos são direcionados às pessoas que não obtiveram o controle das crises epilépticas após utilizarem ao menos dois medicamentos anticrise", explica Marcela Gregório, nutricionista, mestre em ciências e responsável pelo ambulatório de dieta cetogênica para epilepsias da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Esse tipo de alimentação consiste na redução da ingestão de carboidratos e maior ingestão de gorduras boas e proteínas. Nela, não é permitido o consumo de pães, massas e doces. O ideal é dar preferência para óleos vegetais, como azeite, óleo de canola e de coco, além das fibras, vitaminas e minerais presentes em frutas, legumes e verduras. No caso das proteínas, são recomendadas carnes brancas, vermelhas, ovos e laticínios.

"O problema dessa dieta é mais operacional, porque ela é muito restritiva em quantidade e qualidade do alimento. Você não pode comer carboidrato e açúcar, precisa pesar o quanto vai colocar no prato de cada coisa, como quantos mililitros de azeite vai por na salada. É muito trabalhosa", diz Carlos Takeuchi, pediatra pela USP (Universidade de São Paulo) e neurologista infantil no Hospital Sabará (SP).

Qualquer pessoa, em qualquer idade, pode aderir a esse tipo de dieta. Mas, como existem certos impeditivos, ela precisa ser prescrita por um médico neurologista em conjunto com um nutricionista especializado para entender as necessidades de cada um.

Como essa dieta pode reduzir as crises epilépticas?

A epilepsia é um distúrbio da atividade elétrica cerebral e pode afetar qualquer função que esteja na região acometida. "Pode se apresentar por movimentos involuntários e alteração de sensibilidade. Nos casos mais graves, quando há quedas, podem ocorrer lesões, como fraturas e traumatismos", explica Aline Freire Borges Juliano, neurologista do Hospital São Domingos, no Maranhão.

Na dieta cetogênica, o cérebro passa a usar a gordura ao invés da glicose como combustível energético. Ao passarem por transformações químicas, as gorduras viram corpos cetônicos, que vão reduzir a atividade elétrica excessiva das células nervosas, ajudando na melhora das crises.

Por isso, o pediatra Carlos Takeuchi alerta para que o tratamento seja levado a sério, sem escapadas, especialmente no caso de crianças, já que muitas pessoas dão doces e balas sem a permissão dos pais. "Tivemos casos em que as avós tiveram dó do neto e começaram a dar mais comida do que estava no cardápio, e então perdemos tudo o que havíamos construído."

"Não existe a possibilidade de seguir a dieta durante a semana e parar aos finais de semana. Quebrar a proporção dela ao comer uma simples bala poderá repercutir em escapes de crises epilépticas devido às alterações no metabolismo do paciente", explica a nutricionista Marcela Gregório.

Quando a dieta cetogênica é mais indicada?

Casos chamados farmacorresistentes, ou seja, de difícil controle medicamentoso, são os mais recomendados para o tratamento. Takeuchi considera que, em algumas situações, a indicação para a dieta é absoluta, como para quem tem a deficiência de GLUT1, proteína responsável pelo transporte da glicose. "O cérebro não consegue receber glicose, então só passa corpo cetônico e ele acaba sobrevivendo às custas desses corpos", explica o especialista.

"Existem determinadas síndromes cuja dieta é capaz de promover mais de 70% de redução das crises, e até mesmo o controle total. Pacientes com epilepsia com crises focais e generalizadas podem ter uma melhora de 50% nas crises", diz Gregório.

O ideal é que ela seja feita como uma aliada dos tratamentos medicamentosos, e não como substituta deles. Takeuchi explica que a única exceção é para quem tem deficiência de GLUT1. Nesses casos, fazer apenas o controle alimentar com especialistas já pode bastar.

Quais são os riscos?

Assim como todo tipo de tratamento, a dieta cetogênica também pode ter efeitos colaterais. Entre eles, o aumento do colesterol em longo prazo, além de algumas adversidades no período de introdução, como náuseas, vômito e diarreia.

Por isso, os especialistas reforçam que ela precisa ser feita com muita responsabilidade, sempre acompanhada por neurologistas e nutricionistas de confiança.