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Idosos ontem e hoje: como a medicina evoluiu em prol do envelhecimento

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para VivaBem

06/05/2022 04h00

Ser idoso no Brasil de décadas atrás não era nada fácil. Para se ter ideia, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 1940 a população de 65 anos ou mais representava 2,4% do total. Em 2019, o percentual passou para 9,5%, um indicativo de que os brasileiros estão vivendo por mais tempo.

Atualmente, quem completa 50 anos, tem uma esperança de vida de mais 30,8 anos, quase 12 anos a mais sobre os cinquentões de 1940.

No passado, o que inclui ainda as décadas de 50, 60, 70, 80, era mais difícil porque a medicina não era tão evoluída e igualmente a compreensão sobre o envelhecimento e sua valorização. De acordo com Júlio Barbosa Pereira, médico pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e neurocirurgião, não havia disponível como hoje uma série de medicamentos. O sildenafila (viagra), por exemplo, o primeiro remédio contra a impotência, só foi aprovado para utilização em 1998.

"Como as pessoas geralmente não passavam dos 70 anos, não se compreendia doenças como Alzheimer, Parkinson, que eram muito mais raras. Com isso, não se tinha desenvolvimento tecnológico, medicamentos, exames de imagem e o entendimento era de que o idoso estava enlouquecendo", continua o neurocirurgião baiano, acrescentando que os médicos não viam o cérebro enquanto funcionava, só podiam estudá-lo quando a pessoa morresse, nas autópsias.

Na base da dedução

Exame, radiação, PET CT, tomografia, ressonância - iStock - iStock
Exames evoluíram ao longo das décadas
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Se atualmente, com tomografia computadorizada e ressonância magnética, pode-se excluir a possibilidade de tumores, AVC (acidente vascular cerebral), hemorragias, dentre outras causas de demência, além de fraturas, como de fêmur, doenças torácicas (idosos acima de 70 anos e crianças menores de 5 anos são as faixas etárias mais comprometidas por pneumonia, por exemplo), no tempo dos bisavós era muito mais complicado, pois não estavam disponíveis.

No Brasil, o primeiro tomógrafo foi instalado em 1977, em São Paulo, que também estreou o primeiro exame de ressonância magnética, em 1986.

"A popularização se iniciou nos grandes centros do país, então imagina como era a situação em outros estados, cidades menores. Os médicos tratavam doenças neurológicas de forma muito primária, injetavam ar para ver tumores. Só a partir dos anos 1990 que passamos a ter uma clareza melhor", explica Pereira.

Idosos também morriam bem mais de doenças infecciosas, hospitalares (más condições de higiene), comorbidades (hipertensão arterial, câncer, cardiopatias, diabetes tipo 2, colesterol alto).

A ideia de se investir em um envelhecimento saudável, prevenção, cuidados paliativos, assistência humana e compassiva, também era impensável, e antes do Estatuto do Idoso, lei federal de 2003, não havia penas severas para quem abandonasse cidadãos da terceira idade.

Pessoas pareciam mais velhas

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Pelas fotografias e jornais de época é possível notar como homens e mulheres acima dos 60 anos pareciam bem mais velhos e debilitados. O perfil era bem mais mórbido e isso tinha a ver com uma oferta reduzida de tratamentos, pouca compreensão sobre determinadas doenças, acúmulo de déficits não investigados, enumera Natan Chehter, geriatra membro da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

"De lá para cá houve muita mudança no aspecto cultural também, de se compreender de que não é o final da linha. O aumento da expectativa de vida impôs novos desafios, como de se pensar em melhorias para saúde pública, expansão da cobertura do SUS (Sistema Único de Saúde), qualidade de vida, produtos, serviços, trabalho. Hoje o idoso se aposenta e tem a oportunidade de se reinventar, começar novos projetos, desfrutar mais", acrescenta Chehter.

Fora que, apesar das muitas dificuldades, ocorreram avanços em vacinação, procedimentos cirúrgicos, movimentos científicos, serviços de atendimento psicológico e pré-hospitalar, incluindo móvel (Samu).

O geriatra ainda lembra que atualmente existem terapias que amenizam o curso de doenças, tornam as pessoas mais funcionais, e que há mais acesso à informação, capacitação, orientação, o que de quebra serve para preparar melhor as famílias.

O que esperar daqui para frente?

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A situação dos idosos avançou em vários aspectos. Contudo, ainda há pontos a melhorar, concordam os médicos. Para Pereira e Paulo Camiz, geriatra e professor no HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), como é esperado que a população aumente e alcance cada vez mais os 90, 100 anos, é necessário desenvolver tratamentos eficazes que revertam o processo de doenças degenerativas.

"É sabido que se isso não ocorrer, se a medicina não evoluir nesse sentido, os sistemas de saúde vão quebrar. Mas esperamos, com os investimentos massivos que estão sendo feitos nessa área, ver muita coisa nova em um curto espaço de tempo", diz Camiz, complementado pelo neurocirurgião, que afirma não haver cura para Alzheimer e Parkinson, por exemplo, mas ao menos estratégias de controle que podem melhorar temporariamente sintomas e cognição.

Já o geriatra Natan Chehter diz que hoje as pessoas não morrem tanto de infarto, AVC e câncer como antigamente, pois existem bons tratamentos, serviços de urgência, mas que diagnósticos e investimentos em prevenção (de obesidade, pressão alta) poderiam melhorar, pois observa como sendo muito tardios.

Para além da saúde, falta avançar também em educação, para integrar mais os idosos socialmente e na inclusão digital, em renda digna, direitos (sobretudo, para atender às perdas funcional e social) e combate ao preconceito e à desinformação.

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