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'Preciso de cirurgia para retomar minha vida', diz idoso com hérnia gigante

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Imagem: iStock

Marcela Lemos

Colaboração para VivaBem, no Rio de Janeiro

21/01/2022 04h00

Com uma hérnia inguinal gigante que começou na virilha e alcançou as partes íntimas, chegando até a altura do joelho, o idoso J.L.A., 69, precisou parar de trabalhar, de se movimentar e passou a conviver com dores, inchaços e dificuldade para dormir devido a lesão que tem em torno de 50 centímetros.

O ex-vendedor de lanches, que não terá o nome divulgado para preservá-lo, mora na comunidade do Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio, contou a VivaBem que identificou o problema há dez anos e não procurou atendimento médico devido a impossibilidade de parar de trabalhar.

Na ocasião, ele trabalhava por conta própria e havia interrompido os pagamentos das guias do INSS e por isso não teria direito a remuneração no caso de afastamento das atividades por motivo médico. Com isso, o idoso viu, ao longo dos últimos anos, a hérnia crescer e atingir o tamanho atual que, segundo ele, o impossibilita de viver.

"Meu caso está muito grave, não consigo andar, é um sacrifício me locomover. Preciso tratar isso para voltar a ser livre. Essa hérnia apareceu bem pequena e no início não tratei, pois tinha medo. Trabalhava por conta própria e se operasse naquela ocasião, não teria dinheiro para me manter. Isso me atrapalhou muito, pois ela foi crescendo e ficando cada vez pior. Nesse tempo, retomei o pagamento do INSS, consegui me aposentar e hoje recebo um salário-mínimo de aposentadoria, mas convivo com a hérnia que atingiu todo esse tamanho."

Há três anos, J.L.A. tenta uma cirurgia no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio. O idoso chegou a ser internado duas vezes para realizar a operação, mas foi obrigado a deixar a unidade e voltar para casa.

Na primeira vez, em 2019, ele foi diagnosticado com pressão alta —o que impediu a cirurgia. Em 2020, já no hospital, ele foi diagnosticado com covid-19 e o procedimento foi novamente cancelado. J.L.A. diz que após o diagnóstico de coronavírus, a hérnia aumentou ainda mais de volume.

"Depois que peguei covid-19, a hérnia cresceu muito. Fiquei pior, deficiente, sem andar, minha esposa me dava banho na cadeira de rodas. Fiz fisioterapia e voltei a andar novamente. Agora, sinto muita dor, meus pés e mãos ficam muito inchados, tenho dificuldade de achar uma posição para dormir. É muita dor que eu sinto."

Por conta da lesão, o ex-vendedor deixou de complementar a renda da família com a venda de lanches —o que gostava de fazer—, deixou de andar de bicicleta e ir à igreja. Hoje, ele precisa de ajuda para descer escadas e percorrer distâncias maiores.

"Preciso me recuperar, preciso muito dessa cirurgia para retomar a minha vida."

Dificuldades de internação

A família de J.L.A. tenta agendar a terceira internação do idoso, mas agora encontra dificuldades até para realização dos exames que antecedem a cirurgia.

De acordo com Carla Ferreira Silvério, enteada do ex-vendedor, o hospital informou que não poderia realizar os procedimentos e recomendou que eles fossem feitos em outras unidades da rede. De cinco exames pedidos, apenas dois foram marcados com intervalo de um mês e em pontos diferentes da cidade.

"Ele tem muita dificuldade para andar. Um dos exames foi marcado em Botafogo [na zona sul do Rio, a 34 km da residência do idoso], outro foi marcado para daqui a um mês. É muito complicado. Das outras vezes, ele fez os exames no hospital, agora não conseguimos mais."

Os exames solicitados são prova de função pulmonar, espirometria —que é um teste que permite avaliar os volumes respiratórios do pulmão—, tomografia computadorizada do abdome, raio-X do tórax e ecocardiograma.

Carla teme o rompimento da hérnia antes de conseguir realizar todos os procedimentos.

"Ela está no joelho, a pele está muito fina e parece estar perto de romper. Precisamos de ajuda. Ele tem dificuldade para evacuar, não consegue fazer xixi, e a gente não consegue fazer esses exames e cirurgia no particular. Ele parou de andar, parou a vida dele toda", lamentou a enteada.

O que é hérnia inguinal?

Hérnia inguinal, como a de J.LA., é a distensão de uma alça do intestino por um orifício que se formou na parede abdominal da virilha. É possível notar o problema, ainda no início, através de uma saliência ou abaulamento na pele. A recomendação é que o paciente procure o mais cedo possível atendimento médico para confirmação do diagnóstico. O tratamento é cirúrgico.

Sergio Roll, coordenador do Centro de Hérnia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP), afirma que não existem remédios ou tratamentos não cirúrgicos. Quanto mais a hérnia crescer, mais complexa será a cirurgia. Ele explica ainda que especialistas observam uma predisposição do paciente a desenvolver as hérnias inguinais.

"Geralmente, na família de um paciente com hérnia, há outros que também têm. Há fatores que podem antecipar o aparecimento dela ou torná-la maior, como pacientes com obesidade, dificuldades para urinar, que fumam ou são diabéticos e que usam corticoide cronicamente," explica Roll.

Ainda de acordo com o cirurgião, o desenvolvimento da hérnia não é evitável, mas há como minimizar os riscos através da perda de peso, parando de fumar, controlando a diabetes, principalmente após o diagnóstico ser feito.

Quando ainda pequena, trata-se de cirurgias simples e comuns. O problema acomete mais os homens e os riscos ocorrem quando a hérnia está em tamanho avançado e quando há possibilidade de ruptura da pele e consequentemente a saída de gordura e da alça intestinal.

"Há risco de estrangulamento que é quando a alça do intestino torce e ocorre a necrose no tecido. Essa é uma grande preocupação. O paciente fica inativo, sem conseguir andar, fica acamado, aí há chance de desenvolver outros problemas de saúde. Às vezes esse conteúdo é tão grande que qualquer machucado necrosa a pele e as alças saem até por esses orifícios", explica o cirurgião. Todos os casos são passíveis de reparação. Cada paciente é avaliado individualmente.

Ricardo Cavalcanti, professor de cirurgia do Hospital Gaffrée Guinle (RJ), explica que o caso de J.L.A. não é frequente, mas também não é incomum e acontece quando os pacientes não procuram ajuda médica. Segundo ele, a hérnia em estágio inicial não é uma emergência, mas o especialista deve ser procurado o quanto antes. O problema pode aparecer em outras partes do corpo.

"A hérnia é uma fragilidade da parede do abdome. Ela pode estar na virilha, no umbigo, em várias partes do corpo e essa fragilidade da parede pode fazer com que qualquer órgão interno vá em direção da pele. O que é mais comum é o deslocamento do intestino que está solto. O que precisa ser feito na cirurgia é voltar com o conteúdo para o lugar de origem e fazer o reforço da parede."

O que diz a Secretaria Municipal de Saúde

Procurada pela reportagem, a SMS (Secretaria Municipal de Saúde) informou que o paciente foi encaminhado para exames necessários para que a cirurgia de hernioplastia possa ser marcada e que os exames de ecocardiografia transtorácica, disponível no Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro, e a espirometria, no Hospital Municipal Rocha Maia, já estão agendados.

"O Hospital Municipal Lourenço Jorge é uma unidade de emergência, que atendeu o Sr. J. em episódios de crise, mas não dispõe dos exames especializados que o paciente necessita", informou a pasta através de nota.

A SMS disse ainda que a equipe de saúde que acompanha o paciente "fará uma visita em sua casa para verificar as dificuldades encontradas para fazer os exames e auxiliá-lo para que os procedimentos e a cirurgia possam ser realizados o mais breve possível."

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