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Os filtros para 'selfies' fazem mal? Saiba como eles afetam sua autoestima

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Imagem: iStock

Alice Silva

Colaboração para VivaBem

03/11/2021 04h00

O isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus não só ressignificou as relações interpessoais como também modificou a relação com o que vemos no espelho. As inúmeras reuniões e encontros online acabaram mostrando para muitas pessoas supostos defeitos que elas nem sabiam que existiam —e a busca por procedimentos estéticos aumentou significativamente por isso.

Chamado de "efeito Zoom", esse fenômeno acabou nos levando a buscar formas de aliviar essa angústia enquanto durante os meses que ficamos fechados em casa e nos encontrando apenas de forma online. Tudo agravado diante das potentes câmeras dos smartphones, que não disfarçam praticamente nada nas imagens.

Assim, os filtros disponíveis em redes sociais como o Instagram tornaram mais fácil mudarmos algo no próprio rosto, que pode ganhar novos contornos ou exibir menos manchas e textura com apenas alguns cliques. Na maioria dos casos, a ferramenta pode afinar o nariz, retocar a pele, aumentar a boca e até os cílios —que, não por coincidência, são características de um padrão de beleza imposto principalmente às mulheres.

O produtor de conteúdo digital Igor Saringer, que fala sobre estilo de vida, viagens e maquiagem no Instagram, costuma criar filtros virtuais e é um exemplo do quanto eles têm feito sucesso na internet. Segundo o influenciador paulistano, em menos de oito meses, seu perfil ganhou mais de um milhão de seguidores por causa disso.

O problema é que a alta busca por esse tipo de ferramenta pode esconder uma grande insatisfação com a aparência —um ponto que nem todos os criadores desse tipo de produto têm consciência que existe. E, quanto mais os filtros são usados, mais o indivíduo vai seguir utilizando. Afinal, quando a foto é publicada e chegam muitas curtidas e comentários positivos, as alterações acabam associadas às sensações de aceitação, afeto e pertencimento.

A preocupação com o que os outros esperam de nós é uma questão frequente na sociedade contemporânea e dentro dos meios digitais, afirma Ana Suy, que é psicanalista, escritora e leciona no curso de Psicologia da PUC-PR. "Não é possível estar satisfeito totalmente. Somos seres desejantes e faltantes. Por isso, se eu consigo algo, vou querer ainda mais", explica.

Quando torna-se um problema

Entretanto, o prazer exacerbado com uma aparência "perfeita" e fácil de ser alcançada virtualmente pode acarretar um sentimento grande de frustração quando o indivíduo depara-se com algo diferente na vida real. "Esse movimento produz distorções de autoimagem, gerando adoecimento psíquico e a busca por um ideal que não é possível de existir", afirma Deborah Antunes, psicóloga e professora do Instituto de Cultura e Arte e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFC (Universidade Federal do Ceará).

Sendo assim, esses usuários se tornam mais suscetíveis a quadros de sofrimento psíquico como depressão, transtornos de ansiedade e até a própria"dismorfofobia" —uma condição em que a pessoa realiza inúmeros procedimentos estéticos para alcançar um determinado visual que, na realidade, nunca é atingido.

De acordo com o médico Reinaldo Tovo, coordenador do Núcleo de Dermatologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, mesmo durante a pandemia de covid-19, a maioria das cirurgias procuradas pelas mulheres mais jovens —na faixa entre 20 e 30 anos— envolvia preenchimentos labiais e remodelagem do nariz. Deste último tipo, estima-se que foram realizadas 352.555 em todo o mundo apenas em 2020, segundo a ASPS (Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos).

"Eu recomendo que as pacientes não procurem os 'rostos perfeitos' da mídia, que aparentam uma beleza excessiva. Os procedimentos devem ser feitos de forma harmoniosa, respeitando os aspectos naturais de cada um", ressalta Reinaldo. Afinal, como qualquer cirurgia, esses procedimentos também envolvem riscos à saúde que se tornam ainda mais graves se não forem realizados por profissionais qualificados.

Faça as pazes com a vida real

Para Suy, o antídoto para não entrar em um ciclo vicioso e prejudicial à saúde mental e física deve ser adotado cotidianamente e começa pr desenvolver, aos poucos, o autoconhecimento e a autoconfiança. Esses são pilares importantes para que não fiquemos tão vulneráveis e dependentes da ideia dos filtros.

"Precisamos fazer um trabalho para nos identificar com nossa verdadeira imagem e entrar em sintonia com ela, pois reconhecer quem somos não nos é dado naturalmente", afirma. "Os filtros podem ser usados, mas eles devem aparecer em um contexto que nos faça nos amar ainda mais, e não o contrário", afirma.

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