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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Ortorexia psicológica: o perigo da busca constante pela melhor versão de si

Getty Images
Imagem: Getty Images

Isabella Abreu

Colaboração para o VivaBem

21/06/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Estamos sempre em busca de mais conhecimento e bem-estar, mas em excesso isso pode ser ruim
  • A fixação por bem-estar e o desenvolvimento pessoal em excesso podem causar a sensação de eterna insatisfação
  • O autodesenvolvimento deve ser um caminho calmo, lento, individualizado e trazer prazer

Ser produtivo no trabalho, ter um relacionamento feliz, dormir oito horas por noite, manter uma alimentação saudável, praticar exercícios diariamente, aprender um novo idioma, ler um livro por mês, meditar, investir, fazer terapia. Mais do que nunca, todos queremos ser a melhor versão de nós mesmos. A obsessão moderna por autoaperfeiçoamento tem até nome: foi batizada de "ortorexia psicológica" pela psicoterapeuta baseada em Londres Seerut Chawla.

"Estamos sendo convencidos pela necessidade de atualizar todas as nossas partes, todas de uma vez, incluindo as partes que não sabíamos anteriormente que precisavam de atualização", dizem os pesquisadores Carl Cederstrom e André Spicer, autores dos livros Wellness Syndrome (Síndrome do Bem-Estar, em português) e Desperately Seeking Self-improvement (Desesperados pelo Autodesenvolvimento, em português) —ambos sem edição no Brasil.

O problema é que essa busca, quando exagerada, em vez de nos tornar melhores, traz uma sensação de insatisfação, perdendo seu propósito original e se transformando em uma nova fonte de competição social. "As redes sociais amplificam a comparação e vemos cada vez mais uma cultura de excessos que transformam autodesenvolvimento em competições vazias, nas quais quem ganha geralmente perde algo de si mesmo", diz Armando Ribeiro, psicólogo e professor do Programa de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Além disso, vivemos em uma sociedade que legitima a narrativa do "vence quem for capaz", na qual assumimos a responsabilidade por nossos erros e conquistas. A ideia de que somos autores do nosso próprio destino, supondo que temos 100% de controle sobre nossas vidas, mesmo quando as circunstâncias não estão favoráveis, provoca em muitos o sentimento de insucesso.

A ideia de que podemos ser o que quisermos é muito nova na história da humanidade. E, de acordo com Guilherme Spadini, psiquiatra e professor da The School of Life, é uma coisa boa sob muitos aspectos, mas pode causar essa angústia de que, se não estamos plenamente realizados, é por nossa culpa. "Acreditamos que temos total liberdade para realizar um potencial ilimitado. Admitir a possibilidade do fracasso é importante. Assim como a de abrir mão de alguns sonhos. Tudo começa com a habilidade de decepcionar a si mesmo um pouquinho, admitindo que somos um tanto imperfeitos, muitas vezes confusos e ambivalentes, e que teremos muitas ambições que estarão fora de nosso alcance", diz.

Segundo ele, autodesenvolvimento não é sobre ser cada vez melhor, mas sobre viver cada vez melhor. "E isso pode ter muito mais a ver com aceitar seu real tamanho do que com o crescimento constante. Melhorar é ótimo, mas tem de partir de um lugar de aceitação e acolhimento, não de culpa e cobrança", salienta.

Como saber se estou passando do ponto?

Para Spadini, o sinal mais evidente é a própria ansiedade. "Cuidar do bem-estar deveria contribuir para que a gente se sinta mais calmo, mais inteiro, satisfeito. Se a rotina de "cuidados" está nos sobrecarregando e gerando estresse, então algo está muito errado", ressalta.

No entanto, às vezes não percebemos essas emoções diretamente. O exagero na busca pelo autodesenvolvimento pode servir, justamente, como defesa. O especialista explica que a gente preenche cada segundo da vida com "cuidados" para não entrar em contato com nossas falhas e inseguranças. Nesses casos, é preciso estar atento aos sinais indiretos que virão, principalmente daqueles próximos a nós.

"[Note] os amigos que se cansam e desconfiam de nossa positividade inabalável. Os companheiros que se sentem alienados e diminuídos por não conseguirem nos acompanhar em tantas atividades produtivas. Ou quando começamos, nós mesmos, a julgar os outros por não cuidarem tão bem de si mesmos quanto nós. Todos esses sinais de intolerância e rigidez apontam para algum erro muito sério no processo de autodesenvolvimento", enfatiza.

Outro ponto de atenção pode ser os resultados que você observa sobre a utilidade de tudo que busca para se aperfeiçoar. Na opinião de Andréa Perez Corrêa, fundadora da Rede Felicidade Agora é Ciência e professora da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), a não ser que você faça muitos cursos por puro lazer ou prazer, quando você agrega muitos novos conhecimentos e não realiza projetos ou os aplica em nada, pode ser que o que está escolhendo esteja desajustado de quem você é, e, por isso, não se motiva a fazer.

A especialista também alerta sobre a ditadura do autoaperfeiçoamento, que traz supostas exigências profissionais e pessoais que intencionam nos fazer crer que sem essa ou aquela habilidade, que surge da noite para o dia, você não será alguém apreciável ou um profissional adequado às tendências. "O que vemos em demasia, atualmente, no campo de autoaperfeiçoamento são escolhas por temas e treinamentos em efeito manada, sem a autopercepção necessária sobre o que pode ser útil a sua vida de verdade", diz.

Mercado tomou conta da ansiedade

É nesse contexto de busca por conquistar a nossa melhor versão que acabamos nos sentindo perdidos e terceirizando ajuda, que se traduz na demanda por conteúdos motivacionais e gurus digitais que auxiliam no alívio de nossas tensões. De acordo com pesquisa realizada pelo Grupo Consumoteca, 58% dos brasileiros se consideram insatisfeitos com a sua vida atual, 52% acompanham perfis motivacionais nas redes sociais e 34% consomem livros de autoajuda para melhorar aspectos ruins da própria vida.

Sendo o Brasil o país mais ansioso do mundo, com mais de 9% da população convivendo com o transtorno, o mercado já encontrou uma forma de lucrar com esse problema, oferecendo aplicativos, livros, terapias e outros produtos. É a chamada economia da ansiedade. Um relatório publicado em 2019 pela empresa JWT Intelligence define o termo como uma forma de negócio que lida com as sensações de ansiedade presentes na contemporaneidade.

Segundo Ribeiro, a economia da ansiedade se utiliza de um dos nossos mecanismos psicológicos mais arcaicos para prender nossa atenção às possíveis ameaças (reais ou imaginárias) e com isso lucrar com a venda de "pseudo-soluções". "A própria prática de mindfulness tem reconhecido uma versão menos profunda e apelidada de "McMindfulness" para fazer referência às soluções fast-food para a cura da mente e dos problemas psicológicos", diz.

Já Spadini vê com bons olhos a existência de uma variada oferta de produtos e serviços que possam nos ajudar a lidar com as ansiedades normais do dia a dia. "A ansiedade é um fenômeno existencial, humano, que sempre fez e sempre fará parte de nossa experiência. Então é natural que haja uma demanda por maneiras de lidar com ela. A sociedade moderna parece especialmente eficiente em produzir ansiedade, é verdade. E, sem dúvida, é um erro que a gente tenha de 'consumir' métodos para lidar com a ansiedade sem questionar as condições sociais que a favorecem. Mas acho que podemos fazer os dois ao mesmo tempo", avalia.

Uma boa dica para separar o joio do trigo é desconfiar de soluções mágicas que ofereçam respostas gerais, rápidas e fáceis. "O autodesenvolvimento é um caminho calmo, lento e individualizado. Ele vai exigir trabalho e dedicação, mas também um prazer pelo caminho em si, e não pelo resultado final. Nunca pelo resultado final. Afinal, ele nunca termina", conclui o especialista.

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