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"Meus pais me chamavam de relaxado": como é descobrir TDAH depois de adulto

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Imagem: iStock

Roseane Santos

Colaboração para o VivaBem

30/03/2020 04h00

Desde criança Djalma Figueiredo Costa Júnior, hoje com 25 anos, tinha uma grande dificuldade em manter o foco nos estudos. Dificilmente conseguia ler um livro até o final e apesar de ser considerado um menino tímido, a sua mente apresentava uma constante inquietude. "Eu ficava quieto na escola, mas meu pensamento ia até a Júpiter, sei lá, nunca conseguia me concentrar em nada. Não gostava de estudar, ficava enrolando, odiava provas. Meus pais me davam bronca, falavam que era preguiçoso e relaxado", conta.

Somente quando ele completou 21 anos descobriu a razão do seu comportamento ser "diferente" de grande parte dos seus amigos de turma. Djalma tem o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Apesar dos sintomas sempre se apresentarem na infância, muitas famílias não identificam e não procuram uma ajuda médica. Dessa forma, as conseqüências na vida do adolescente e adulto portador desse distúrbio podem atingir os relacionamentos pessoais e o desempenho profissional.

Hoje Djalma cuida também de transtorno de ansiedade, depressão, já sofreu com a síndrome do pânico e ainda não conseguiu o seu primeiro emprego. "Só depois que comecei a tomar os medicamentos consegui ter mais gosto pela leitura, sair mais de casa e praticar atividades físicas. Antigamente, uma tarefa simples como ir ao mercado, era complicado, porque sempre esquecia alguma coisa.", lembra.

Segundo Rogério Panizzutti, neurocientistas especializado em psiquiatria e diretor do Laboratório de Neurociência e Aprimoramento Cerebral da UFRJ (Univerdade Federal do Rio de Janeiro), o TDAH na idade adulta é considerado um transtorno de desenvolvimento, porque é preciso que se apresentem os sintomas até os 12 anos de idade para ser diagnosticado de forma clínica. "Existem pessoas que tem o déficit de atenção somente e outros só apresentam a hiperatividade e há ainda pessoas que tem as duas formas combinadas.", explica o médico.

Panizzutti destaca que a dificuldade de atenção na idade adulta pode acometer o trabalho, mas é importante que ela se apresente também em outras esferas, seja na vida social ou em casa. "Esses são critérios para avaliar antes do diagnóstico, porque não podem ser avaliadas apenas as atitudes que ele tem especificamente na escola ou no serviço, pois isso pode ser especifico com aquele ambiente ou em relação a alguém", explica.

O médico esclarece também que existem graus de severidade que determinarão o tipo de tratamento e cuidados que ele deverá tomar no seu cotidiano. No grau mais grave, não é possível que alguém com TDAH consigam dirigir um carro, por conta da ausência de foco. "Mais ou menos 20% das pessoas que tem o TDAH na infância e na adolescência continuam com ele na vida adulta. Todo transtorno mental afeta o modo da pessoa se relacionar. Assim como alguém tem depressão ou TOC tem dificuldade, quem tem déficit de atenção também terá", diz Panizzutti.

Vida social e profissional

E como se relacionar com alguém que não para em nenhum lugar, não consegue prestar atenção na conversa, pula as conclusões interrompendo sempre a sua frase e que ainda pode ter como "companheira" a procrastinação, aquele ato de deixar tudo para depois?

A psicóloga Edlamar Mendes, especialista em reabilitação neuropsicológica e Mestre em Educação Especial pela Universidade Fernando Pessoa de Portugal desenvolveu um treino cognitivo para auxiliar quem têm muitas dessas dificuldades. Mendes afirma que todo esse quadro reflete diretamente no campo emocional. Segundo ela os problemas de quem tem TDAH estão relacionados à autoestima baixa, ansiedade, depressão, baixo desempenho escolar/ocupacional, desentendimentos conjugais, dificuldades no trânsito e abusos de substâncias.

"Esses adultos dizem ter autoestima baixa devido aos resultados de muitas frustrações nas áreas de sua vida e muitos deles de forma errônea acabam atribuindo seus problemas a defeitos morais ou de caráter, apresentando muitas vezes questões emocionais importantes.", ressalta.

Ela destaca ainda algumas atitudes que grande parte das pessoas não associam ao TDAH. "Muitos apresentam dificuldades para manter relacionamentos sociais e interpessoais por causa da impulsividade, oscilações de humor, ocasionando algumas vezes um desajuste social, como exemplo, aquela pessoa que não consegue ficar calada no momento certo, ou o super sincero que deixa alguém numa saia justa.", descreve.

Curiosidades

Alguns portadores apresentam o "hiperfoco", uma concentração excessiva quando é algo para o seu interesse próprio. "Quando é motivador somente para ele, pode ficar horas em determinados assuntos ou projetos.", diz a psicóloga. Outro dado pouco destacado é que alguns estudos apontam que o TDAH na fase adulta se apresenta mais frequente no sexo masculino, embora os índices variam de acordo com tipo hiperativo, impulsivo e desatento. O transtorno é mais observado em idade escolar repercutindo também na sua vida adulta, com impacto global para sua vida cotidiana.

Panizzutti enfatiza que como em qualquer transtorno é importante que as pessoas que convivem com quem apresenta o TDAH entendam que esse transtorno é uma condição médica e que tem ser tratada. O diagnóstico é clínico, deve ser realizado por um psiquiatra ou psicólogo capacitado para isso. Não pode ser baseado somente em testes. "Há testes que medem a atenção de uma criança e que estão sendo usados de forma indiscriminada, mas que na verdade não podem dar o diagnóstico e sim somente auxiliar nele.", conclui o psiquiatra.

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