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Da sala de aula para casa: como a pandemia mudou vida de crianças autistas

Théo teve dificuldade de adaptação no começo da quarentena - Arquivo pessoal
Théo teve dificuldade de adaptação no começo da quarentena Imagem: Arquivo pessoal

Juliane Assis

Colaboração para o VivaBem

17/04/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Durante a quarentena, crianças com TEA (Transtorno de Espectro Autista) tiveram que se adaptar ao EAD e enfrentam desafios diários
  • Professores de todo o país também tiveram que se adaptar para atender a essas crianças remotamente
  • Mães dizem que as mudanças foram tantas que filhos acabam regredindo no aprendizado

"A escola fica na esquina de casa e ele queria levar a mochila pra lá, queria ver os colegas, sentiu muita falta da rotina", conta Caroline Weirich, 35, dona de casa e mãe de Théo, 6, diagnosticado com TEA (transtorno do espectro autista). A pandemia do novo coronavírus trouxe mudanças para a vida de todos, principalmente para crianças como Théo. Com as escolas fechadas, estudar em casa se tornou um desafio.

De acordo com a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde), o TEA se refere a um determinado grau de comprometimento em dois eixos do desenvolvimento da criança: o primeiro relacionado ao comportamento social, à comunicação e linguagem, e o segundo relacionado a interesses restritos em certas atividades que são realizadas de forma repetitiva. Isso é visto, por exemplo, em crianças que, além de apresentar algum atraso na fala ou sociabilidade, gostam apenas de um brinquedo e brincam com ele repetidas vezes.

O ensino à distância se tornou um processo cansativo para todos os estudantes, no entanto, esse é mais um entrave na educação do autista. José Marcos Vieira, neurologista do Hospital Santa Paula, explica que "a criança pode nem prestar atenção na aula presencial e, dependendo do diagnóstico, não consegue ficar numa sala de aula. E isso é ainda pior no ensino à distância, porque se a criança já tem problemas na sala de aula, quando você tem uma tela na frente essa perda é ainda mais exacerbada."

Théo  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Théo sentiu falta da rotina na escola
Imagem: Arquivo pessoal

Caroline, mãe de Théo, conta que o filho teve muita dificuldade de adaptação no começo da quarentena, pois, para ele, a casa não era o 'local correto' para estudar, e ele não aceitava fazer as atividades. "As mudanças foram tantas que ele acabou regredindo no aprendizado."

Esse sentimento é o mesmo da publicitária Daniela Padilha, 48, mãe de João, 14, diagnosticado com a síndrome do X Frágil. Segundo a presidente do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Magda Lahorgue Nunes, a síndrome se consolida como uma das etiologias associadas ao TEA, ou seja, pode ser uma das causas que levam ao transtorno.

Tentar ajudar o filho a se acostumar com o novo cotidiano foi o maior desafio para essas mães. "Qualquer coisa que abale ou que mude o cotidiano pode ser uma questão emocional muito forte para ele", diz Daniela. Ela conta que o filho frequentava as aulas no Google Meet, mas isso acabou gerando um transtorno grande para ele. "Era muito tempo sem ver os colegas e às vezes todo mundo falava junto e isso gerava uma desorganização muito grande nele, e eu ficava na dúvida se isso era bom ou ruim."

A compreensão dos pais em entender essa dificuldade é peça-chave na pandemia. "É importante que os familiares mostrem de maneira clara que existem mudanças, por que elas existem e por que ele não está indo à escola", diz o professor livre-docente em neurologia pela USP (Universidade de São Paulo), Erasmo Casella.

Linguagem acessível

Essas adaptações não estão só nas casas de crianças com autismo, mas também nas dos professores. Ana Maria Costa é professora na rede municipal de ensino de Paraisópolis (MG), e começou a se especializar no ensino inclusivo, pois viu que esses alunos não tinham o apoio necessário nas escolas.

João em aula por vídeo chamada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João em aula por vídeo chamada
Imagem: Arquivo pessoal

"Após a faculdade de pedagogia me especializei na área para trabalhar com alunos especiais, pois promover a aprendizagem e o desenvolvimento das habilidades deles para mim não tem preço, cada conquista deles é minha também", diz Ana Maria.

Durante a pandemia a professora teve que se adaptar novamente para dar as aulas. "Tem aluno que eu tenho que enviar o material impresso em uma linguagem acessível para os pais e o aluno, pois a família não tem acesso aos meios de comunicação", diz ela, que é professora de João. O aluno não costuma aceitar a ajuda dos pais na hora de aprender, por isso Ana conta com o apoio da professora Joelma de Souza, para adaptar as atividades. As duas se dividem entre as matérias e trabalham com o menino por vídeo chamada de WhatsApp.

Joelma fica com história, geografia, ciências, educação física, inglês, artes e ensino religioso e adapta os materiais que os professores da turma dele (8º ano) passam. Já Ana fica com português e matemática, mas desenvolve o material do zero, pois João ainda está na fase de alfabetização.

Mesmo nas aulas mais dinâmicas, as professoras fazem o máximo para que João participe. "Quando é aula de educação física, por exemplo, e o professor está explicando um jogo, eu tento fazer com que ele faça com o pai ou eu mesmo faço por vídeo chamada", comenta Joelma.

Daniela conta que atualmente seu filho faz acompanhamento só com essas duas professoras. "Ele não quer a nossa companhia, nem minha nem do pai, ele quer autonomia e, por isso, tem que ficar sozinho na escrivaninha dele. Mas o quanto ele está absorvendo disso tudo, eu não sei."

Casella, professor de neurologia da USP, atribui a dificuldade de aprendizado à ligação que essas crianças têm com o concreto. As professoras Ana Maria e Joelma, por exemplo, utilizam muitas imagens e exemplos do cotidiano com o João. "Apesar de todas as dificuldades, eu fico muito feliz e acho que é importante ressaltar o trabalho das duas professoras que de forma criativa conseguem estar ao lado de João todos os dias e trazem muita felicidade. É essa felicidade que preenche ele", diz a mãe.

Fontes: José Marcos Vieira, neurologista do hospital Santa Paula (Rede 9 de Julho); Magda Lahorgue Nunes, médica, neurologista infantil, professora titular de neurologia da Escola de Medicina da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul) e presidente do Departamento Científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria; Erasmo Barbante Casella, professor livre-docente em neurologia pela USP (Universidade de São Paulo), médico do Instituto da Criança do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), chefe da Unidade de Neuropediatria do Instituto da Criança, coordenador do Ambulatório de Distúrbios do Aprendizado do Instituto da Criança do HCFMUSP e professor colaborador médico do Departamento de Pediatria da FMUSP.

Errata: o texto foi atualizado
O texto inicial dizia que o doutor José Marcos Viera era da Rede Nove de Julho, mas, na verdade, ele é médico do Hospital Santa Paula. A informação foi corrigida.

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