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Videoconferência ajuda quem tem medo de falar em público, mas há riscos

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Imagem: iStock

Luciana Borges

Colaboração para o VivaBem

15/05/2021 04h00

"Qualquer reunião, apresentação, por mais preparada que eu esteja, se torna um suplício". T.J., analista de marketing de 35 anos que mora na cidade de Jundiaí (SP) conta que tem uma relação pouco amistosa com falar em público, mesmo por meio de câmeras. A paulista prefere se manter no anonimato para evitar questões com a empresa onde trabalha, mas sabe que por ter um perfil mais tímido e introvertido, nunca se sente confortável com a tarefa de se apresentar para os outros.

Entretanto, por mais que o excesso de encontros virtuais produza uma espécie de "fadiga do zoom", segundo a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), as videoconferências podem ajudar pessoas que sofrem, assim como T.J. de alguma timidez ou fobia social. "Essa pessoa vai se expondo e entendendo esses encontros online como menos desafiadores do que na vida real", afirma o psiquiatra Eduardo Perin, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental.

Mas ele alerta que, ainda assim, encarar a situação de exposição não é fácil. "Há pessoas cujo único medo é se apresentar em público, expor alguma coisa. A isso, damos o nome de fobia social de desempenho", explica. Em casos mais extremos, o comportamento pode se estender para o ato de escrever e até de comer diante dos outros, por exemplo.

Outro risco é esse medo acabar empurrando as pessoas para ficarem apenas no virtual, segundo ele. "É muito comum ver pessoas com fobia social que não têm nenhum amigo, mas que possuem quem converse com elas somente online", conta. "Quando essas pessoas se deparam com uma situação presencial, há a possibilidade de não conseguirem desempenhar". Ou seja, se tudo que a pessoa faz socialmente fica apenas no âmbito virtual, ela terá dificuldade de colocar isso em prática no mundo real.

O psicólogo Saulo Velasco, que tem pós-doutorado em psicologia experimental pela USP (Universidade de São Paulo) e ministra um curso sobre eloquência na School of Life de São Paulo, concorda: "O trabalho ou o estudo remoto corroem alguns elementos essenciais da socialização. Nos momentos de descontração, estabelecemos uma relação de sintonia e empatia com as pessoas que facilita a posterior apresentação de ideias, propostas e objeções. No lado remoto, as interações tendem a ser mais impessoais, frias e objetivas. Esse cenário pode aumentar o desconforto de se expor socialmente", diz.

Medo de falar em público

A sensação de quase pânico que T.J. experimenta é bastante comum e atinge até mesmo quem gosta deste tipo de exposição. "Falar em público é algo que a maioria das pessoas teme. Até quem é muito bom nisso costuma ficar ansioso quando há uma multidão de pessoas ouvindo", explica Velasco. De acordo com ele, o ser humano é um ser social e, por mais individualista que a vida possa parecer, é entrelaçada e dependente de outras pessoas, do nascimento à morte. "É natural temer, instintivamente, a crítica, o julgamento e a rejeição dos outros", diz ele.

Para o especialista, os sinais de desaprovação e rejeição acabam sendo interpretados por nós como "grandes ameaças à nossa integridade". Há, inclusive, estudos que mostram como a dor da exclusão social aciona, no cérebro, as mesmas áreas ativadas pela dor física. "A ansiedade em falar em público está relacionada à forma como superestimamos a nossa audiência. Ficamos intimidados quando imaginamos que as pessoas que nos escutam são extremamente cultas, inteligentes, críticas, perspicazes e atentas".

Superestimar a audiência é parecido com a visão que uma criança tem de um adulto".

Ainda que no caso das videoconferências essa ameaça possa diminuir, pois os sinais de desaprovação são menos perceptíveis, o mal-estar de quem se sente pressionado por essa tarefa social não some completamente. "Depois que tudo passa, sinto minha energia sugada", conta T.J.. "Nas reuniões de trabalho, deixo o protagonismo para outra pessoa. Este desconforto deve ser um dos motivos para eu 'fugir' de posições de destaque na equipe e não tenho dúvidas que pode atrapalhar até mesmo minha carreira", afirma.

Diante deste cenário, a pergunta que fica é: como melhorar a forma de lidar com a exposição social, ainda que através de videoconferências? Para o psicólogo Saulo Velasco, é preciso exercitar os pensamentos: "Nos sentimos inseguros ao falar em público porque conhecemos as nossas próprias fraquezas e dúvidas e presumimos que elas são óbvias para os outros", diz. "Contudo, o público também possui fragilidades, dificuldades e até teme ser constrangido".

Uma solução para enfrentar esse problema é imaginar o lado humano da audiência, rebaixar as expectativas que temos sobre ela e não a levar tanto a sério. Para o médico, outra orientação que ajuda a baixar a ansiedade é imaginar que "a audiência está psicologicamente nua", ou seja, sujeita às mesmas vulnerabilidades e inseguranças que o interlocutor. "Como são apenas humanos, provavelmente não notarão a maioria dos nossos deslizes e não se importarão se falarmos um pouco apressado, improvisado ou de forma coloquial. Especialmente se ficar claro que estamos nos esforçando para fazer com que eles entendam o nosso ponto", explica.

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