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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Desviar olhar em conversas pode ser timidez, medo e até autismo

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

06/05/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Esse comportamento se generalizou como sinônimo de falsidade ou mentira
  • Porém, pode ser decorrente de vergonha, medo, desconcentração e até transtornos
  • Quem se vê ignorado deve reavaliar a situação e quem desvia o olhar não deve esconder o que sente

Não conseguir fixar os olhos nos de outra pessoa por muito tempo para alguns pode ser interpretado como sinal de falsidade ou mentira, principalmente durante uma discussão de casal ou conversa com quem supomos não ir com a nossa cara. Esse julgamento ganhou força com a PNL (programação neurolinguística), um conjunto de técnicas psicológicas criado na década de 1970 para "decifrar" pensamentos humanos com base em movimentos oculares.

Não que a PNL pregasse que desviar os olhos é sinal de que alguém está escondendo alguma coisa, mas principalmente entre os recrutadores de empresas que passaram a aplicá-la, um dos conceitos, o de que olhar para o canto superior esquerdo poderia indicar uma tentativa de imaginar para responder algo, acabou se generalizando como sinônimo de se inventar lorotas.

Entretanto, de lá para cá estudos científicos, como um de 2012 feito por pesquisadores das Universidades de Hertfordshire e Edimburgo, ambas no Reino Unido, e da Colúmbia Britânica, no Canadá, demonstraram que não há indicativos concretos que possam atestar com absoluta certeza de que uma pessoa desvia o olhar quando tenta ser mentirosa. Especialistas consultados por VivaBem concordam e apontam causas muito menos comprometedoras.

Mentir? Só de vez em quando

Quando alguém não consegue nos encarar nos olhos, ou faz isso apenas por poucos segundos, pode ser que sinta muita vergonha, relacionada muitas vezes a um receio de ser julgada ou não saber lidar com interações sociais; ou esteja apreensiva, ainda mais numa situação de um primeiro encontro ou de uma entrevista de emprego; ou então acuada, como quando diante de alguém que impõe muito medo, respeito ou é famoso e admirado por muita gente.

"Mas pode ser, eventualmente, que a pessoa também esteja mentindo, porque o olhar é um contato, estabelece uma conexão com o outro, e quando se mente é natural desviá-lo por insegurança de ser 'desnudado' e pego pelo outro", afirma Marina Vasconcellos, psicóloga pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).

Outros problemas também poderiam explicar esse comportamento, como baixa autoestima e ainda submissão em excesso —que pode ter a ver com uma criação muito patriarcal, em que não se admite que mulheres e crianças olhem na face do homem para não afrontá-lo. Além disso, transtornos, como o de TPD (Transtorno de Personalidade Dependente), em que a pessoa se sente inferior aos outros a ponto de não discordar de nada nunca ou se submeter a exigências descabidas porque teme perder aprovação também entram em jogo.

Autismo e dificuldade de concentração

O contato visual também é diferenciado no TEA (Transtorno do Espectro Autista), sendo que quem está nele pode assumir um olhar ausente ou muito breve. Em alguns casos, essa característica se mantém pelo resto da vida, em outros não, e pode ser mais difícil olhar no olho principalmente de quem não faz parte do convívio pessoal. Mas não é uma regra, tanto que é frequente pais de crianças autistas reportarem em consultório que elas não os olham.

"O rastreio ocular sobre a face humana e em outras coisas, além do processamento de informação, é diferente no autista", aponta Yuri Busin, psicólogo, doutor em neurociência do comportamento e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental), em São Paulo (SP). Ele diz que bebês do espectro não olham nos olhos mesmo quando estimulados. Outro ponto a se destacar é que geralmente os autistas possuem dificuldades em relação às expressões faciais; eles não conseguem fazer uma boa leitura, o que dificulta a interação.

Entretanto, é de convir que interpretar linguagem não verbal enquanto se mantém o foco no olhar do outro e ainda pensar sobre o que vai ser falado naquele momento é uma tarefa que para qualquer um exige grande concentração. Segundo um estudo da Universidade de Tóquio, no Japão, publicado em 2016 na revista Cognition, a probabilidade de desviar os olhos é maior quando se tenta localizar na memória uma palavra ou termo não empregado com frequência.

Como reagir diante disso?

Desviar o olhar para alguém que fala com a gente não só abre brechas do tipo "não me dá atenção", "não se sente à vontade comigo", "não tem interesse no que falo", como pode prejudicar a pessoa que se comporta dessa maneira, mesmo que ela não faça por querer. Porém, sendo a parte que se vê "ignorada", sem informações suficientes a respeito do outro e agora a par dos muitos fatores que podem estar por trás, é preciso agir com racionalidade.

"Em todos os casos se faz necessário reavaliar as situações e os julgamentos, buscando uma resposta lógica. Para nós, terapeutas cognitivos comportamentais, pensamentos automáticos validam crenças que muitas vezes estão distorcidas", aponta Leide Batista, psicóloga pela Faculdade Castro Alves e com experiência pelo HC (Hospital da Cidade), em Salvador (BA).

Se é a parte que não consegue olhar diretamente nos olhos, tendo ciência dessa dificuldade ou já tendo sido questionada a respeito por alguém, o melhor a se fazer é agir com naturalidade, falar o que pode estar sentindo naquele momento, como timidez, nervosismo, um pouco de falta de concentração, e o mais importante para os especialistas: não tente atuar e ser quem você não é, pois até forçar um olhar fixo o tempo todo no rosto do outro pode incomodar.

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