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Adultos que moram com os pais podem ficar preguiçosos, medrosos e submissos

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Imagem: iStock

Marcelo Testoni

Colaboração para o VivaBem

08/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Para além da questão financeira, muitos adultos que moram com os pais também são dependentes psicologicamente
  • Mas também há filhos que moram com os pais porque querem companhia ou ajudá-los
  • Se esse adulto não colabora com os afazeres ou despesas, não se desenvolve e pode apresentar atitudes ou decisões muito infantis

Em alguns países da Europa, como Itália e Portugal, é comum os filhos morarem com ou perto dos pais, mesmo após a maioridade. Nos Estados Unidos já é o contrário, os americanos incentivam sua prole a sair de casa assim que os estudos terminam, para que adquira seu próprio dinheiro e enfrente o mundo. O Brasil mistura os dois cenários, mas a instabilidade econômica tem obrigado cada vez mais famílias a dividirem o mesmo teto.

"Para além da questão financeira, muitos adultos que moram com os pais também são dependentes psicologicamente, e é claro que isso não é bom para eles", diz Luiz Scocca, psiquiatra pelo HC-FMUSP (Hospital das Clínicas Hospital da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Segundo o especialista, resolver problemas diários por conta própria traz responsabilidades, resiliência e uma força de personalidade e de caráter necessários -o que seria perdido no caso de quem divide a casa com os pais.

Claro que não dá para generalizar e afirmar que todo filho com mais de 20, 30, 40 anos se encaixa nessa situação. Embora as pontuações de Scocca se baseiem em estudos e observações clínicas, os motivos variam e nem sempre tem a ver com falta de recursos próprios ou de maturidade e autonomia. Há filhos que moram com os pais porque querem companhia ou ajudá-los, quando doentes, sozinhos e idosos, por exemplo.

Sem regras ou responsabilidades

Morar na casa dos pais não sendo mais criança ou adolescente, porém, implica reconhecer que aquele espaço é uma conquista deles e que, se existem regras, é preciso respeitá-las. Então, se a rotina doméstica inclui arrumar o próprio quarto e dividir todas as tarefas, como lavar a louça, tirar o pó dos móveis e levar o lixo para fora, o filho precisa obedecer ou se prontificar a ajudar.

"Se esse adulto não colabora com os afazeres ou despesas, os problemas não são nem futuros, mas presentes, e podem repercutir em dificuldades para gerir as próprias finanças, relacionar-se, estabelecer a própria família e até criar filhos", adverte Blenda de Oliveira, psicóloga e psicanalista pela SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo). De acordo com ela, nessa situação o adulto não se desenvolve e pode apresentar atitudes ou decisões muito infantis.

Ócio demais também produz déficits de autocontrole e senso de compromisso e colaboração. Assim, apenas ao sair do ninho a pessoa irá sentir as consequências, e o aprendizado pode ser muito difícil caso ela tenha se tornado espaçosa, egoísta, medrosa e sem iniciativa ou ambições.

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Não aceitar as preferências e o estilo de viver do filho pode torná-lo reprimido, submisso, mentiroso, isolado socialmente, ansioso, estressado, depressivo, insubordinado e agressivo
Imagem: Getty Images

Privacidade precisa ser conquistada

Pais mandões, invasivos ou que fazem escolhas pelos filhos também não colaboram para que eles adquiram autonomia e coragem para sair de casa e, consequentemente, prejudicam demais sua privacidade relativa ao espaço e emocional. Não aceitar as preferências e o estilo de viver do filho pode torná-lo reprimido, submisso, mentiroso, isolado socialmente, ansioso, estressado, depressivo, insubordinado e agressivo.

"O filho terá que conversar e delimitar seu espaço, mas precisa conquistar essa privacidade e autonomia que tanto deseja. É um processo de construção gradual e que envolve tomar uma decisão. Mas não precisa ser abrupto nem violento, com discussões ou brigas", informa Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento e diretor do Casme (Centro de Atenção à Saúde Mental - Equilíbrio), em São Paulo.

Claro que a casa sendo dos pais existem limites e eles não precisam tolerar tudo, mas não é saudável que alguém querendo o bem do próprio filho exija dele que se comporte como uma marionete e que não tenha uma vida social, prazeres, um emprego ou opiniões e vontades próprias. Filhos são criados para um dia tomarem seu rumo e isso significa orientá-los e deixar que se descubram, tomem decisões próprias, errem e arquem com as próprias consequências.

Pai, mãe, estou indo embora

Se existem pais que controlam filhos que não conseguem se virar sozinhos, há ainda aqueles que procuram dominar os que desejam debandar de vez ou que acabaram de deixar o ninho. Em geral, no bastidor desse cerceamento todo, se esconde uma preocupação excessiva, um sentimento de não ter sido um bom cuidador, medo de se ver sem companhia e ter que se reinventar ou uma distorção de que o filho não cresceu.

"Esse comportamento controlador [somado a chantagens, recursos emocionais] acaba sendo um complemento para desencorajar o filho, e isso aprofunda ainda mais a situação, ficando mais difícil sair dessa teia", diz Eduardo Perin, psiquiatra pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Quebrar esse ciclo depende unicamente do filho, que se tiver dificuldade para se impor, se esforçar e tomar uma iniciativa, pode buscar a ajuda de um psicólogo. Preparado, se após conversar várias vezes com os pais e explicar a importância desse rito de passagem não funcionar, pode se pedir então o apoio de pessoas próximas da família para tentar convencê-los e já fora de casa demonstrar, na prática, com conquistas, a capacidade de se viver sozinho.

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