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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Por que na idade adulta repetimos atitudes que criticamos em nossos pais?

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Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

06/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Um conjunto de comportamentos pode ser passado de forma hereditária
  • Quanto menor o repertório de comportamentos, maiores as chances de os pais serem os únicos exemplos
  • O medo de mudanças e de sair da zona de conforto também impacta nessa repetição de padrões
  • Questionar os próprios comportamentos e até a psicoterapia são grandes aliados nessa quebra de paradigmas

De um jeito específico de lidar com dinheiro —esbanjando, abusando da mesquinhez ou vivendo em dificuldades financeiras — até a mania de reclamar, dar bronca nos filhos na hora da lição de casa ou se comportar em relacionamentos afetivos. Muitas pessoas, em algum momento, vão reproduzir um hábito ou comportamento familiar que nunca apreciaram.

Nem sempre é fácil se dar conta disso: em geral, alguém de fora (marido ou mulher, por exemplo) chama a atenção para a repetição com frases em tom de crítica como: "Você está parecendo a sua mãe!" ou "Com esse tipo de pensamento você só podia mesmo ser filho do seu pai!". É comum levar um susto ao tomar consciência de que justamente aquilo que tanto criticava ficou enraizado dentro de si.

Se há incômodo com isso, a boa notícia é que se trata de um padrão que pode ser quebrado. Primeiro, porém, é preciso entender por que tanta gente repete na idade adulta ações e características que, nos pais, lhes causaram —e talvez ainda causem — desgosto.

Cada família pode ser vista pela ótica de um sistema único, um conjunto de crenças de comportamento que direcionam maneiras de aprender e enfrentar a vida. "Para cada tema, cada família pode atribuir um valor diferente e um sentido único de se relacionar com aquilo. Essa dinâmica e conjunto de comportamentos podem ser passados de forma transgeracional, tendo a origem em nossos antepassados. Por isso, muitas vezes é difícil detectar por que e como você iniciou tal padrão. De maneira direta ou indireta, para auxiliar no processo de desenvolvimento e aprendizado, os pais acabam transmitindo os valores desse sistema familiar para os filhos", diz Giovana Rossi Lenzi, coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Santa Catarina, em São Paulo (SP).

O psiquiatra Nikolas Heine, membro do corpo clínico do Hospital 9 de Julho, em São Paulo (SP), endossa a tese epigenética levantada por Lenzi: "O DNA tem inúmeras informações. Ao longo da vivência, parte das informações inibidas passam a ser expressas e outras não, mas todas elas são passadas aos filhos pela genética". Segundo ele, às vezes o comportamento permanece, mesmo sendo disfuncional, porque a pessoa não consegue mudar o que está em seus genes.

pai, filho, raiva - iStock - iStock
Repetir comportamentos dos pais é comum e, felizmente, pode ser quebrado
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Falta de repertório, medo e fidelidade à família

Outro fator a ser levado em consideração é a ligação entre a reprodução de certas atitudes, mesmo que negativas, e ausência de repertório. "Vamos supor que um jovem more até os 20 anos, em média, com os pais. Na sua iniciação na vida adulta, algumas condutas se repetem porque são os únicos comportamentos disponíveis no repertório daquele indivíduo, porque deu certo com ele até ali", diz Heine.

De acordo com o psiquiatra, como não há um repertório grande de comportamentos nessa fase da vida, em alguns casos, o indivíduo faz o que sempre criticou nos pais. "Ele não tem outros exemplos de comportamentos disponíveis e que seriam adequados dentro das mesmas dimensões moral, ética e de valores. Outras ações trariam consequências desconhecidas", diz.

O medo é um elemento importante do mecanismo por trás do mimetismo. Para Danielle H. Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e psiquiatra da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), é mais fácil psiquicamente que esses comportamentos sejam reproduzidos do que quebrados, ou seja, é mais fácil viver e manter um padrão conhecido do que sair da zona de conforto. "Isso requer esforço e coragem para mudar, e não são todos que conseguem. Romper algo que incomoda é mais trabalhoso do que manter como está", pontua.

Já Flávia Teixeira, psicóloga, mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e professora de pós-graduação em psicologia hospitalar na mesma instituição, destaca que a fidelidade aos pais, ainda que inconsciente, pode ser um obstáculo na quebra da repetição. "Reproduzir o modelo de nossos pais pode ser uma maneira de nos manter unidos e nos sentirmos amados por eles", diz ela.

Segundo Teixeira, a possibilidade de fazer diferente gera o medo, mesmo que inconsciente, de perder esse amor pelos pais e de sofrer rejeição. Seria como se existisse uma associação entre fazer diferente e ter que romper com as figuras parentais. "Porém, somos indivíduos, cada um com suas características próprias. Quando nos permitimos nos conhecer melhor, percebemos que podemos nos diferenciar, fazer diferente de nossos pais, sem necessariamente ter que romper a relação com eles", explica.

casal, briga - iStock - iStock
Geralmente, o indivíduo se dá conta da repetição de padrões quando ouve do parceiro frases como "Você está parecendo a sua mãe!" ou "Com esse tipo de pensamento você só podia mesmo ser filho do seu pai!"
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Como lidar com o padrão sem causar sofrimento?

De acordo com Heine, não há padrão geracional mais importante do que a tentativa de quebrar padrões. "Entra geração, sai geração e os jovens sempre quebram os padrões da época, aquém das expectativas dos mais velhos. Esse é um padrão absoluto da humanidade".

Mas o psiquiatra diz que é importante não deixar que esses padrões se tornem obrigatórios, tanto no sentido de quebrá-los quanto de mantê-los. Ele sugere deixar de encarar como algo negativo a repetição ou a manutenção desses paradigmas. "O ideal é deixar esse repertório disponível para a compreensão, sem abrir mão da possibilidade de mudança quando nos sentirmos confortáveis o suficiente", diz.

Propor a si mesmo um exercício de autoconhecimento também é importante para reconhecer necessidades, demandas e valores e avaliar a maneira com que se gostaria de se relacionar consigo mesmo e com o outro. "Isso ajuda a identificar se o valor que você está atribuindo a algum fato ou situação tem a ver com suas questões e realmente lhe importa ou, ao contrário, trata-se de um modelo aprendido que está sendo repetido", diz Teixeira. Perguntas norteadoras podem ajudar nesse processo, como "Isso é meu ou do outro? Dos meus pais? Da sociedade? Tem sentido? O que é importante para mim? De onde vem o valor para que isso se torne importante para mim?"

Se o processo for doloroso demais ou a repetição tiver consequências sérias para os relacionamentos interpessoais, a psicoterapia é uma boa ideia. "Ela promove um ambiente seguro para refletir a origem desses comportamentos, sem julgamento. Desse modo, é possível descobrir a origem dentro daquela cultura familiar, do contexto em que surgiu e como a sociedade pode ter favorecido a continuidade daquele padrão", diz Lenzi. Segundo ela, a reflexão traz consciência e torna mais fácil o desenvolvimento de estratégias para quebrar o padrão de forma mais gradual e menos danosa.

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