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Relações, objetos: como praticar o desapego quando algo já não serve mais

Priscila Barbosa/VivaBem
Imagem: Priscila Barbosa/VivaBem

Heloísa Noronha

Colaboração para o VivaBem

23/02/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Há quem diga que apegar-se às coisas e pessoas é inerente ao ser humano
  • Mas se desapegar de relacionamentos amorosos e amizades tóxicos, assim como de objetos que não têm mais valor emocional, pode fazer bem
  • O temor frente ao desconhecido é uma justificativa --nem sempre consciente -- para tanta gente não praticar o desapego emocional em situações ruins

O psicólogo e psicanalista britânico John Bowlby (1907-1990) definiu o apego como um sentimento inato ao ser humano. Conforme seus estudos, nos aproximamos das pessoas de maneira instintiva para criar vínculos que possam ser úteis tanto para nós quanto para os outros. O problema é quando não só essas relações, mas objetos, projetos ou até um emprego não trazem mais algo positivo, e desapegar deles se torna mais difícil do que se pensava.

As primeiras experiências de apego na infância, somadas a interações com os primeiros cuidadores, funcionam como um modelo para os demais vínculos formados ao longo da vida. Por essa razão é mais complicado para algumas pessoas se desfazer de certas coisas ou findar algumas relações.

"Os seres humanos funcionam de forma mais confortável e segura quando têm previsibilidade. Qualquer mudança nos apresenta algo desconhecido e que não podemos associar como bom ou ruim. Assim, indivíduos com inseguranças elevadas e que se percebem vulneráveis frente ao novo seguem com repetição de comportamentos", diz Vanessa Karam, psicóloga da BP (A Beneficência Portuguesa de São Paulo).

De fato, uns são mais resistentes ao desapego do que outros. Isso depende de como foram construídas as primeiras relações, dos acontecimentos no campo afetivo, dos processos de lutos que teve durante a vida e de como foram elaborados, entre outros fatores. "Inclusive, para uma mesma pessoa, o processo de desapego de situações, de objetos ou de pessoas pode ser diferente conforme o tempo em que ocorrem e da sua representação para ela", diz Silvia Maria de Moraes Gonçalves, coordenadora das equipes de psicologia dos hospitais São Luiz Jabaquara e Hospital da Criança da Rede D'Or São Luiz.

É preciso vencer o medo do desconhecido

O temor frente ao desconhecido é uma justificativa —nem sempre consciente — para tanta gente não praticar o desapego emocional em situações ruins, como um relacionamento infeliz, uma amizade tóxica, um emprego insatisfatório, um projeto que não faz mais sentido e até mesmo um vínculo familiar abusivo.

"Ainda que sob uma situação de intenso sofrimento, algumas pessoas resistem com certa frequência ao que se chama de rompimento de vínculo. Há uma tendência de manutenção de uma situação, ainda que desagradável, porque essa situação já é conhecida. O medo do 'como será' pode ser maior do que o desejo de romper com o vínculo daquilo que gera sofrimento", declara Natalia Pavani, psicóloga do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP).

A especialista destaca que o que mantém esse tipo de vínculo não é o sofrimento, mas algum legado do relacionamento. Ou, ainda, expectativas ou esperanças para o futuro, que, muitas vezes, podem ser ilusórias e infundadas.

A psicóloga Flávia Teixeira observa que pensar em desapegar ou romper pode remeter à perda. Algumas pessoas ficam assustadas com a possibilidade de lidar com a perda e de não saber enfrentar a ausência, mesmo nos relacionamentos e nas situações não favoráveis. "A forma como a pessoa lida com a perda vai facilitar, ou não, o rompimento de uma relação ou de uma situação nociva", pontua ela, que é mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e professora de pós-graduação em Psicologia Hospitalar na mesma instituição.

Outro medo bastante comum é a pessoa se "desapegar" de si mesma, daquilo em que se reconhece, para se transformar na pessoa que gostaria de ser. Para Pavani, o primeiro passo para desapegar de algo ou alguém consiste na mudança que acontece internamente, que inclui a possibilidade de se desapegar inclusive de comportamentos pessoais e visões de mundo nocivas para si mesmo.

"É necessário aceitar e acolher essa nova pessoa que podemos nos tornar"

Vale entender que, para cada perda, há um ganho. Novas possibilidades surgem quando as pessoas se desprendem de relacionamentos, empregos e situações que até então não estavam sendo positivas e benéficas.

Muitos objetos também possuem representações afetivas, por isso o ato de se abrir mão deles costuma ser tão difícil quanto o emocional. Quando as dificuldades afetivas são elaboradas e cuidadas, permitir que essas lembranças partam se torna um processo mais simples. "É importante ressaltar que não precisamos nos livrar de lembranças materiais, assim como das cicatrizes deixadas nos relacionamentos. Elas nos constituem como humanos. Podemos, sim, conviver melhor com elas, buscando sempre relações afetivas que nos alimentem e nos promovam enquanto sujeitos", observa Gonçalves.

É natural o medo do que podemos nos tornar após abrir mão de pessoas ou de relacionamentos disfuncionais, como se não fôssemos capazes de lidar sozinhos com as situações que a vida nos apresenta. Mas é possível encontrar um novo sentido, estabelecer novas relações e se sentir mais forte.

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