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Médica venceu o câncer e agora atua na linha de frente da covid-19

Renata Turbiani

Colaboração para VivaBem

31/01/2021 04h00

Em 2017, quando estava no quarto ano do curso de medicina na Unimes (Universidade Metropolitana de Santos), em Santos, no litoral sul de São Paulo, Giovana Mara Manzari Pascoal, 37, foi diagnosticada com câncer de mama. Sem casos na família, ela conta que não tinha o hábito de fazer o autoexame e nunca imaginou que teria a doença, ainda mais tão precocemente —na época, estava com 34 anos.

"A forma como descobri foi bem inusitada. Vesti um pijama sem passar e, quando fui alisar a blusa, para dar uma assentada no corpo, senti um caroço no seio direito. Parecia que estava apalpando uma azeitona chilena, aquelas pretas bem grandes. Na hora já soube que tinha algo errado", conta.

Na manhã seguinte, ela participaria de uma aula prática na Santa Casa de Santos, o hospital-escola da faculdade onde estudava, e pediu dispensa para o professor para poder se consultar com um ginecologista.

Durante o atendimento, o médico constatou que havia mesmo um nódulo, mas tentou tranquilizá-la, dizendo que seu histórico familiar e idade eram fatores positivos.

Nada disso adiantou. Com medo do pior, Giovana, no mesmo dia, marcou um ultrassom em uma clínica particular. O resultado foi uma lesão sólida de três centímetros de diâmetro. "Os tumores cancerosos, no geral, têm bordas bem irregulares e o meu era extremamente homogêneo e redondinho, o que, a princípio não indicava malignidade. Era mais um ponto a meu favor", recorda.

Um pouco mais confiante, a médica foi se consultar com um grande amigo mastologista, em São Paulo. Pelo fato de seu nódulo ser palpável, ele solicitou uma biópsia. O procedimento foi realizado em Santos, onde ela mora, e o laudo patológico foi emitido por um dos seus professores da faculdade.

"Quando o resultado saiu, ele me ligou pedindo o contato do mastologista. Na hora entendi que não era coisa boa. Não quis acreditar, mas sabia que não era. Precisei fazer mais alguns exames e veio a confirmação: câncer, com o tumor dependente de estrógeno. Isso significa que ele foi causado por uma indução hormonal do meu próprio organismo."

Os médicos de Giovana decidiram que o melhor tratamento seria a quimioterapia. O plano traçado foi de oito sessões a cada 15 dias, com o objetivo de diminuir o tamanho do tumor para depois fazer a mastectomia (cirurgia de retirada total da mama).

Tudo seguia como o planejado até que, quase no final da terapia, um novo susto. No dia da sétima sessão, a até então estudante de medicina acordou com uma dor abdominal forte. Era apendicite, condição que só é resolvida cirurgicamente.

"Quem faz quimioterapia, fica imunodeprimido, ou seja, mais suscetível a infecções. Operar nessa situação não é nada recomendável, mas no meu caso não havia opção. Era fazer ou fazer, mesmo sabendo que corria risco."

Cerca de 15 dias depois, recuperada desse quadro, retornou o tratamento do câncer e, logo depois, partiu para a mastectomia. O procedimento foi feito de forma bilateral, no seio direito para retirada do tumor e no esquerdo como medida preventiva. Ela também colocou próteses mamárias.

Espelhos cobertos em casa

Giovana Mara Manzari Pascoal venceu o câncer e agora atua na linha de frente da covid-19 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Entre a descoberta da doença, em março de 2017, e a retirada da mama, quase sete meses se passaram. Para Giovana, um dos piores momentos foi quando seu cabelo caiu. "Não sou uma pessoa super vaidosa, mas com o cabelo é diferente. Sofri bastante com isso e em nenhum momento quis me ver careca. Em casa, os espelhos ficavam cobertos. Nesse período, usei uma prótese capilar, espécie de peruca que é fixada no couro cabeludo."

Difícil também foi lidar com a dor provocada pela cirurgia e aceitar o novo corpo. "O pós-operatório é bastante penoso, senti dores horríveis. E, depois, vivi aquela fase de me olhar e não me reconhecer, de saber que não tenho mais seios, e sim próteses", desabafa.

Mas em outubro do mesmo ano, finalmente, ela teve motivos para celebrar: recebeu a notícia de que estava curada do câncer. Apesar disso, o tratamento continua, para evitar uma recidiva —durante dez anos, ela terá de tomar uma quimioterapia oral e, a cada seis meses, passar por consultas e fazer exames de sangue e imagem.

E neste processo todo, mesmo lidando com as reações da terapia, Giovana decidiu que levaria a vida da forma mais normal possível e não pararia os estudos. "Sabia que iria superar essa fase e segui fazendo minhas atividades. Os médicos queriam que eu deixasse de frequentar as aulas, para não correr o risco de pegar uma infecção, mas já entrei na faculdade depois dos 30 e, se ficasse um ano parada, perderia muito tempo", comenta.

Com a ajuda da coordenação da Unimes e dos professores, que alteraram datas de provas e enviaram vários conteúdos para ela estudar em casa, e dos colegas de sala, que gravaram as aulas para que não perdesse nada, conseguiu se formar em 2019.

A troca de aventais

Giovana Mara Manzari Pascoal venceu o câncer e agora atua na linha de frente da covid-19 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Giovana, terceira da esq. à dir., em frente a hospital de campanha
Imagem: Arquivo pessoal

Médica generalista por enquanto —sua meta é se especializar na área de endoscopia digestiva—, ela, assim que a pandemia do novo coronavírus começou, não pensou duas vezes e se colocou à disposição para atuar na linha de frente.

A contragosto da família, que não queria que ela se expusesse ao vírus, já que ainda segue em tratamento do câncer, Giovana foi trabalhar no Hospital de Campanha Guarujá, construído na Base Aérea de Santos, no Complexo Hospitalar da Zona Noroeste e no Hospital de Campanha da Afip Medicina Diagnóstica, todos em Santos.

Atualmente, atende na UPA Zona Leste, na mesma cidade, e na UPA Enseada, em Guarujá. "Quando fiquei doente, troquei o avental de médica pelo de paciente, então, sei o que as pessoas estão sentindo. E fora que cuidar do outro é a minha profissão, não tinha como não contribuir nesse momento, mesmo tendo que ficar afastada da minha família", afirma, acrescentando que, em 2020, só conseguiu encontrar pessoalmente os pais e a irmã duas vezes e não pode participar do velório e do enterro da avó.

Segundo Giovana, quando os primeiros casos surgiram, foi bem assustador: "Ninguém conhecia direito a doença e os pacientes evoluíam negativamente muito rápido. Levou um tempo para os protocolos de tratamento serem criados. Também foi triste ver os amigos e os colegas de trabalho adoecendo".

Sua preocupação agora é com o aumento no número de infectados. "Não sabemos como vai ser daqui para a frente, é tudo muito incerto, até mesmo em relação a minha profissão. Todos falam que estamos vivendo um novo normal, mas para mim isso não tem nada de normal", completa.

Quimioterapia oral

De acordo com o Inca (Instituto Nacional do Câncer), a "quimioterapia é um tratamento que utiliza medicamentos para destruir as células doentes que formam o tumor". Nem todo mundo sabe, mas, além das administrações intravenosa (pela veia), intramuscular (pelo músculo) e subcutânea (pela pele), ela pode ser tomada via oral (pela boca).

"O seu uso se dá através de comprimidos, cápsulas ou líquidos e o protocolo a ser seguido vai depender do tipo de câncer e do seu estadiamento. Inclusive, pode ser indicada de forma preventiva, para evitar recidiva e doença metastática", explica Fernando Maluf, diretor médico associado do centro oncológico da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Para ele, a principal vantagem da quimioterapia oral é que ela proporciona mais conforto ao paciente, pois é tomada em casa —claro que sempre seguindo as orientações e com acompanhamento frequente.

Especialmente neste período de pandemia de covid-19, isso se torna mais importante, pois evita que a pessoa tenha que ir várias vezes ao hospital ou à clínica para receber as infusões.

Vale salientar que, assim como os demais tipos de quimioterapia, a oral pode ter efeitos colaterais. No caso de Giovana, ela teve sintomas parecidos com os da menopausa. "Às vezes, sinto ondas de calor e irritabilidade, mas apenas isso", finaliza a médica.

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