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"Meu filho nasceu de 6 meses, pesando 730 g e ficou 7 meses internado"

Bárbara Therrie

Colaboração para VivaBem

10/01/2021 04h00

A enfermeira Tatiane dos Santos Santiago, 36, estava em meio aos preparativos da chegada do primeiro filho, Caio, quando teve uma crise hipertensiva e foi diagnosticada com pré-eclâmpsia. Após alguns dias internada, ela teve um parto prematuro aos seis meses de gestação. Como mãe de UTI, ela conta a experiência do período em que o filho ficou hospitalizado, incluindo os dias em que ela não pôde visitá-lo por ter contraído coronavírus. Conheça a história deles:

"Após 17 anos juntos, eu e meu marido, o Almir, decidimos ter um filho. Eu engravidei já na primeira tentativa, fiquei assustada ter sido tão rápido, mas muito feliz pela novidade. Assim que descobri a gravidez, já comecei a fazer o pré-natal.

No início, foi tudo tranquilo, não tive nenhum sintoma, até brincava que se fosse sempre assim eu iria ter meia dúzia de filhos (risos). Mas a partir da 12ª semana de gestação até o final, tive algumas intercorrências.

A primeira foi ser diagnosticada com síndrome do túnel do carpo, depois peguei uma gripe, que descobrimos mais tarde, acabou passando para o bebê e, por último, tive a pré-eclâmpsia, mesmo não tendo histórico de pressão alta.

Durante a gestação, os ultrassons mostravam que o Caio estava bem, ganhando peso e crescendo conforme a idade gestacional. A data prevista do parto era 17 de abril de 2020.

Tatiane dos Santos Santiago teve parto aos 6 meses de gestação - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Apesar dessas intercorrências terem me deixado ansiosa e nervosa, procurei curtir a gravidez e seguir a minha programação. Comprei o enxoval e já tinha marcado o chá de bebê e o ensaio de gestante para fevereiro.

No entanto, as coisas começaram a mudar a partir do dia 2 de janeiro. Acordei bem, passei o dia fazendo algumas coisas artesanais para a decoração do quarto, quando fui deitar por volta de umas 16h. Ao acordar, umas 18h40, não estava enxergando. Aos poucos minha vista foi voltando, mas via umas estrelinhas de fundo.

Liguei para a minha obstetra, ela me pediu para medir a pressão, estava 17 por 11, e mandou eu ir para o hospital. Meu marido chegou em casa e nós fomos.

Chegando lá, a pressão já estava em 18 por 11, fiz alguns exames e fui diagnosticada com pré-eclâmpsia. A médica disse que eu teria que ficar internada até o nascimento do Caio, em abril. Minha primeira reação, ao saber que teria que ficar três meses no hospital, foi pensar nas várias coisas que ainda tinha para fazer, terminar o quarto do Caio, fazer o chá de bebê, o ensaio.

A médica explicou que, além do descolamento precoce da placenta, da própria gravidade da síndrome hipertensiva e também pelo grau de sofrimento do feto, eu poderia ter um parto prematuro. Segundo ela, eu e o Caio poderíamos estar em risco, eles tentariam salvar nós dois, mas a prioridade seria a mãe.

Foi assustador ouvir isso, mas depois lembrei do caso do meu sobrinho, que nasceu prematuro de sete meses, ficou uns dois meses internado, ganhou peso e foi para casa.

Durante os dias em que fiquei internada, fazia exames diariamente e controlava a pressão com medicação. Estava indo tudo bem, mas no dia 16 de janeiro, tive alteração na pressão e nos exames de rins. A médica disse que seria necessário fazer uma cesárea de emergência.

Fiquei pensativa já me perguntando sobre o futuro: 'Como vai ser depois que o Caio nascer, como vou cuidar dele?'. Eu e meu marido fizemos oração pedindo a proteção de Deus e fomos para o centro cirúrgico.

Tatiane dos Santos Santiago teve parto aos 6 meses de gestação - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

O Caio nasceu no dia 16 de janeiro de 2020, com 730 gramas e 32 cm, com seis meses de gestação. Só o vi dois dias após o nascimento. Confesso que até foi melhor, a única coisa que pensava era: 'Vou ver o Caio bem pequenininho e, se ele não aguentar, e morrer perto de mim?' Quando o vi na incubadora, aquele medo de perdê-lo só se intensificou, ele era muito frágil.

Como ele era um bebê com extremo baixo peso, os médicos aguardaram 72 horas para começar a fazer os exames. O Caio ficou sete meses internado, quatro só na incubadora e cinco meses só de notícias ruins. Cada dia era uma emoção.

Tanto por causa da gripe que passei para ele quando estava grávida, como pela prematuridade, ele teve várias complicações: citomegalovírus, barriga distendida, desconforto respiratório, insuficiência renal, anemia, hemorragia na cabeça, retinopatia...

Além de tudo isso que ele foi tratando com o tempo, ainda pegou duas infecções hospitalares e foi submetido a três procedimentos: correção cirúrgica da hérnia inguinal dos dois lados, colocação de um dreno no abdome, e retirada de líquido nos testículos.

Para completar, em maio, eu e meu marido pegamos covid-19, e não pude visitar meu bebê durante 21 dias. Foi um momento muito difícil para mim.

Ser mãe de UTI é algo inexplicável, é viver na adrenalina de estar numa montanha russa. Comemorava cada conquista, nos seus mínimos detalhes, se ele fazia xixi, cocô, se tomava leite. Celebrei muito quando pude pegá-lo pela primeira vez no colo, no meu aniversário de 36 anos.

Tatiane dos Santos Santiago teve parto aos 6 meses de gestação - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Com o tempo, o Caio foi melhorando e recebeu alta no dia 8 de agosto. Ele foi para casa com o balão de oxigênio e serviço de home care. Nos primeiros dias, eu e meu marido nos revezávamos e não dormíamos porque ficávamos olhando para ele para ver se ele estava respirando bem. O medo passou e ficamos confiantes de que estava tudo ok.

Em relação aos cuidados, seguimos a mesma rotina do hospital, com os horários das mamadas, da comida e do banho.

Graças a Deus o Caio não ficou com nenhuma sequela, mas faz acompanhamento com pediatra, imunologista, neurologista, oftalmologista, hepatologista e clínica genética. Os médicos acreditam que, entre os dois e três anos, ele já vai conseguir acompanhar as crianças da idade dele.

Sem planejar, acabei engravidando, vamos ter uma menina! Estou fazendo o pré-natal de alto risco. A data prevista de nascimento da Lívia é 20 de junho de 2021, estou com muito receio e medo de ter um outro parto prematuro, mas com a esperança de que dará tudo certo".

5 perguntas sobre prematuridade

1) Quais as principais causas da prematuridade?
A taxa de prematuridade no Brasil é em torno de 12%, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Ministério da Saúde. Existem vários motivos que podem levar à prematuridade, como as patologias maternas: doenças uterinas (miomas, colo do útero curto), infecção urinária na gestação, infecções sexualmente transmissíveis, infecções adquiridas na gestação e que podem causar infecções congênitas (citomegalovirose e toxoplasmose), gestação múltipla e idade materna (mães adolescentes ou gestantes com mais de 35 anos). Diabetes gestacional, malformações fetais, ruptura prematura das membranas ovulares, hipertensão arterial crônica e doença hipertensiva da gravidez (DHEG - tipo de hipertensão que ocorre após a 20ª semana de gestação) também são motivos que podem levar ao parto prematuro.

2) É possível evitar um parto prematuro?
É possível preveni-lo, tudo começa com um bom pré-natal. O acompanhamento com o obstetra deve incluir, no mínimo, uma consulta mensal, na qual o médico irá acompanhar o desenvolvimento do feto, bem como o estado de saúde da gestante, podendo detectar precocemente sinais de patologias que podem causar o parto prematuro. É necessário a realização dos exames de ultrassonografia para seguimento do crescimento e desenvolvimento do feto, possibilitando o diagnóstico precoce de malformações fetais que possam predispor ao parto prematuro.

3) Os órgãos do bebê prematuro estão formados, mas ainda são imaturos?
Geralmente, existe uma imaturidade no funcionamento de todos os órgãos e sistemas, especialmente pulmonar, renal, cardíaco e digestório. Além disso, a pele do prematuro extremo exige cuidados --por ainda não fazer o total controle de temperatura e água, por isso, as incubadoras auxiliam no controle da temperatura e evitam a perda de água e calor do recém-nascido. As retinas do bebê prematuro também são imaturas e não estão completamente formadas --quanto mais prematuro mais imatura são, completando sua formação fora do útero e, por isso, esse processo precisa ser acompanhado por oftalmologistas especializados nesse seguimento. Após o nascimento, o desenvolvimento dos diferentes órgãos e sistemas continua e será mais adequado quanto mais favorável for o ambiente pós-natal e mais especializados forem os cuidados intensivos na UTI neonatal.

4) Quais as chances de um bebê prematuro sobreviver?
Com os avanços da medicina perinatal e neonatal nos últimos anos, as taxas de sobrevida dos recém-nascidos prematuros têm sido cada vez melhores. É importante lembrar que as taxas são melhores se relacionadas à maior idade gestacional do bebê ao nascer. Não é obrigatório que um bebê prematuro venha a ter sequelas, mas alguns podem ter problemas respiratórios, nutricionais, oftalmológicos, auditivos e neurológicos.

5) Quais os principais cuidados com um bebê prematuro?
Todo recém-nascido demanda cuidados especiais, uma vez que depende de outra pessoa praticamente 100% do tempo, em virtude da sua fragilidade, dependência de nutrição e higiene, ainda mais os prematuros. Devido à imaturidade de sua sucção e deglutição, bem como da coordenação destas funções com a respiração, maior atenção deve ser dada nas mamadas quanto ao risco de engasgos. Os bebês prematuros também são mais propensos ao refluxo gastroesofágico, portanto, é necessário um cuidado maior com o posicionamento. O mais indicado é mantê-lo em uma posição com o tronco mais elevado após as mamadas.

Os prematuros também tendem a ser mais sonolentos, por isso, precisam ser despertados e estimulados nos horários de mamada. Eles também são mais vulneráveis a processos infecciosos, o que requer uma melhor higiene de seus utensílios e de seus cuidadores no manuseio desses materiais. Os cuidados pós-alta do hospital demandam serviços focados, como estimulações motora e respiratória, acompanhamento mais frequente com pediatra e até mesmo de outros especialistas, como neuropediatra, oftalmologista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.

Fonte: Silvana Darcie Maccagnano, pediatra e neonatologista da UTI Neonatal do Hospital e Maternidade Santa Joana (SP).

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