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Polifarmácia: uso contínuo de remédios em excesso pode prejudicar idoso

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Marcelo Testoni

Colaboração para VivaBem

30/10/2020 04h00

Para muitas pessoas, quanto mais a idade avança maior também é quantidade de remédios que elas passam a usar —isso sem contar os suplementos de venda livre. Não é uma regra, mas tende a acontecer, principalmente porque depois dos 65 anos há uma incidência elevada de doenças e problemas crônicos diversos. Entre os mais comuns, cardiovasculares, pulmonares, diabetes, osteoporose e Alzheimer.

Contudo, aumentar o consumo de medicamentos nem sempre pode ser a melhor saída para se combater um batalhão de enfermidades e processos degenerativos. Esse assunto é debatido desde 1990, quando fármacos que requerem ser evitados nas prescrições de pacientes idosos começaram a ser listados com supervisão da American Geriatrics Society (AGS), que também assumiu o compromisso de atualizá-los com frequência e alertar para os riscos da polifarmácia.

O que cura também pode prejudicar

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Polifarmácia vem do grego. "Polýs" significa "muitos" e "pharmakon" tanto "remédio" como "veneno". "Atualmente, é um conceito definido para o uso diário de um número alto de medicamentos. Geralmente, de cinco em diante, o que requer acompanhamento médico regular e cuidados redobrados", explica Natan Chehter, geriatra da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) e da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Os gregos realmente sabiam sobre "pharmakon". Se de um lado o uso contínuo e elevado de remédios pode ser necessário para tratar diferentes condições clínicas, do outro também tem potencial para causar riscos e agravos diversos. A polifarmácia pode aumentar a probabilidade de interações medicamentosas e reações adversas, de erros de medicação, além de dificultar a adesão e eficácia de tratamentos e, em casos mais graves, causar intoxicações e até matar.

De acordo com um artigo da Escola de Enfermagem da USP (Universidade de São Paulo) publicado na Revista Brasileira de Enfermagem e que analisou o "fenômeno da polifarmácia" em idosos, a conclusão é de que entre essa população o uso de medicamentos é "epidêmico" e se agrava ainda mais quando são adquiridos remédios sem receita ou com prescrição inadequada, seja por desconhecimento médico ou falta de opção nos postos de saúde.

Combinações e efeitos perigosos

Comprometimento da mobilidade e da cognição, diarreia, vertigem, azia, tremores. Esses são alguns dos sintomas reportados e relacionados ao uso indevido e excessivo de medicamentos e sua interação com outros compostos, com o próprio corpo ou com a alimentação. É isso para pior, ou então queixas sobre falta de efeito, pois os princípios ativos também podem se anular.

"Em se tratando de reações adversas, aumentam o risco delas em idosos os antidepressivos, anti-inflamatórios, medicamentos para problemas cardiovasculares, como anti-hipertensivos e diuréticos, além de analgésicos opioides, laxativos e anticoagulantes", pontua Daniely Saad Rached, médica da Cia. da Consulta e especialista em medicina de família e comunidade pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba).

O FDA (Food and Drug Administration), que regula a utilização dos medicamentos nos Estados Unidos, também registrou várias interações contraindicadas nas últimas décadas. Para citar algumas, a combinação entre os medicamentos omeprazol (indicado para tratar refluxo) e clopidogrel (para quem já teve ataque cardíaco) pode duplicar a chance de infarto, e a de diclofenaco (usado para dor e febre) com varfarina (receitada para prevenir tromboembolismo venoso), cujo efeito do primeiro sobre o segundo tem chances de levar a uma hemorragia.

"Mas a principal classe de medicamentos na qual os idosos têm mais reações deletérias são os benzodiazepínicos [diazepam, alprazolam, midazolam], infelizmente usados em excesso e de forma irresponsável", aponta Gustavo Genelhu, geriatra e médico de rotina da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Unimed Vitória.

Prescritos como anticonvulsivos e até mesmo sedativos para dormir, os benzodiazepínicos se combinados com anti-histamínicos (conhecidos como antialérgicos), resultam em um efeito cruzado sobre o sistema nervoso central, podendo causar confusão mental e aumento do risco de quedas e fraturas.

Idosos são mais vulneráveis

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A resposta dos idosos à toxicidade, ação e duração do efeito dos medicamentos costuma ser maior do que a observada em jovens. O motivo? Tem a ver com alterações no organismo deles decorrentes do processo de envelhecimento, como déficit cognitivo, diminuição das funções metabólicas, além de perda de massa muscular e de água e ganho de gordura. Com menos líquido e mais tecido adiposo, os agentes não se dissolvem e suas concentrações aumentam.

"Os idosos também são mais propensos a apresentarem distúrbios médicos crônicos como hipertensão arterial, diabetes e artrite, que podem ser agravados por medicamentos ou afetar o modo como eles funcionam", informa Claudio Lottenberg, médico e presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein e do Icos (Instituto Coalizão Saúde).

Para além da idade e das doenças, os idosos também tendem a se colocar em risco. Os médicos falam de casos de pacientes que usam medicamentos vencidos ou indicados por conhecidos; que não atualizam o que tomam há anos; que, por conta própria, trocam as medicações por outras; ou que prolongam o uso de remédios indicados para curtos períodos.

Algumas observações médicas

Sabendo de tudo isso, se você se preocupa com sua saúde ou com a de alguém acima de 60 anos e quer para si ou para esse idoso que conhece um envelhecimento saudável, guarde bem os recados a seguir dados pelos especialistas consultados por VivaBem:

  • Envelhecimento não deve ser sinônimo de polifarmácia
  • Desprescrição de remédios é uma discussão atual que merece atenção
  • O manejo de medicamentos pode trazer benefícios, se adequado
  • Não é apenas questão de número, mas de qualidade e necessidade de medicações

Em unanimidade, os médicos também concordam que, sim, é possível reduzir o excesso de medicamentos e prevenir complicações decorrentes de usos não monitorados. Para isso, o primeiro passo é levar todos os remédios e receitas para o geriatra, que é o profissional apto para "gerenciar" o idoso, fazer uma avaliação completa sobre eles e a saúde do paciente.

A partir daí, o medicamento pode ser suspenso, revisado, reduzido gradualmente até a mínima dose, ter sua combinação ajustada, manipulado ou usado em horários específicos. "Para tentar reduzir os riscos da polifarmácia também vale escolher um medicamento que sirva para dois ou mais problemas e acompanhar eventuais sintomas", acrescenta Saad.

O médico precisa ter um bom conhecimento de farmacologia e também pesar o custo x benefício do medicamento e se demonstrar aberto a alternativas. "Em se tratando de alguns tipos de dor, sono e incontinência urinária, por exemplo, podem ser usados diversos tratamentos: acupuntura, alongamento, calor local, estimulações elétricas, exercícios, terapias. Se nada funcionar, aí entram os remédios, mas com controle", explica Chehter.

Quando o idoso inspira cuidados

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Se o idoso tem a idade muito avançada ou não tem autonomia, é importante que na consulta com o geriatra estejam presentes além de um familiar ou responsável direto, o cuidador ou acompanhante domiciliar —seja ele técnico ou leigo—, pois sua participação é fundamental.

O cuidador não só contribui para memorizar as informações repassadas, como também com o paciente e o médico ao relatar possíveis efeitos associados ao uso das medicações que o idoso ou alguém da família não perceba ou não saiba explicar, e ainda recebe instruções do que deve monitorar, além de ter a possibilidade de tirar dúvidas sobre cuidados e medicamentos.

"Ele pode acompanhar o paciente em consultas médicas, na realização de exames e administrar medicamentos devidamente prescritos nos horários certos. Tudo de acordo com a orientação de especialistas das áreas competentes. Entretanto, não cabe ao acompanhante diagnosticar, indicar ou ainda ofertar remédios não prescritos", lembra Lottenberg.