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"Já saí chorando do trabalho e quase me demiti", conta mulher com misofonia

A administradora Helaine Ramalho só diagnosticou o problema há quatro anos, mas se incomodava com alguns sons desde a infância - Arquivo pessoal
A administradora Helaine Ramalho só diagnosticou o problema há quatro anos, mas se incomodava com alguns sons desde a infância Imagem: Arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Do VivaBem, em São Paulo

21/08/2020 04h00

Choro, irritação e vontade de sair correndo ao ouvir pequenos ruídos. É assim que pessoas que sofrem com misofonia se sentem ao ouvir determinados sons que, para nós, são comuns e não oferecem problema algum.

O incômodo pode vir ao mascar chiclete, mastigar comida, apertar repetidamente o botão da caneta e até ao ouvir o barulho de um beijo. É como se um amplificador aumentasse o som e a pessoa o percebesse ainda mais.

A administradora Helaine Ramalho, 42 anos, descobriu o problema há quatro anos, mas desde criança percebia que alguns barulhos a incomodavam de forma frequente. Depois de fazer muitos testes, ela obteve um diagnóstico. E o problema se agravou com o passar dos anos, interferindo diretamente na sua qualidade de vida. "Como trabalho em um escritório muito grande, isso atrapalha demais. Já saí do trabalho chorando e pensando em pedir demissão", conta.

Para ela, os piores lugares são escritórios, escolas e transporte público. "Eu simplesmente não consigo prestar atenção em nada se uma pessoa vem e começa a falar comigo mascando um chiclete ou fazendo muitos barulhos para comer. Eu desconecto e vai me dando raiva, angústia, uma vontade de chorar, é terrível."

No caminho para o trabalho, a preocupação é sempre em usar um fone de ouvido para abafar o ruído externo, além de tentar não perceber o que as pessoas fazem. No entanto, em algumas situações do dia a dia a percepção dos sons é mais forte do que ela e fica impossível controlar os sintomas da misofonia.

Em momentos de ansiedade o problema piora e administradora já recorreu até a calmantes. "No local de trabalho é bem complicado. Tem gente batendo na mesa, apertando caneta, é bem desconfortável. Eu fico com o fone de ouvido o tempo todo, mas até o ouvido dói", desabafa.

E depois de ouvir tantas vezes que é frescura ou que é coisa "da sua cabeça", ela parou de contar para as pessoas sobre seu problema. Hoje ela só expõe para quem é mais próximo. "Já ouvi de tudo, mas as pessoas não conseguem entender que é uma doença."

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Imagem: Istock

Para a estudante Leandra Petry Gil, de 37 anos, sofrer com os ruídos também é igual. Desde os dez anos de idade que ela percebe que muitos barulhos a irritavam e impediam de prestar atenção em qualquer coisa que estava fazendo. "Nunca recebi um diagnóstico preciso sobre, mas depois de muito pesquisar, vi que realmente podia ser misofonia", relata.

O ambiente de trabalho também é um dos lugares que mais a incomoda e onde as crises são frequentes. "Já tive situações que me incomodaram muito e eu quase surtei de raiva. Quando era criança, não conseguia dormir na casa de colegas ou parentes, porque alguém roncava e eu chorava de raiva e cansaço", diz.

Embora seja difícil falar disso abertamente com os outros, ela conta que, para alguns, já pediu educadamente para parar determinado barulho ou ruído. "Uma amiga uma vez estava mascando muito o chiclete e pedi para não fazer mais. Ela não gostou muito. São situações bem desconfortáveis e várias vezes já recebi o rótulo de irritadinha", ressalta.

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Imagem: Istock

O que é misofonia?

Misofonia é uma síndrome de sensibilidade seletiva ao som. Mas não é qualquer som, são sons baixos, minuciosos. Pode ser barulho do teclado, pessoas se beijando, mastigação e outros ruídos que para as outras pessoas passam despercebidos.

Como o problema pode ser reconhecido?

O diagnóstico pode ser feito por três tipos de especialistas: otorrinolaringologista, fonoaudiólogo ou psiquiatra. Todas essas especialidades podem detectar a condição e encaminhar para um tratamento específico.

Podem ser feitos exames neurológicos, para ver se a pessoa não tem nada que afete a parte do cérebro, eliminando problemas isolados como depressão, ansiedade, ou outra condição neurológica. Além disso, podem ser feito questionários com perguntas sobre os sintomas da doença e com que frequência eles aparecem.

Sinais que apontam o problema

Vale lembrar que todos os sinais surgem diante de ações que envolve pessoas mastigando, comendo, ou fazendo ações com sons que não são observados de maneira corriqueira. Podem ser:

  • Irritabilidade;
  • Vontade de chorar;
  • Dores no estômago;
  • Reações de fuga;
  • Reações exagerada;
  • Choro;
  • Instabilidade;
  • Mau humor.

Qual é o melhor tratamento?

Ainda não existe uma cura ou um remédio específico para o problema. Mas o cuidado mais indicado é o tratamento com terapia cognitivo comportamental (TCC) para tentar ajudar o indivíduo a lidar com situações de adversidade e controlar os sintomas diante dessas situações. O importante é sempre procurar ajuda de um psicólogo para ajudar no tratamento e nunca achar que a síndrome vai passar sozinha, que é frescura ou algo do tipo.

Fonte: Pedro Katz, psiquiatra da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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