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Como a autoestima baixa leva a abusos e mais problemas nos relacionamentos

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Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

06/07/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Porque pode facilitar relações constantes de abuso e dependência emocional, anulando as vontades e desejos da pessoa em virtude do outro
  • Pessoas podem não perceber que são abusadas ou se permitirem isso por acreditarem que não merecem uma relação melhor
  • ? Nesses casos buscar ajuda é necessário. A psicoterapia tem ferramentas para ajudar a se encontrar neste caminho de autoconhecimento

Um dos principais danos que a autoestima baixa pode ocasionar em relacionamentos é o abuso. A pessoa não se acha merecedora de uma relação melhor e não se reconhece mais facilmente quando é submetida a alguma forma de ataque, rebaixamento ou violência. Existem casos em que a pessoa assimila esses comportamentos como normais, já que por ter autoestima baixa ela nem se dá conta que está sofrendo um abuso.

No entanto, não é o único tipo de dano que a autoestima baixa pode trazer. Listamos alguns dos principais problemas que essas característica podem trazer às nossas relações interpessoais:

Danos aos relacionamentos

Autoestima baixa no trabalho - iStock - iStock
Relações de trabalho e amizades também podem ser afetadas pela baixa autoestima
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Uma tendência de quem tem baixa autoestima é a escolha de relações ruins, em que a pessoa se sujeita a se conectar com alguém que faça ou ofereça menos a ela do que ela merece porque ela não identifica suas possibilidades, não se acha merecedora de algo melhor.

Além disso, quem sofre de baixa autoestima pode, inconscientemente, jogar iscas que permitam com que ela seja humilhada, castigada. Essa pessoa, de repente, começa a esquecer coisas importantes que ela não esqueceria se estivesse sozinha, passa a repetir perguntas óbvias, ou que já foram feitas, passa dar respostas reticentes, ou seja, ela faz provocações para que o outro a critique.

Autoestima é um amor voltado a si mesmo. Para a psicanálise o amor permite três formas diferentes de oposição: o amor e a indiferença, o amor e o ódio e o amar e ser amado. Podemos identificar, portanto, três situações que podem servir de base para o sentimento de baixa autoestima se pensarmos nos contrários da experiência amorosa:

  • Quando investimos nossos afetos em algo que nos é externo a tal ponto do próprio eu perder a importância. Nos perdemos no outro a ponto de não fazer muita diferença em quem nos tornamos a partir disso;
  • Quando nos voltamos excessivamente para o nosso eu, mas de forma a transformar esse autoamor em um objeto de ódio e agressividade, suportamos muito mal a nossa imagem e existência e, em função disso, acabamos nos dedicando a um ataque repetitivo contra nós mesmos, como um exercício constante de auto-ódio;
  • Por fim, quando deixamos de ser ativos em relação aos nossos afetos e, assim, passamos a uma dependência das opiniões e vontades e alguém inclusive para assumir uma posição em relação a nós mesmos. Nesta situação, ser amado se torna mais importante do que amar.

Baixa autoestima e abusos

Vivemos um universo na infância em que em alguma vez já nos sentimos incompreendidos ou injustiçados, mesmo que não tenhamos sido. Para algumas pessoas esses sentimentos são tão fortes e gritantes que elas internalizam isso e transformam em crenças. O passo seguinte é criar microcontratos secretos dessas sensações com elas mesmas, de tal forma que o indivíduo vai procurar na vida adulta reescrever essas situações vividas na infância.

Ele pode então procurar alguém que sabe ser um abusador, com a fantasia de que vai corrigir e fazer que a pessoa seja diferente com ele. Ou então pode inconscientemente provoca a pessoa para finalizar, como na infância, em uma relação de abuso em que ele seja ou incompreendido ou injustiçado.

Como estamos falando de situações em que a própria percepção de si torna-se dependente de outra pessoa, muito provavelmente a vítima desse tipo de relação abusiva (seja o abuso físico ou psicológico) necessite de auxílio para identificar o quão perigosa a relação se tornou ou está prestes a se tornar. Nesses casos, o ideal é buscar o auxílio de um profissional de saúde mental e, somado a isso, uma ampla rede de apoio social e afetivo que ofereça apoio nas decisões necessárias para a ruptura ou reconstrução desses laços.

Quem sofre relações de abuso por ter autoestima baixa, independente se o abuso acontece no trabalho, na escola ou em casa, muitas vezes não se dá ao direito de se defender, pagando muito caro pelo pouco que recebe dos outros. Quando existe sentimento envolvido, se a pessoa está apaixonada pelo abusador, por exemplo, perceber esse abuso fica mais difícil: tanto conseguir reconhecer a pessoa amada como abusador quanto identificar que os abusos são frequentes e não uma experiência eventual.

Autossabotagem

Se há vários caminhos pelos quais podemos encontrar o amor a nós mesmos, o mesmo vale também para o ódio. Se construímos uma relação com a nossa identidade que faz do nosso eu um alvo para a agressividade, ela pode se dar também por diferentes vias. Uma delas é a de identificar a autoimagem nas figuras do fracasso. Isso é especialmente comum nos ambientes de trabalho e de educação, em que acabamos sendo muito dependentes do olhar do outro como forma de avaliação das nossas práticas e condutas.

Um exemplo desse comportamento a aquele indivíduo que se coloca aquém dos outros ou oferece os próprios fracassos como um pedido de reconhecimento, por vezes até de forma antecipada, em frases como "eu sei que eu não vou conseguir", "tenho certeza de que não sou capaz", "aquilo que eu tomo para fazer sempre dá errado". Isso tende a estabelecer uma repetição de relacionamentos abusivos. Neles, o principal resultado é a efetivação da agressividade voltada contra si, encontrando dados na realidade que possam servir de prova da necessidade da sabotagem.

Essas pessoas desenvolvem ainda na infância crenças e microcontratos com elas mesmas —e que ficam inconscientes. É comum que ela, por exemplo, passe a internalizar e acreditar nas frases sobre os fracassos que ela oferece aos outros. Elas colocam essas mensagens na cabeça desde pequenas e crescem acreditando nisso, então, quando existe uma oportunidade, elas se autossabotam.

Casos como esse necessitam de um cuidado especial, sobretudo através de atendimentos psicológicos que levem a um enfrentamento da própria imagem e que coloquem em perspectiva as formas como nos relacionamos com os outros.
Vale frisar que apenas o incentivo ao amor próprio não costuma ser suficiente e, em alguns casos, torna-se inclusive perigoso na medida em que vai se tornando uma espécie de cobrança por mudanças rápidas de postura e de atitude, aumentando o sofrimento na medida em que acabaria por provar que, efetivamente, essa pessoa estaria abaixo do que é desejado ou esperado. Transformações em pacientes que se autossabotam demandam tempo e cuidado, motivo pelo qual a avaliação profissional torna-se tão importante.

Términos de relacionamentos

Autoestima baixa relacionamento - iStock - iStock
A autossabotagem relacionada à baixa autoestima pode levar ao término precoce de relacionamentos
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Términos precoces de relacionamentos em que a autoestima se coloca em primeiro plano tendem a acontecer por duas vias: a primeira delas, e a mais comum, é quando a insistência pelo reconhecimento de uma identidade desvalorizada acaba criando uma situação de sofrimento para ambas as pessoas. Quando a necessidade de rebaixar a si próprio é muito intensa pode acontecer, inclusive, que o sujeito acabe tendo reações de irritação ou agressividade com as tentativas de cuidado e de proteção, reafirmando sua condição de alguém a ser odiado.

Nesses casos, a pessoa começa a provocar coisas para que o outro a rejeite, com atitudes ou ações que sabiamente irão desagradar ao outro, procurando um universo já pronto contra ela, universo criado anteriormente e que foi interiorizado por meio de crenças limitantes.

Outra possibilidade é quando a pessoa com baixa autoestima decide terminar um relacionamento que estava progredindo bem e gerando efeitos positivos como forma de proteger o outro. Essa situação é montada em cima de um sentimento de contágio segundo o qual estar próximo do meu "eu" pode levar o outro ao mesmo sofrimento. Geralmente trata-se aí de casos mais delicados e que demandam atenção profissional, mas, nas duas situações com um fator muito importante que torna o prognóstico mais otimista: a dedicação amorosa de alguém é um fator promotor de saúde psicológica, senão o mais importante deles.

Como tratar o problema?

Quando a autoestima foi diretamente afetada em função de uma situação ou episódio particular, é necessário lembrar que a vida é transitória e descontínua. O que hoje é uma realidade, amanhã poderá mudar e o tempo é um ingrediente necessário para as transformações duradouras.

A duração do sofrimento tende a ser sempre o presente, já que a dor é imperativa e nossas projeções de futuro tendem a estender o presente por mais tempo do que ele realmente dura. Neste caso, o remédio é a paciência: analise com um pouco mais de calma as possibilidades de transformação.

Já quando se trata de uma longa história de mal-estar em relação a você mesmo e que se repete em diferentes situações e com diferentes cenários, levando, por exemplo, a um sentimento de ódio ou de inadequação em relação a sua pessoa, nesses casos a orientação é buscar uma psicoterapia. Determinadas mudanças requisitam, além de tempo, de um ingrediente específico que um profissional da saúde mental irá acrescentar a partir de sua escuta e acolhimento.

Abordagens superficiais sobre autoestima recomendam ações como elogios, muitas vezes falsos, festejos constantes e ações em que a pessoa não se enxergará nelas, e são, portanto, ineficazes e às vezes até constrangedoras para quem está com a autoestima baixa. A melhor ajuda que essa pessoa pode receber é atenção: ser ouvida e ver que o outro está prestando atenção no que ela diz, pensa e responde, de forma a perceber que o que ela disse foi importante e fez sentido para quem a ouviu, mesmo que o outro discorde.

A essência está em ouvir a pessoa, pensar sobre o que ela fala, demonstrar que ela tem visibilidade e que é vista além de um comportamento destrutivo, além de um sintoma, além de um problema. É ver a pessoa. Esse é o melhor remédio para melhorar a autoestima de alguém.

Outra coisa importante para ajudar quem sofre de autoestima baixa, é deixar que essa pessoa perceba que ela é capaz de gerar felicidade. A criança se sente com boa autoestima se ela percebe que o pai e a mãe se sentem felizes com a presença dela. Muitas vezes os pais assumem tantas responsabilidade e tarefas que a criança passa a ser mais um item nessa lista e a ela percebe que, em vez de trazer a felicidade, ela gera responsabilidades e compromissos. Isso piora a sua autoestima.

Então, o que podemos fazer pelo outro, é proporcionar que a descoberta seja de dentro para fora: ouvir, perceber, demonstrar que o que tem visibilidade é ela, a pessoa, e não o resultado do que ela faz. Paralelo a isso, a terapia é fundamental para ajudar essa pessoa a melhorar sua autoimagem e autoestima, pois dificilmente ela conseguirá resolver essas questões sozinha.

Fontes: Wimer Bottura, psiquiatra e psicoterapeuta, presidente da ABMP (Associação Brasileira de Medicina Psicossomática) e membro do grupo de professores da cadeira de psicologia médica da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo); e Tiago Ravanello, psicólogo, psicanalista e professor associado da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

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