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Ela já teve crise de ansiedade com flexibilização da quarentena: como lidar

A arquiteta Stella Demucio sofre com crises de ansiedade desde setembro de 2019, mas encontrou novos gatilhos com a pandemia e flexibilização da quarentena em São Paulo (SP) - Arquivo pessoal
A arquiteta Stella Demucio sofre com crises de ansiedade desde setembro de 2019, mas encontrou novos gatilhos com a pandemia e flexibilização da quarentena em São Paulo (SP) Imagem: Arquivo pessoal

Carolina Cristina

Colaboração para o VivaBem

04/07/2020 04h00

Desde o final de maio fala-se em São Paulo sobre a flexibilização gradual da quarentena para impedir a disseminação do novo coronavírus, e isso têm provocado medo em diversas pessoas. É o caso da arquiteta e urbanista, Stella Demucio, 23, mora em São Paulo e já sofre com crises de ansiedade desde setembro de 2019. Durante a quarentena, a jovem teve duas por conta do isolamento e da retomada de atividades. "A última crise foi bem forte e ocorreu porque a prefeitura fez o rodízio e eu soube que ia precisar começar a ir para o trabalho de ônibus. Até então, eu estava indo e voltando de carro".

Stella trabalha na construção civil, serviço essencial, por isso ela ficou apenas um mês em casa de home office e, em abril, já estava de volta ao trabalho no escritório. Quando soube que precisaria retornar durante o mês que teve 1.350% mortes a mais que o anterior, segundo o governo estadual, não chegou a ter crise de ansiedade, mas teve uma de choro, "fiquei bem mal porque me desesperou. Até então estava isolada, mas me preocupei em pegar o vírus e passar para os meus pais".

Mas Stella não é a única a sofrer com ansiedade na pandemia. Segundo a última pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, em um levantamento semanal com 16 países chamado de Tracking the Coronavirus (Rastreando o coronavírus, em tradução livre), quatro em cada dez brasileiros (41%) tem sofrido de ansiedade nesse período.

Mais pessoas na rua, mais medo de sair

O governador de São Paulo, João Doria, anunciou no dia 27 de maio a retomada gradual das atividades econômicas do Estado a partir de primeiro de junho. Stella, que já estava acostumada a sair de casa para ir ao trabalho, ficou desesperada com essa medida, por causa da quantidade de pessoas que começam a voltar às ruas. Para diminuir o contato físico, Stella vai para o escritório de ônibus pela manhã e não encosta em nada, mesmo que tenha algum banco vago, além de não tirar a máscara em nenhum momento. Na volta, ela anda 40 minutos a pé para chegar em casa.

Para as pessoas que sofrem com crises de ansiedades recorrentes e agudas, a recomendação da psicóloga Ana Gabriela Andriani, doutora em psicologia pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é procurar ajuda profissional de um psiquiatra para entrar em processo terapêutico e, dependendo do grau, começar o uso de remédios, porque é isso que vai fazer com que o paciente fique estável. Além disso, a especialista ainda explica que, durante retorno das atividades em sua região, a pessoa deve se respeitar e procurar conversar com seus superiores (se houver abertura) e seu terapeuta, caso não se sinta bem para trabalhar em determinado dia.

Essa conversa foi possível para Stella, que tem liberdade onde trabalha e se sente à vontade em falar sobre sua ansiedade. Seu gerente está ciente de suas crises e, por isso, a arquiteta já recebeu folga duas vezes —sendo a última, na semana retrasada — por causa da instabilidade emocional. Porém, esse caso não é tão simples para todos. Muitos profissionais escondem seus problemas de saúde mental da empresa em que trabalham por medo do preconceito e receio de duvidarem de sua capacidade.

Stella Demucio 3 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Para evitar multidões, Stella tem voltado do trabalho a pé, um trajeto que percorre em 40 minutos
Imagem: Arquivo pessoal

Stella começou acompanhamento psicológico em novembro de 2019 e, os remédios, em janeiro deste ano, depois de uma crise tão forte que a fez parar no pronto-socorro para tomar calmante. Durante esse tempo de isolamento social, a arquiteta foi aconselhada a se manter afastada das notícias e procurar novas formas de se manter ocupada sem cair em um limbo de preocupações.

Ela conta ainda que, graças à terapia, soube lidar com a quarentena e que só teve uma compulsão na fase de isolamento. "Durante esse período, acabei descontando minha ansiedade em compras online. Para não gastar com o que não devo, minha psicóloga disse para eu sempre fazer três perguntas antes de comprar 'eu quero? eu posso? eu preciso?' se uma das respostas for 'não', então devo repensar a compra".

A ansiedade dos brasileiros durante a pandemia

Ainda segundo o estudo Ipsos, as mulheres são as mais afetadas, sendo 49% das entrevistadas se declarando ansiosas. Além disso, o Brasil acabou se tornando o país mais ansioso do mundo, seguido de México (35%) e Rússia, em terceiro (32%).

Segundo Alfredo Maluf, psiquiatra da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, "devido ao isolamento, medo da doença, estresse relacionado ao trabalho, como insegurança de perder o emprego, houve um aumento grande de transtornos ansiosos".

A ansiedade é caracterizada por sintomas tanto físicos quanto emocionais. Em uma crise é possível que o paciente tenha sudorese, taquicardia, falta de ar, muitas vezes rebaixamento da capacidade cognitiva, sentir tremor e ânsia de vômito. Já o lado emocional é abalado por medo, insegurança e pavor específico da morte —porque a pessoa pensa que todos aqueles sinais indicam que ela irá morrer. "Se me dissessem que a pandemia vai acabar em agosto, eu ficaria mais tranquila" conta a arquiteta.

As pessoas que têm uma tendência a desenvolver crises de ansiedade são controladoras, muito exigentes consigo mesmas, e não aceitam as suas falhas.

Tem tido crises de ansiedade? Veja como reconhecê-las

Para aqueles que estão começando a desenvolver crises durante esse período, Andriani recomenda tentar entender e legitimar seus sentimentos e que, por estarmos passando por um momento de instabilidade, é comum aumentar a ansiedade por causa da insegurança, vulnerabilidade e falta de controle da situação. É preciso mentalizar que essa fase irá passar e que nenhuma situação ruim é eterna.

A crise de ansiedade se caracteriza por um forte sentimento de apreensão, angústia e medo, acompanhada de:

  • Palpitação, coração pulsando forte ou acelerado
  • Sensação de garganta fechada;
  • Suor;
  • Tremores;
  • Falta de ar;
  • Sensação de desmaio;
  • Náusea ou desconforto abdominal;
  • Formigamentos.

Caso as crises de ansiedade sejam recorrentes e agudas, é necessário que a pessoa busque ajuda médica e psicológica, para entrar em um processo terapêutico e, dependendo da situação, faça uso de medicamentos que ajudarão no processo. Confira 8 dicas para lidar com uma crise de pânico.

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